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domingo, 21 de dezembro de 2014

Os limites da imaginação humana

Ontem, enquanto assistia ao último filme do The Hobbit, estive agudamente consciente de uma coisa: inventam tanto troll, tanto orc, tanto elfo, tanto verme gigante, tanto anão, tanto hobbit, tanto feiticeiro, mundos mágicos com pormenores intrincados, línguas novas que se criam de raiz, criaturas que são misturas de hienas e cavalos, dragões que falam, mas o que não se consegue inventar nem conceber é uma sociedade - nem que seja de anões, de orcs, de feiticeiros ou de elfos - que não seja patriarcal. As relações de género são as mesmíssimas que no nosso mundo real aborrecido.
(Os exércitos são todos de criaturas do sexo masculino, pouquíssimas personagens femininas e as que há é para enfiar histórias de amor no enredo, ou para serem filhas que gritam muito de horror para serem salvas pelo pai e irmão, a companhia que foi reconquistar a montanha era toda de anões homens + hobbit homem + feiticeiro homem, o previsível "women and children" para o abrigo enquanto os homens lutam, etc.)
 
Mulheres no poder e a fazerem coisas que importam, isso é que era ficção científica.
 




S.
 
 
P.S. Os elfos, ainda assim, parecem a sociedade mais igualitária. Mas para uma espécie tão perfeita, deixam muito a desejar nesses campo.

sábado, 22 de novembro de 2014

Acabando com o sexismo no futebol, um passo de cada vez




Durante a semana passada vários patrons do clube demitiram-se após o clube ter deixado o ex-violador voltar a treinar, incluindo a campeã olímpica Jessica Ennis-Hill, que pediu para retirarem o nome dela de uma as bancadas do estádio do Sheffield United caso Ched Evans voltasse a integrar formalmente a equipa. Alguns patrocinadores ponderaram retirar o financiamento ao clube.






Chegaram a perguntar ao primeiro-ministro britânico o que é que ele pensava deste caso, durante a cimeira do G20 da semana passada na Austrália.






No final das contas, o clube não aguentou a pressão. Dizem eles no comunicado de ontem isso mesmo, que nunca pensaram que este assunto tomasse as proporções que tomou e que dividisse os adeptos de foma tão fervorosa. E que agora, o clube, muito contra a sua vontade e contra os seus princípios de justiça e igualdade de tratamento de profissões, volta atrás na sua decisão. Culpam a reação mob-like de um grande número de pessoas que esteve contra a integração de Evans de volta na equipa. (Ainda assim a única reação mob-like que veio a público veio de um dos apoiantes de Ched Evans que enviou uma ameaça de violação à campeã olímpica que quis que o seu nome deixasse de ser associado com o clube caso o clube reintegrasse o ex-violador. Enfim, pormenores.)






Entretanto a seleção de futebol feminina inglesa vai fazer história amanhã, ao jogar num estádio Wembley completamente esgotado contra a Alemanha. Prova de que há mercado para o futebol feminino, sim senhora, haja a vontade de o promover eficazmente.



Baby steps; baby steps.






















S.

terça-feira, 14 de outubro de 2014

Sexismo onde menos se espera #3

Aaah, estereótipos em livros universitários:



O géniozinho da estatística e a menina que odeia números e estatísticas.

 
(Há meninas que não odeiam números e até se inscrevem em mais disciplinas de números do que é esperado delas. É isso mesmo: esta menina aqui não só não tem medo de números como ainda lhes vai dar uma festinha e trazê-los para casa domesticados, a ronronar. O orgulho de tantas pessoas de letras de que "não tenho jeito nenhum para matemática" arrepia.)





S.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Sexismo na BD e exercícios inversos

Uma amante de banda-desenhada decidiu desenhar conhecidos super-heróis com fatos altamente sexualizados, como são as indumentárias típicas das super-heroínas. Este é mais um daqueles exercícios de inverter os papéis, que na minha opinião são a forma mais eficaz de provar certos pontos.




Tudo DAQUI.

