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quarta-feira, 10 de abril de 2013

IRS codificado

Os meus papéis de IRS, primeiros na vida, já chegaram e vêm em flamengo.

É espetacular. 

Estou há meia-hora a olhar para eles, a fitar palavras como BEZOLDIGINGEN e AFZONDERLIJK BELASTBARE INKOMSTEN e SCHEIDSRECHTERS e ARBEIDSOVEREENKOMST e BEZOLDIGINGEN (ah não, espera, esta já passei) à espera que com a intensidade do meu olhar carrancudo elas se traduzam automaticamente.

É por estas e por outras que sempre adorei a expressão "glaring daggers". É o que estou a fazer agora. Glaring daggers contra o papel. 

Bem, então vou ali abraçar-me ao Google Translate durante umas horinhas e já venho.




S. 

sábado, 3 de novembro de 2012

Comédia à francesa

Depois de muito debate e de muita hesitação, hoje decidimos ir ao cinema. Foi a primeira vez que o fizemos cá, e, como explanarei de seguida, não foi uma decisão fácil.

A ideia começou a pairar com mais intensidade quando estreou o novo Astérix. Dos poucos filmes que vimos em francês - e gostámos - seria sempre mais um que iríamos ver de qualquer forma. Decidimos que seria o filme ideal para nos estrearmos num cinema belga.

Várias coisas constituem um problema em ir ao cinema em Bruxelas. As que já sabíamos:

- som francês: o problema mais óbvio de todos. Nenhum dos dois entende francês tão bem que consiga acompanhar uma história do princípio ao fim, perceber todos os detalhes e piadas como se se tivesse a ver um filme em português ou inglês. Aqui há também a mania de dobrar os filmes americanos, e, ainda que se se procurar bem dê para encontrar versão original, não é fácil. 

- legenda neerlandesa: ah, legendas; as nossas melhores as amigas. NOT. Filme dobrado em francês com legenda em neerlandês é ouro sobre azul, sem dúvida. Não basta uma pessoa estar a esforçar-se para ouvir e perceber um filme numa língua à qual não está habituada a ter numa sala de cinema, como ainda quando aparece o guia visual da tradução, está numa língua ainda mais impercetível para dois pobres portugueses. Há que fazer um esforço consciente para ignorar o palavreado com que somos bombardeados na parte inferior do ecrã.

- o preço: cinema equivale a luxo nestes países do norte e uma pessoa chora internamente enquanto paga vinte euros por dois bilhetes. Ainda que já tenha pago 26 libras.

Foi por isso com um misto de ansiedade e excitação que entrámos hoje na sala de cinema e nos sentámos à espera dos trailers e do filme que sabíamos não poder esperar entender perfeitamente. Por entre risos combinámos que pelo menos isto era um filme de comédia, e portanto saberíamos que os pontos altos das piadas seria quando ouvíssemos gargalhadas do resto da sala, que era só imitar.

Chegaram os trailers e eu fiquei logo com uma dor de cabeça enorme. Uns eram em francês sem legendas, outros em inglês com legendas em francês, outros em francês com legendas em neerlandês. Um houve cujo som era italiano e portanto tinha legendas duplas em francês e neerlandês, a correr em simultâneo. Começou a apetecer-me bater com a cabeça no banco da frente. 

Depois começou o filme e começa-se a ouvir a versão original francesa. A legenda aparece e os olhos descem inconsciente e instintivamente para a ler, mas lá vem a linguagem dos flamengos e uma pessoa respira fundo enquanto se mentaliza que tem que se apoiar apenas nos ouvidos para entender o filme que aí vem.

É um bocadinho triste. Aquela gente fala muito rápido e se há variação de tom, como um murmúrio, lá vai o entendimento para o galheto. E depois começa tudo a rir na sala e nós não captámos a piada e olhamos um para o outro como que a perguntar "...Percebeste?...". Uma pessoa sente-se excluída. Mas ainda assim não foi tão mau. A comédia é uma faca de dois gumes nesta coisa da linguagem: por um lado as ações, sentimentos, etc são muito mais exagerados e portanto chega-se lá facilmente pela linguagem corporal dos atores, ainda que não pelas palavras exatas; por outro lado é feita de piadas e é permeável a trocadilhos, a que só se chega verdadeiramente se se entender a língua muito bem. Por isto mesmo conseguimos perceber muita coisa, definitivamente entendemos a história, apenas algumas cenas cómicas se perderam.

O sentido de humor destes filmes, cheio de nonsense e atravessado de anacronismos conscientes é um que eu prezo muito e muito bem-vindo por ser tão diferente do habitual hollywoodesco, e distinto também do humor britânico (se bem que este filme era sobre aventuras do Astérix na Grã-Bretanha por isso houve uma espécie de mix entre os dois e, claro, festa de estereótipos :D).

