Passei quatro anos num projeto de investigação sobre a União Europeia, estou literalmente a duas semanas (figas, muitas figas!) de concluir um doutoramento em ciência política (com a tal investigação sobre a UE), trabalho como investigadora numa organização que acabou de lançar um relatório sobre o potencial impacto do Brexit nas mulheres aqui no UK mas a minha reação quando recebo um convite para falar sobre estas coisas numa conferência é "hãã, que sei eu sobre isto?! Enganaram-se de certeza."
A sério, gostava de ter a confiança para me exprimir nos tópicos da minha especialidade que os mansplainers têm em se exprimir sobre tópicos que não conhecem.
No meio do clusterfuck que está a ser o Reino Unido nestes dias imediatamente a seguir ao Leave ter ganho o referendo, os meus olhos estão postos em Edimburgo e na forma como a Escócia está a lidar com uma decisão que não foi a sua. A minha admiração vai para a maneira como a Nicola Sturgeon está a lidar com a situação. Pá, que classe, que sobriedade, que praticalidade, que contraste com os mentirosos, auto-calculistas mas sem qualquer plano à vista para o país, retratores dos machos alfa em Westminster.
Logo na manhã em que os resultados se tornaram oficiais, a First Minister da Escócia fez um discurso impecável e bastante sóbrio considerando as circunstâncias onde congratulou a Escócia pelo resultado expressivo a favor do Remain, reiterou que os imigrantes europeus continuavam a ser benvindos e agradeceu a sua contribuição ao país ('Scotland is your home'), estabeleceu os passos seguintes para explorar as possibilidades de manter a Escócia na UE e respeitar o resultado do referendo, e ainda agradeceu ao Cameron o seu trabalho como Primeiro-Ministro do UK durante 6 anos ('leadership is hard'), desejando-lhe sucesso para o seu futuro.
A sério, se quiserem restaurar fé na competência de líderes políticos, perdei dez minutos do vosso dia a ouvir a senhora. Bónus: o sotaque encantador escocês com que ela debita tudo isto.
Desde então tem cumprido sem falhas o que se comprometeu fazer: reuniu-se com o resto do governo escocês para estabelecerem uma posição comum e pediu ontem ao parlamento escocês um mandato para negociar a posição da Escócia na Europa (em relação a Westminster, Bruxelas e com os outros estados membros), que obteve com aprovação de 92 contra 0 deputados (fora os deputados conservadores que se abstiveram). O seu discurso no parlamento escocês é incrível mais uma vez pela serenidade com que descreve a situação da Escócia, a clareza com que explica o que pretende fazer a seguir, e a forma como lida com a questão da independência, que não é de todo a questão central para ela (duplamente incrível vindo de uma independentista ferrenha do Scottish National Party). Já esteve em conversações com o mayor de Londres, Sadiq Khan (outro exemplar de dignidade e tolerância neste lodaçal em que se tornou a política britânica), com o governador de Gibraltar e com o líder da Irlanda do Norte para encontrar pontos em comum sobre a permanência destas regiões na UE, e iniciou agora uma ronda de reuniões com os líderes dos grupos parlamentares em Bruxelas para discutir opções para a Escócia (está neste momento com o Guy Verhofstadt, líder dos liberais e democratas e o MEP que disse ontem no Parlamento Europeu que já não faltava muito para se acabar com o maior desperdício do orçamento europeu: o salário do Farage).
A posição de apoio aos imigrantes europeus do mayor londrino, em contraste com o silêncio vergonhoso do governo britânico e dos líderes do Brexit na condenação aos ataques xenófobos e racistas após o referendo.
Acho que ele estava há muito tempo à espera de poder dizer isto, haha.
Penso que esta é uma posição partilhada pela grande maioria dos deputados escoceses - basta olhar para a aprovação 92-0 do curso de ações a tomar pela Sturgeon, para as intervenções dos deputados escoceses em Westminster ontem durante as questões ao Primeiro-Ministro e dos MEPs escoceses em Bruxelas ontem na primeira reunião do Parlamento Europeu depois do referendo ('I beg you, do not let Scotland down!' Alyn Smith MEP), e por uma maioria considerável da população escocesa.