As intenções dela, segundo o artigo, eram:
 
- fazer com que a primeira coisa que se pensasse assim que se olhasse para as imagens era em sexo, quer se queira quer não;
 
- fazer com que as pessoas do sexo masculino que vissem as imagens se sentissem desconfortáveis;
 
- tornar a coisa num exercício humorista, porque ao fim e ao cabo, torna-se cómico.




S.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Quebrar glass-ceilings, um de cada vez

Por falar em pressupostos.
 
No domingo corri a Corrida dos Sinos, uma corrida em plena terra natal, com companhia, por uma estrada que conheço como a palma da minha mão. Esta era uma corrida que eu costumava ver passar todos os anos, desde que me lembro de mim, e olhava os seus atletas com um misto de admiração por serem capazes de correr tantos quilómetros, pena porque aquilo era gente que só podia ir em sofrimento, e assombro por claramente haver tanto maluco e deixarem-nos ali à solta, a correr, ainda por cima.
 
Aquilo há duas provas em simultâneo e os 3 primeiros quilómetros de trajeto são iguais. Há a dos Sinos, de 15 km, e a dos Sininhos, de 6, na qual muitas pessoas vão a caminhar. Quando me dirigi ao balcão para levantar o dorsal da prova, levei com a observação seca de "Isto aqui é para os Sinos" do simpático senhor que estava a distribuir os envelopes para a corrida dos 15 km. Certo. E as meninas pequeninas, podem participar ou isto é só para os homens grandes?
 
Como coincidência, recebi um panfleto no dia da corrida com algumas curiosidades sobre o atletismo e o 25 de abril. De como as provas eram proibidas durante o Estado Novo (é realmente um ajuntamento com algumas semelhanças aos motins, especialmente no arfamento e na passada rápida), e de como as mulheres particularmente eram desencorajadas a correr, visto que era uma coisa muito pouco feminina (a teoria da mulher como objeto para ser admirado/possuído e não como sujeito, explicada n'O Segundo Sexo, assenta aqui que nem uma luva). O panfleto explicava depois como tinham surgido os primeiros grupos de atletismo em Mafra e, consequentemente, esta corrida emblemática.   
 
No outro dia, enquanto deambulava pela Internet fora à procura da próxima sessão de masoquismo corrida, descobri os 20 km de Bruxelas. É um percurso espetacular, que passa por vários sítios icónicos aqui do burgo, e grande parte deles são meus percursos habituais de treino. Seria a minha última oportunidade de participar numa corrida aqui na Bélgica, e, não fosse dar-se o caso de aquilo calhar num domingo de manhã após uma semana de trabalho intensivo fora do país, seria perfeito. Mas o cansaço antecipado dessa semana é um grande travão no meu entusiasmo por isso a corrida estava já a modos que descartada.
 
Até que uma coisa me chamou a atenção:



Que desequilíbrios são estes?! Onde estão as meia-maratonistas?? A decisão foi imediata. Pois se o percurso familiar não chegar para o sacrifício, a vontade de contribuir para desconstruir pressupostos servirá. 




S.

quinta-feira, 27 de março de 2014

O pão de homem é o novo espinafre

A Feministing escreveu um artigo que eu gostava muito de ter sido eu a escrever: "The most pointlessly gendered products."
 
Desde que descobri o man-washer que sei que há todo um mundo disparatado de produtos para ele e para ela por explorar. Os exemplos do artigo são ainda melhores:

- lenços de papel:
 

"Because Real Men's tears are too big and strong for regular tissues."
 
 
- Pão (!!! eu sei. Pão). Porque aparentemente existe pão de homem (literalmente, men's bread) e pão de mulher, como existe comida de cão e comida de gato, nunca podendo ser confundidos. Os cães não podem comer comida de gato mas os gatos podem comer comida de cão. Quem será o cão e quem será o gato neste jogo das pseudo-diferenças?...
 