Fazía-nos bem ter TV local. É a conclusão que me ocorre tirar.





S. 

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Encomendas, autocarros e tudo o que fica pelo meio

A Bélgica tem o sistema de correios mais aleatório com que já lidei. A sério.

As cartas escapam a esta observação, já que aí ainda não tive problemas de maior. Mas no que toca a encomendas, há que fazer um esforço grande para não desatar a arrancar cabelos.

Quatro encomendas que já recebi aqui, todas vindas de Portugal. Os correios belgas conseguiram a proeza de dar quatro destinos diferentes a essas encomendas. Da primeira vez, chegou o carteiro e, como não estava ninguém em casa, deixou o normal papelinho para ir levantar aos correios mais próximos. Sim, senhora. O facto de os correios aqui, tal como em Londres, estarem abertos ao sábado, facilita muito as coisas para pessoas que tem um horário das 9h às 17h (no meu caso é das 8h30 às 17h30 mas vai dar ao mesmo).

Da segunda vez, Jesus! Tentaram entregar em casa, falharam, fui obrigada a telefonar para a DHL. "Ah e tal, a senhora vai ter que vir buscar aos nossos armazéns." Que ficam SÓ A UMA HORA DO CENTRO DE BRUXELAS. Senão larga 30 euros e já te vão entregar a casa. Comecei a mal-dizer a hora em que fui na cantiga da Wook e dos portes internacionais grátis...

Da terceira vez, DHL novamente, mas com mais sofisticação. Tentam entregar, falham, enviam mensagem e e-mail a avisar para telefonar e agendar nova entrega. Assim que a carrinha da DHL parou em frente à nossa janela no dia combinado, já estava eu à porta para receber a encomenda. O estafeta olhou-me com o respeito devido a alguém que possui poderes telepáticos e eu respirei de alívio por me entregarem em mãos uma coisa pela qual paguei dez euros de portes.

Quarta vez: recebo novo papelinho para ir levantar aos correios a encomenda cuja entrega - surpresa! - falhou, mas qual não é o meu espanto quando olho a morada e não era o mesmo posto de correios da primeira encomenda. Suspiro gigante. Vejo o caminho no Google, mas porque envolvia autocarros, perdi-me, andei às voltas durante uma hora, lá cheguei à rua certa, suspiro gigante, desta vez de alívio. Qual não é o meu espanto quando descubro que o posto de correios não era um posto de correios mas uma comum papelaria onde carteiros vão meter encomendas cujas entregas falharam. Eeeer... Tudo bem.

Mas voltando à segunda encomenda e aos armazéns da DHL. Como hoje tive tarde livre e já me tinha perdido durante a hora do almoço quando fui buscar a quarta encomenda, decidi aventurar-me e ir reclamar o que era meu. Vi o trajeto no Google maps, como é óbvio, e fiquei surpresa por ver que só precisava de apanhar um tram e um autocarro e que não havia transferências. Ou seja, nada de ter que andar para a rua seguinte ou procurar armazéns um bocadinho mais à frente porque era tudo muito certinho: chegar, trocar, chegar, porta dos armazéns a 40 metros. Aponto na mesma os nomes das paragens, direções dos transportes a tomar e números. O que é que podia correr mal, certo?

Basicamente, tudo o que podia correr mal, correu. Começou logo nos tempos de espera de tram e autocarro, que esqueço-me que não tem a regularidade de um metro, com o bónus de este autocarro ser suburbano e portanto apenas de quarenta em quarenta minutos. Não tinha aqueles painéis jeitosos a dizer quais as paragens seguintes, nem uma voz a avisar "próxima estação: X". Comecei logo a panicar. Sabia que eram cerca de 16 paragens até ao destino, mas ele não pára em todas e portanto a partir da terceira ou quarta já não fazia ideia quantas tinham ficado para trás. "Pergunto ao condutor? Não pergunto?", a viagem toda com esta pergunta a moer-me a consciência. Começámos a entrar numa terra que tinha o nome precisamente da paragem onde eu tinha que parar, mas os nomes que lia de relance nas paragens não se aproximavam do tal. Foi só quando vi uma grande placa com BRUXELLES - BRUSSEL e um risco vermelho por cima, e quando tudo de repente aparece escrito em flamengo, é que eu começo realmente a panicar e decido-me a ir perguntar ao motorista se faltava muito para Diegem. O ar de "pffuuuu!..." dele não me descansou. Estávamos a cinco quilómetros, mas porque já tínhamos passado! De notar que estávamos perto do aeroporto, aqueles locais de ninguém com vias-rápidas largas e cheios de armazéns de carga (e nenhum o da DHL, porra!) que tornam a perspetiva de ter que esperar mais meia hora pelo autocarro de volta e chegar a casa de mãos a abanar nada atrativa. O senhor lá foi muito simpático e disse o que eu tinha que fazer: sair, apanhar autocarro até ao aeroporto e lá esperar pelo 272 que me levaria perto do armazém.