Uma ovação de pé no Parlamento Europeu após o eurodeputado escocês pedir aos colegas europeus para não deixarem mal a Escócia.
Discurso do deputado escocês Angus Robertson, líder da bancada do SNP em Westminster, afirmando que a Escócia é um país europeu e que arrancá-la da UE será uma decisão completamente inaceitável do ponto de vista democrático.
Aliás, a Sturgeon no seu discurso ao parlamento escocês refere-se ainda aos mesmo assim relevantes 38% eleitores que votaram para sair da UE e afirma que não pretende ser surda às preocupações deles mas que precisa da união de todos os quadrantes para conseguir uma boa situação para a Escócia dentro da Europa. A grande diferença aqui é que o Remain ganhou em todos os círculos eleitorais da Escócia, pelo que não há a divisão territorial entre apoiantes do Leave e do Remain que aconteceu no Reino Unido e que está a dividir o país. Neste sentido há um inequívoco e muito claro mandato democrático do eleitorado para que a Escócia se mantenha na União Europeia. Significa isto necessariamente independência do UK?
Não. E muito se tem falado do precedente da Gronelândia, que em 1985 abandonou a União Europeia sem que o país a que pertence, a Dinamarca, o tenha feito. E do exemplo das Ilhas Faroé, um arquipélago que pertence à Dinamarca mas que não pertence à União Europeia (lembro-me a propósito disto uma colega de mestrado faroense que, apesar de ser dinamarquesa, por viver nas Ilhas Faroé, ter tido que pagar as propinas relativas aos estudantes internacionais, muito superior ao que os estudantes britânicos e europeus pagam). Agora, é certo que a importância cultural, populacional e económica da Escócia é muito superior a estes dois territórios e a verdade é que a situação da Escócia seria o inverso destes dois exemplos: uma parte de um país continuar a pertencer à UE quando o país em si mesmo a abandona. Mas o ponto aqui é que a independência não é a única nem sequer inevitável situação para a Escócia permanecer na UE já que existem estas exceções em que partes de um país pertencem e não pertencem à UE. E é por isso mesmo que o discurso da Sturgeon não revolve à volta da independência mas sim de explorar todas as opções para respeitar o desejo dos escoceses de se manterem na Europa ('every option must be on the table'). Os media têm-se focado muito na possibilidade de um segundo referendo sobre a independência escocesa e alarmaram que os papéis já tinha sido metidos para organizá-lo mas acho que estão a subestimar a compreensão da Primeira-Ministra escocesa sobre os obstáculos em convencer o eleitorado - uma segunda vez - a sair do Reino Unido, e a sobrestimar a vontade política dela de se meter em mais um uns meros 2 ou 3 anos depois do referendo falhado. Vontade pessoal, acredito muito; política, assim-assim.
Porque, vejamos. As circunstâncias em relação ao referendo de 2014 alteraram-se significativamente, fundamentalmente, aliás. Na altura o Better Together explorou - e com razão - os obstáculos que a Escócia teria em voltar a pertencer à União Europeia se saísse do Reino Unido: teria com grande probabilidade que se candidatar como qualquer outro país para entrar na União, o que demoraria anos e a incerteza e caos que o entretanto causaria. A saída da UE foi uma preocupação grande que levou uma parte considerável dos eleitores a preferirem o status quo. Ora, isto é precisamente o contrário do que se passa neste momento. A Escócia está perante a realidade de que vai ser tirada da UE contra a sua vontade precisamente por ser parte do Reino Unido e portanto este argumento passa não só a ser nulo como a virar-se ao contrário: a independência da Escócia agora abriria-lhe caminho a uma pertença da UE, como é o desejo de 62% dos eleitores.