 
 
 
- Ovos (!!! idem). Ovos de princesa e ovos de pirata, com as respetivas cores rosa e azul a marcar cada um para que os meninos e as meninas aprendam desde muito cedo quem são e do que devem e não devem gostar. Oh meu deus, e se houver um filho e uma filha na mesma casa? Como fazer para não dar a um e outra o ovo estrelado da caixa errada?! Como impedir que a criança cresça sem problemas de identidade se comer acidentalmente o ovo errado?! Mas alguém já deve ter pensado nisto e de certeza que existem frigideiras de princesa e de piratas, para cozinhar os ovos homónimos. O importante é não haver confusão, valha-nos deus.
 
 
 
 
- Ligaduras de pulso. Porque os pulsos são aquela parte do corpo humano que nos distingue entre homens e mulheres, como toda a gente sabe.
 
 
 
 
Eu ficava nisto a tarde toda mas a verdade é que isto é coisa para se tornar aborrecido. Podem sempre checar o álbum que a Sociological Images compilou no Pinterest sobre estes produtos. Que foi aliás onde as escritoras da Feministing se inspiraram.
 
 
 
 
 
S.


terça-feira, 18 de março de 2014

Sexismo onde menos se espera #2

Uma pessoa fêmea vai levantar a t-shirt oficial da meia-maratona a que tem direito. Em não havendo o seu tamanho nem o acima, decide levar a t-shirt reservada ao outro sexo porque dessas há das pequeninas. Uma pessoa diverte-se com a cena que está a acontecer mesmo ao seu lado em que um distribuidor de t-shirts tanta convencer uma pessoa macho a fazer o mesmo e a levar a t-shirt do outro sexo porque já não há o seu tamanho nem perto das para machos. Uma pessoa começa a ficar estupidamente consciente das suas raízes feministas quando a pessoa macho até leva as mãos à cabeça em dramatismo quando o distribuidor de t-shirts, ainda a tentar convencer que as t-shirts não são assim tão diferentes diz “ela nem parece de mulher, acredite, quem não souber que era para mulher nem vai adivinhar”. Uma pessoa decide instigar um bocadinho de bom-senso naquela cena e declara meio a sério, meio a brincar (o bom senso tem que ser instigado meio a brincar porque egos masculinos destes são frágeis) um “Eu vou levar uma t-shirt de homem porque também não havia o meu número. E não me importo.” seguido de sorriso convencido. Os distribuidores de  t-shirts juntam-se num coro de “pois”, e “exato”, e “está a ver!” mas eu lanço outro sorriso satisfeito e vou-me embora antes de saber se a pessoa macho desceu ao nível de aceitar a t-shirt de pessoa fêmea ou não. Porque é disto que se trata, não é? Da vergonha. A vergonha instigada desde muito cedo que fazer coisas de gaja é degradante, des-masculinizador, quase um crime. Vou constatando agora, que até para certas mulheres o é. Uma atitude muito “eu sou gaja mas não sou «dessas» gajas”. Isto não é igualdade. É o contrário de igualdade porque é a demonização de tudo o que é estereotipicamente feminino. Considerado mau porque, lá está, tem o cunho do “feminino”.

Para mim, e suspeito que para a maioria da população feminina, usar uma camisola de homem não é nenhum problema. Às vezes até aparecem aquelas peças de roupa que se chamam “boyfriend cardigan” ou “boyfriend jeans” e assim. Uma mulher usar calças é aborrecidamente banal e absolutamente nada digno de nota. E um homem usar uma saia? Nop, não é possível. Quem usa saias são as mulheres.

Isto sem entrar na questão de para que raio é que se tem que diferenciar tudo segundo o género. Para quê que hão de criar uma t-shirt para mulheres e uma t-shirt para homens para uma corrida? É a porcaria de uma corrida, o objetivo é ser confortável e ir tudo de igual, não é nenhum desfile de novas tendências. E ainda se poupavam problemas de tamanhos a mais num modelo e tamanhos a menos noutro.


Eu acabei por levar a minha t-shirt preferida, uma coisa muito verde fluorescente, muito (da seleção) portuguesa, muito de homem, mas que me serve como nenhuma outra, orgulhosamente oferecida pela cara-metade. Garanto que os meus ovários ainda funcionam.