Saio, espero, chega o autocarro para o aeroporto. Entro e pergunto se vai para o aeroporto já que dizia:  Zaventem - Vertrek (que agora sei querer dizer "Partidas e Chegadas"). "Isjngfisuengucht", "Pardon?", "Isjngfisuengucht", volta o motorista a dizer, com um aceno afirmativo da cabeça. Ainda pensei "Epá, este senhor tem um francês mesmo cerrado..." Qual francês! Estava a falar comigo em neerlandês! E acho mesmo que levou a mal eu me dirigir a ele em na língua da Valónia... Única passageira. Só me ocorre um "Isto 'tá bonito..." Só quando começo a ver aviões baixinhos e tabuletas a indicar o aeroporto é que me permito respirar um bocadinho.

No aeroporto, só pensava em voltar para casa. Já tinham passado mais de duas horas, já devia estar a voltar, segundo as contas do Google, mas em vez disso estava ali, com indicações obsoletas num papel, sem fazer ideia onde era o armazém, apenas com a indicação do número de um autocarro, sem fazer ideia de como depois ía voltar (não me apetecia voltar outra vez para o aeroporto; seria pelo menos mais uma hora até casa) e rodeada de palavras escritas somente em neerlandês e de pessoas que olham com má cara quem lhes dirige uma palavra em francês e insistem em continuar palavreado na mesma língua. Eu sei que eu é que estou no país deles, eu que me lixe. Mas é assustador ir-se no mesmo autocarro, passar-se um sinal com BRUXELAS e risco por cima e parecer que se está noutro país porque a língua francesa sumiu. Tive mais 40 minutos para matutar sobre isto.

Finalmente, o 272. Desta vez, de morada do maldito armazém em punho, decidi não cair no mesmo erro e perguntei logo ao início se aquele autocarro passava na DHL e onde tinha de parar. "Não sei.", foi a resposta (pediu-me se podia falar comigo em inglês. Oh meu amigo, faça favor! Menos esforço francófono aqui para a menina!) Ah, e tal, que não fazia ideia porque a DHL tinha inúmeros armazéns na zona circundante ao aeroporto, que a rua que estava no meu papel tinha vários quilómetros de comprimento e que ele não fazia ideia se passaria no número 151. Mas porque eu tinha perguntado uns minutos antes no autocarro errado pelos armazéns da DHL e a motorista indicou-me o autocarro correto e até a paragem lá perto, e quando eu disse o som da paragem houve reconhecimento da parte do motorista (a mim soou-me a "Cánádie", afinal era "Kennedy". Nem comento.) decidi arriscar. Mas o meu passe não dava porque já não estávamos em Bruxelas. Depois de muito rabuscar na mala, reparo que tinha deixado o porta-moedas em casa. A sério que quase desatei a chorar. Mas afinal os autocarros suburbanos belgas tem um sistema muito útil que dá para pagar bilhetes através de SMS, e por sorte uma das redes era precisamente a que eu uso. Ai, a sortezinha.

Lembro-me de ele dizer "Kennedy!" e de eu ser largada na paragem sem fazer ideia nem de onde estava nem onde poderiam ser os armazéns da DHL. A esta altura já eu respirava fundo, conscientemente, numa tentativa de me acalmar: "Sossega, S., o pior que pode acontecer é teres de voltar para a paragem, esperar mais 40 minutos e fazer o caminho inverso até ao aeroporto, relaxa, no máximo daqui a três horas estás em casa."

Quando chego à tal rua com muitos quilómetros e assim que vejo que o armazém em frente era o 141 (o meu papel indicava que a DHL ficava situada no 151), quase desatei num pranto. A correr tenho a certeza que desatei. Largo todo o ar que tinha nos pulmões e vou finalmente buscar os tão inatingíveis livros.

Por um acaso qualquer ou instinto ou que seja, apanhei um autocarro diferente de volta a Bruxelas. Descobri que este é que era o certo. E que me levou exatamente até onde tinha que apanhar o tram para casa.

Conclusão: Não volto a confiar no Google.

Conclusão 2: Vou parar de andar de autocarro. A sério. Já começa a ser ridículo.








S.   

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Adenda ao post anterior

Quando eu disse "quem me dera que na Bélgica ninguém falasse inglês" e não sei quê, esqueci-me que aqui fala-se também - e generalizadamente - flamengo. A minha intenção era "quem me dera que na Bélgica ninguém falasse inglês" na medida em que este seria unicamente substituído por francês. Porque tive a brilhante ideia de aceitar a sugestão do Google de passar o meu Google Search para .be e agora tenho esta merda toda em flamengo. Incluindo o blogger.





S.