Mas o problema aqui é que parece que, a haver um segundo referendo de independência, os escoceses se deparariam com a seguinte escolha fundamental: a qual das uniões quero pertencer, Reino Unido ou União Europeia? E não estou nada convencida de que mais de metade da população escolhesse a UE. Isto porque não importa quão europeístas sejam os escoceses, quão 'outward-looking' ou 'cosmopolitan' e 'progressive' (palavras da Nicola Sturgeon no discurso de 24 junho), os ingleses, irlandeses do norte e galeses serão sempre 'our closest neighbours and best friends' (também palavras da Sturgeon, no discurso ao parlamento escocês de 28 junho, se não me engano). As relações culturais, familiares e sociais são muito mais estreitas com o resto do UK do que com o resto da Europa. Para não falar das económicas, é claro. A vasta maioria das transações económicas da Escócia faz-se pela fronteira - inexistente - com a Inglaterra. Em 2014, o grande medo da independência seria o de se erguer uma fronteira muito real, muito custosa, entre a Escócia e o resto do Reino Unido (por virtude da Escócia deixar de pertencer à UE e portanto ao Mercado Único europeu). Vão eles agora querer erguer tal fronteira com a Inglaterra como preço para o acesso a esse mesmo Mercado Único, considerando que a enorme fatia de comércio é feita é precisamente com os vizinhos do sul? Não acredito.
Isto vai depender muito do tipo de acordo que o Reino Unido conseguir com a UE. A maior das probabilidades é manter-se o acesso ao Mercado Único e a consequente liberdade de circulação de bens, serviços e pessoas que é condição sine qua non do mesmo (e aqui é que está a parte mais imbecil e masoquista do Leave: o Reino Unido continuará a aceder ao Mercado Único porque o contrário disso é suicídio económico, continuará portanto obrigado a respeitar a liberdade de circulação não só de bens mas também de pessoas, continuará a ter que pagar contribuições para o orçamento comunitário para aceder a esse mercado - vide o caso da Suíça - e continuará a ter que obedecer às decisões do Tribunal Europeu de Justiça, mas terá perdido a sua voz na produção das regras que regem tudo isto. Ninguém, - e isto é a tragédia - ninguém, vai portanto ficar feliz com a saída da UE: nem os que votaram a favor dela para controlar a imigração, acabar com as contribuições para a UE e para recuperar soberania, nem quem votou para sair porque enfraquecerá a posição do UK na Europa e no mundo).
Neste cenário a independência da Escócia não ditaria o erigir de uma fronteira com a Inglaterra porque ambos pertenceriam ao Mercado Único. Mas então para que quereria a Escócia independência? Apenas se eles estiverem realmente interessados em ter uma voz na produção das leis europeias que terão que obedecer, ao contrário do que parece ser a posição do resto do UK. Valerá essa voz à mesa europeia a secessão do Reino Unido? Mais uma vez, não acredito. Mesmo que as sondagens a favor da independência sejam agora de 60% dos eleitores.
Mas para que a Escócia mantenha todas as opções em aberto para se manter na UE, é fundamental que um referendo sobre a independência, a acontecer, seja antes de o Reino Unido sair formalmente da UE. Porque assim que o artigo 50 for invocado pelo governo britânico, as negociações começam entre a UE e o país cessante e têm a duração máxima de dois anos (extensível se acordado unanimemente por todos os 27 estados membros). A partir daí os tratados deixam de se aplicar ao Reino Unido, i.e. o Reino Unido é corrido da UE sem cerimónias. A Escócia seria arrastada para fora da UE como consequência e, mesmo que conseguisse independência depois, teria que voltar a candidatar-se à adesão da UE. Há portanto uma janela temporal muito apertada para a Sturgeon explorar as opções para a Escócia se manter na Europa, incluíndo a eventual organização de um referendo para a independência. Foi por isso mesmo que já começaram os procedimentos legais para a realização deste referendo, não porque ele seja inevitável, mas para que, em se querendo (como último recurso, acrescentaria eu), ele se mantenha uma possibilidade dentro desses 2 anos de negociações que o UK tem. Acho que ela tem tempo porque nem o Cameron, que sacudiu as mãos da responsabilidade das consequências deste referendo, nem os conservadores a favor do Brexit e potenciais Primeiros-Ministros, como o Boris Johnson ou o Michael Gove, estão com pressa em invocar o artigo 50. Sabem que quem o fizer vai ser o culpado pelas consequências merdosas do voto Leave (e, oh, vide acima com a questão do Mercado Único, como elas vão ser merdosas para quem quis sair), principalmente por quem votou Leave.