S.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

A política ainda é um gigantesco boys' club


Por ocasião da Primeira-Ministra australiana ser incluída no menu de uma festa da oposição, o the Guardian compilou um Top 10 de momentos estupidamente sexistas da política. Sempre casos em que se vilipendia mulheres no poder por duas razões maiores:

- ou porque são bonitas demais e é um desperdício;

- ou porque são umas cabras do pior e deviam estar caladas/na cozinha/em casa onde ninguém as veja envelhecer.

Tal como nas personagens-tipo dos media, há aqui variações nos insultos dirigidos a estas mulheres. Mas no fundo, são apenas nuances destas duas categorias. Assim, e seguindo a lista do artigo:

- temos o Cameron a lançar um arrogante e condescendente "calm down, dear" a uma deputada da oposição no meio de uma tirada desta. A velha ideia do histerismo de que padecem as mulheres e que foi considerado doença psiquiátrica até à década 50 do séc. XX (curiosamente era uma doença de que só as mulheres podiam padecer). A atitude profundamente condescendente com que muita gente trata mulheres quando estas levantam a voz irrita-me solenemente, particularmente quando se está numa discussão/debate. A mulher como histérica, o homem como assertivo. Atitude direitinha à 2ª categoria;

- ... tenho algumas dúvidas se não devia saltar este. É sobre o Berlusconi. Ora bem, de um "senhor" que organiza bunga-bunga parties e contrata prostitutas adolescentes não se pode esperar respeito pelas mulheres. No entanto, é incrível as coisas que este homem vomita sob a forma de palavras. Entre sugerir que empresas deviam investir na Itália porque lá têm secretárias muito bonitas (que, como toda a gente sabe, são parte da decoração de um escritório; e ainda tiram uns cafés e mandam uns mails como bónus, que catita!), ou que o Zapatero, por ter no seu governo uma maioria de mulheres teria o dobro do trabalho a controlar o seu Executivo (as mulheres são emotivas por natureza, claro está, imaginem umas quantas a governar um país...! Dupla dificuldade de controlo uma vez por mês porque... hormonas!), o Berlusconi oscila em diarreias de "mulheres são eye-candy" e "irra, que cabras!". É um homem que encerra todo um fenómeno sociológico em si mesmo, uma espécie de micro-clima da sociologia.

- entretanto, na África do Sul, a líder da oposição recebe bocas sobre o facto de ser gordinha, interrompem-na no Parlamento para dizer - de forma muito pertinente, claro está - que devia fazer qualquer coisa ao cabelo, e durante o debate do orçamento, e relativamente ao que levava vestido, acusam-na de não respeitar as regras de decoro daquela casa. "Feia, gorda, cala-te, vai para casa, pára de tentar discutir política ao nosso nível." Foi também acusada de ser uma ninguém, uma "tea girl" (se é para arrasar, é para arrasar).

- na mesma nota, a Ministra da Habitação francesa teve que aguentar piropos em forma de assobios (mas está tudo doido?! Mas em que mundo é que vivemos?!) durante o seu discurso na Assembleia Nacional francesa. As desculpas dos assobiadores - que são as mesmas sejam os assediadores homens de fatinho e gravata, líderes de uma nação, sejam homens das obras (querendo isto dizer que não é uma questão nem de educação, nem de classe, nem de idade, é de papéis de género masculino gone wrong) - foram que ela estava a pedi-las porque levou de propósito um vestido que os distraía do que ela estava a dizer e que os assobios eram um tributo a ela, e que portanto, inferindo destas afirmações, ela devia era estar grata e sentir-se muito lisonjeada. Novamente, pergunto: mas que porra de mundo é este?!

- um tweet sobre como uma ex-deputada devia estar caladinha e ser uma boa esposa em vez de responder aos meninos crescidos da Câmara dos Comuns; 

- outra sobre como uma mulher indiana, após 20 anos de andanças na política de alto-nível, ainda tem que ouvir coisas como "fiquei engasgado com a beleza dela" ou como supostos colegas de Câmara não se conseguem controlar e que depois lá fora revelam o que não podem revelar ali dentro. Tudo isto porque foi, em jovem, vencedora de uma concurso qualquer de beleza. Claro exemplo de categoria 1.