O problema com a outra opção, i.e. o Reino Unido fora da UE com a Escócia a manter-se mas sem a independência, é como é que isto funcionaria em termos de representação. O que é que significa a Escócia manter-se na UE? Seria ter assento à mesa do Conselho Europeu e do Conselho de Ministros, eurodeputados escoceses eleitos como os outros estados membros e possivelmente um comissário europeu na Comissão Europeia? Mas a Escócia não é um estado, como poderia sentar-se à mesa com os outros estados membros? A Escócia é parte do Reino Unido, se o Reino Unido sai não é possível ela manter-se com voz em pé de igualdade com os outros estados membros; ela é apenas uma região. A não ser que, a sair da UE, saíssem apenas Inglaterra e Gales, e o resto do Reino Unido (Escócia e Irlanda do Norte) se mantivesse; assim Inglaterra e Gales teriam o estatuto da Gronelândia, enquanto o Reino Unido se manteria na UE formalmente (mas com a grande maioria da população, território e poderio económico fora dela). Mas para isto era preciso que os quatro países britânicos tivessem um estatuto constitucional igual dentro do Reino Unido, o que não é de todo o caso (Inglaterra não tem um parlamento ou qualquer assembleia representativa, como é o caso da Escócia ou de Gales, muito porque Westminster aka o governo britânico aka o Reino Unido é quase sinónimo dos interesses ingleses, e esta região historicamente sempre dominou as regiões vizinhas. O Reino Unido está muito longe de ser um estado federal e a devolução de poderes às regiões é uma coisa extremamente recente, com não mais de 20 anos). Não é pois possível que a Escócia e eventualmente a Irlanda do Norte se continuem a sentar à mesa europeia em nome do Reino Unido (sem a presença da Inglaterra).
Que imbróglio do caraças. Não invejo o papel da Sturgeon porque reconheço a complexidade da situação e as águas desconhecidas em que terá que navegar se quiser dar consequência à decisão do eleitorado de continuar na UE. Tudo consequências de uma decisão que não foi a dela, nem dos seus eleitores. Acho mesmo que esta é uma batalha mais dura e difícil do que a de lutar pela independência há dois anos atrás, que se revelou infrutífera. Talvez a melhor opção será mesmo a de não fazer nada, esperar pelo novo acordo entre a UE e o Reino Unido que, muito provavelmente como disse em cima, será uma pertença ao Mercado Único e manutenção da liberdade de circulação, portanto sem nenhuma consequência prática para as empresas ou para as pessoas. Essa é a negociação mais lógica e provável porque a que melhor serve os interesses britânicos e europeus. Dito isto, não sei não, porque a imbecilidade, irracionalidade e o masoquismo parecem estar na ordem do dia. Como diz o outro, tudo é impossível até ser feito. Por isso a Sturgeon sabe melhor do que esperar quietinha que o governo britânico negoceie um bom acordo com a UE e deixar nas mãos destes líderes Brexiteers sem noção o futuro da Escócia. Já começou as conversas em Bruxelas, portanto.
S.
P.S. A questão da Escócia é interessante mas ainda ninguém discutiu a sério a questão da Irlanda do Norte (exceção aqui), bastante mais sensível e que também já regista movimentações (o líder da Irlanda do Norte já esteve em conversações com o líder da República da Irlanda, o vice-presidente do partido Sinn Féin, espécie de braço político do IRA, e reclamou a necessidade de se fazer um referendo para a união das duas Irlandas). Não esquecer que o Good Friday Agreement de 1998, que trouxe a paz àquela região, resta na premissa de que não existiria nenhuma fronteira entre as duas Irlandas em virtude de ambas estarem na UE; vai agora a Inglaterra criá-la, ao arrastar a Irlanda do Norte para fora da UE. Parece que a guerra não é um conceito tão longínquo como no dia 23 de junho. Que o bom senso e os bons líderes nos protejam.