- depois, a Presidente sul-coreana, acusada de não ter qualquer espécie de "feminidade" por não ter filhos, nunca ter dado à luz, etc. Mas acusada de não estar à altura de ser comandante das forças armadas por ser mulher e não ter experiência na matéria. (Ou seja, cabra mas não cabra o suficiente, aparentemente.)

- na mesma nota, a famigerada Primeira-Ministra australiana, vilipendiada por não ter filhos e que portanto é uma pessoa fria, coração de pedra, e que como pode uma mulher assim ter empatia suficiente para governar um país. A ideia pelos vistos ainda extremamente enraizada de que uma mulher que escolhe deliberadamente entre filhos e carreira é uma aberração.

- entretanto, piadinha no Chile sobre como as mulheres não sabem o que querem, e que quando dizem "não" querem dizer "sim", umas indecisas. (Acho, de todos os mitos sobre géneros, este o mais perigoso. É ele que vai perpetuando o que muitos apelidam de "rape culture", e de que a vítima tem sempre qualquer dose de culpa, porque estava a pedi-las, porque tinha uma mini-saia justa, porque estava bêbeda, porque foi por aquele caminho sozinha, porque mandava supostos "sinais". "Não" significa "não", não significa "talvez", nem é um convite para mudança de ideias. Mas esta conversa leva-me por um caminho muito extenso, que não é para percorrer hoje).

- finalmente, a Hillary Clinton. Essa teve que ouvir repetidos gritos de "vai-me passar a camisa a ferro!" durante um comício durante a corrida às presidenciais norte-americanas de 2008 e é constantemente apelidada de histérica, estridente, e cabra. Mesmo assim, com as letras todas: b-i-t-c-h. Pessoas tipo Glenn Beck e Rush Limbaugh (que eu não sei como ainda estão autorizadas a respirar) que dizem sem vergonha nem escrúpulos nenhuns que ela é "o estereótipo de cabra" e que seria um inferno para todos os homens americanos durante quatro anos se ela ganhasse as eleições para Presidente. Mais: que era uma coisa horrorosa ver uma mulher envelhecer diariamente à frente da nação toda. ... E é nestes momentos que uma pessoa chega a conclusão que quais sexismos subtis quais quê, o machismo violento e desavergonhado está bem e recomenda-se neste nosso mundo ocidental. E que estas criaturas podem não ser representativas dos EUA mas que têm uma base de fãs demasiado alargada para que eu possa restaurar a minha fé na Humanidade a 100%.

Acho que isto dava uma investigação de doutoramento tão frutífera, estudar de que forma a misoginia está infiltrada no debate político. Mas depois talvez quatro anos não fossem suficientes para o levantamento de exemplos.





S. 


quarta-feira, 12 de junho de 2013

Os humoristas andam originais

E por falar em notícias que consistem em imagens grotescas de comida: a oposição na Austrália organizou um jantar e colocou no menu as mamas pequenas e as coxas grandes da primeira-ministra, Julia Gillard.


Espetacular, hã? Dar a um prato o nome de partes do corpo de uma oponente. Só classe. (Notícia aqui)

Claro que, sendo isto revoltante, não é inédito nem devia ser tão surpreendente. Julia Gillard tem um defeito que é ser uma mulher com poder. E as armas de arremesso preferidas contra mulheres no poder (ou contra qualquer mulher, agora que penso melhor) são insultos à aparência. Acho que é um reflexo inconsciente do que nos foi incutido durante a primeira infância, quando contrariados atirávamos à cara da menina que nos estava a chatear seriamente aquele insulto muito demolidor de recreio de infantário de "és feia!". Exceto que a coisa não pára no infantário, continua antes pela vida. Qualquer revista e blog cor-de-rosa o atesta.