Deparei-me com isto a propósito de outra coisa, e a minha reação foi concluir que a ignorância realmente às vezes é uma benção.
Todos os anos a Comissão Europeia produz um relatório sobre o progresso (ou regressão) em questões de igualdade de género, na Europa em geral e em cada país em particular. É uma coisa um pouco mais legalista e curto-prazo que os índices do EIGE, mas igualmente informativo. Tem até alguns exemplos de medidas que foram tomadas em países particulares e que podem constituir boas práticas. Por exemplo, neste último ano, é referido que a licença de paternidade aumentou de 10 para 15 dias úteis em Portugal, e que na Áustria criaram um novo crime - "violação da auto-determinação sexual" - que inclui atos sexuais praticados contra a vontade de uma pessoa, mesmo que não tenha sido usada violência, mas sempre que as reações da vítima demonstrem falta de consentimento, ou cujo consentimento foi obtido através de intimidação ou chantagem. Aquilo está dividido por cinco áreas, que correspondem mais ou menos às áreas da igualdade de género que a UE dá prioridade (portanto muito à volta do Mercado Único e do emprego):
- independência económica;
- igualdade salarial;
- igualdade em posições de decisão;
- violência de género;
- igualdade de género em países terceiros.
Foi um gráfico - aliás primeiro uma afirmação, depois o gráfico - na parte da violência de género que me prendeu a atenção: mais de metade dos assassinatos de mulheres ocorrem às mãos de parceiros ou família.
Vou deixar assentar.
Mais de metade das mulheres que são assassinadas são-no às mãos de pessoas muito próximas.
MAS QUE RAIO.
Portanto, a mancha vermelha e azul são os homicídios perpetrados por parceiros íntimos e e familiares, tanto no gráfico das vítimas femininas como na das masculinas. O que salta à vista muito de repente é que sem dúvida que há muito mais homens vítimas de homicídios do que mulheres, pelo menos nos países europeus representados. Suspeito que isto seja uma tendência global, já que os homens estão com mais frequência envolvidos em atividades violentas, crime, gangs, etc, do que as mulheres e também sobre isto haverá muito a dizer (masculinidades tóxicas e por aí fora). O patriarcado não tem consequências nefastas só para as mulheres, e neste caso isso é bem visível. Se bem que, lá está, não é o caso de dominância do outro género - os homens são mortos na vasta maioria por outros homens, basta olhar a percentagem de presos, condenados, etc. É antes uma consequência nefasta das expectativas que lhes são impostas como género dominante, uma masculinidade gone wrong, se quisermos, ao invés de caso de opressão.
Mas regressando ao gráfico. Portanto, há muito mais vítimas de homicídio que são homens do que mulheres, mas reparem na diferença de proporções do perpetrador. Os homens são, na vasta maioria, mortos por "outros", ou seja, nem familiares nem parceiros íntimos, presumivelmente desconhecidos ou, não sei até que ponto os homicídios em contexto de gangs pesam nas estatísticas europeias, mas talvez também por "colegas" ou inimigos de gang (não necessariamente próximos mas também não inteiramente desconhecidos).
Isto não se verifica de todo no caso das mulheres que são mortas por outrém. Vejam-me a manchazorra vermelha dos "parceiros íntimos", que na Inglaterra e País de Gales atinge quase metade do total de homicídios. Isto para não falar da também bastante elevada barra azul, que representa o número de homicídios perpetrados por familiares da vítima. What the fuck! Isto vai contra o senso comum, a perspetiva geral que as pessoas têm do perigo e do risco, para não falar de quão errado moralmente é isto: as pessoas que nos são mais próximas deviam ser as que nos são mais seguras, as que nos querem bem. Andam-nos toda a vida a incutir o medo/cuidado para com os estranhos, não andes na rua sozinha, não saias à noite por aquela zona que é perigoso, e depois em termos de risco a nossa casa é um dos lugares mais perigosos onde se estar? What. the. fuck.