Mas o que é mais interessante é como o insulto continua a ser atirado mesmo contra mulheres poderosíssimas, que alcançaram cargos de topo nos países respetivos, e que ainda assim não merecem mais que um "és feia!", "és gorda!", "és velha!", "és mal feita!". Estas mulheres singraram altamente num meio ainda extremamente dominado por homens mas isso pouco parece importar ao lado dos seus falhanços na maior aspiração e papel da mulher: ser bonita. Contem quantas vezes o Ricardo Araújo Pereira, o Bruno Nogueira e o Nilton colocam o adjetivo "gorda" na mesma frase que Merkel. Ou o frenesim que se gerou quando Hillary Clinton apareceu sem maquilhagem algumas vezes e sem cabelo arranjado (acusaram-na imediatamente de estar a descurar os seus deveres como Secretária de Estado. Ao que ela respondeu qualquer coisa como "Oh meninos, eu cheguei a um ponto na minha carreira em que me posso dar ao luxo de me estar a marimbar para se pinto os olhos ou não. O meu título fala mais que todo o meu guarda-vestidos junto." Pimba, calou.)

O que é verdadeiramente preocupante neste caso da Julia Gillard é a escolha da comparação: coxas e peito, duas partes do corpo feminino extremamente sexualizadas. Ou seja, o insulto aqui dá um passo a mais no sexismo dos "és gorda" e "és feia" para passar a ser "és um objeto sexual, para ser olhada, avaliada [o "mamas pequenas e coxas grandes"] e comida". A alusão à violação como forma de silenciar uma mulher e de a submeter à vontade do seu oponente a permear toda esta brincadeira oh-tão-sofisticada. 

Por isso, refletides: da próxima vez que quiserem insultar a Merkel através do seu peso corporal, pensem "E se fosse o Berlusconi, também o chamaria de gordo?" (nunca ouvi ninguém chamá-lo de tal). Aposto que muitas outras infâmias surgiriam à frente na lista de insultos ao palhaço. De modo que chamando "gorda" à Merkel mas "palhaço" ao Berlusconi, tendo os dois senhores relativamente a mesma massa corporal, sim, seria sexista. Sede originais.





S.   

quarta-feira, 20 de março de 2013

Sexismo onde menos se espera

Entretanto, numa Boots algures em Edimburgo:



Manwasher.

Esta espécie de esfregão cinzento é nada mais nada menos que uma esponja especialmente desenhada e construída para homens. É uma esponja? Não, não, é um "manwasher".

What the fuck, pergunto eu. Quem foi a cabeça brilhante que achou que havia qualquer coisa de errado com uma esponja normal para que esta pudesse ser usada por homens? Mas porquê a diferenciação forçada? O que tem uma esponja de tão feminino que tenha havido alguém que se tenha lembrado que o que fazia falta era adaptar um esfregão ao banho, para os homens se sentirem mais confortáveis a lavar a pele.

Estou a imaginar o slogan: "Manwasher. Because using a sponge is too girly." É só a porcaria de uma esponja! Usa-se para esfregar a pele, algo comum a todos os seres humanos, tenham eles pipi ou pilinha.

De reparar na cor que foi escolhida, o cinzento, uma cor muito máscula, e naquela pega de plástico, para tornar todo o objeto o mais parecido possível com uma ferramenta de construção - isso sim, de homem - e o menos possível com uma esponja, essas coisas fofinhas usadas pelas gajas com todas as suas mariquices de beleza, tipo lavar a pele como deve ser, e o caraças.

A minha questão é: será que este objeto apareceu porque foi descoberto um nicho de mercado, ou seja, há homens que realmente têm vergonha de usar uma esponja porque esponjas são coisas de gaja, ou será que o produto surgiu e criou ele próprio uma necessidade que não existia? Se calhar depois de verem este manwasher num supermercado, há homens que passaram a ter vergonha de usar uma esponja normal, porque claramente são femininas e não sabiam, porque, oh, aqui está a prova*.

O mundo do marketing e da publicidade é um poço de inspiração para a luta feminista e eu só agora me apercebi.



S.

* No fundo esta é a questão de base do feminismo: saber o que são as diferenças intrínsecas e as que são construídas por influências externas.