Eu já tinha visto estimativas que indicavam que a vasta maioria das violações ocorrem entre pessoas que se conhecem - o que, mais uma vez, custa a acreditar à primeira vista porque quando se fala em violadores o que salta à imaginação é um homem assustador, creepy, rua, becos escuros, um monstro, portanto. No caso das crianças, exatamente igual. Raptos, violência, abuso sexual, é quase sinónimo do homem na carrinha branca, o desconhecido que ludibria com doces, etc, quando na realidade a vasta maioria da violência e abuso sexual contra crianças acontece em casa ou em sítios familiares, através de pessoas bem conhecidas da vítima. Parece que, tal como para as mulheres, a casa é dos sítios mais perigosos para as crianças. E isto é aterrador.
De ressalvar que estas proporções também não são iguais em todos os países europeus representados no gráfico: na Lituânia e Letónia a maior parte dos homicídios de mulheres são realizados por "outros". E Malta não teve nenhum homicídio em 2013, de homens ou mulheres! Seria interessante investigar as razões para estas diferenças, ou esmiuçar melhor os números (quais são as categorias dentro de "outros"? Os amigos, estão incluídos nos "outros"?) e ver como eles mudam controlando variáveis como a origem étnica, religião (será que há mais incidência de homicídios por familiares em comunidades muçulmanas, com os crimes de honra, por exemplo?), etc.
Há uns tempos o Louis CK tinha feito umas piadas sobre o risco que os homens representam estatisticamente para as mulheres em contextos de intimidade. E é engraçado porque vê-se que ele está a contar estas coisas num show de stand up comedy mas ele está meio sério e a tentar convencer a plateia de que não está a brincar, que é mesmo verdade, que uma mulher entrar numa relação é um risco para a sua integridade física, de uma maneira que não o é para um homem. E a plateia vai gargalhando, como se ele estivesse a dizer que isto dos namoricos é um risco para as mulheres porque os homens são totós e nunca se sabe o que nos calha na rifa, e ele continua a enfatizar, 'mas não, é mesmo um risco para as mulheres sair com um homem!'.
Diverti-me quando vi isto agora novamente, com as estatísticas do Eurostat sobre as proporções de perpetradores de homicídios em mente, ao ver a distância da realidade estatística do risco a que estamos todos.
'L'Europe est une chance pour les femmes, ce que peu comprennent. Il y a un nivellement par le haut grâce aux pays du Nord de l'Europe, la Commission européene fait passer des textes ambitieux, et la Commission des droits de la femme est fortement féministe, tous partis politiques confondus. L'Europe ne peut pas faire régresser la condition des femmes, au contraire, elle fait pression sur les gouvernements pour qu'ils ne fassent pas reculer la condition des femmes.'
Geneviève Fraisse, filósofa francesa e historiadora do pensamento feminista, numa entrevista em 2005 à autora do estudo Le Lobby Européen des Femmes: la voie institutionnelle du féminisme européen.
Não sei se ela teria a mesma opinião neste momento, visto que isto foi dito antes da crise financeira e da crise das dívidas públicas europeia, e dos consequentes cortes que foram feitos a nível nacional a muitos serviços de apoio e abrigo a mulheres vítimas de violência, a cortes de salários públicos que afetam desproporcionalmente as mulheres (há mais mulheres no serviço público do que homens), e à pioria (isto é palavra?) geral de condições de vida que afeta os mais pobres que, mais uma vez, são desproporcionalmente mulheres.
Tendo dito isto, penso que a ideia se mantém. A União Europeia é francamente mais sensível a questões feministas e aos direitos das mulheres do que a grande maioria dos seus membros, e está documentado na literatura que foi ela um dos grandes impulsionadores para a adoção de legislação para igualdade entre mulheres e homens nas décadas de 70 e 80 na Europa, numa altura em que nenhum Estado-membro exceto a França tinha salvaguardado a máxima de salário igual para trabalho igual (fica aqui um texto curtinho sobre a história da igualdade de género na UE). Acho que isto é notável para uma organização que ainda tem um pendor bem mais estritamente económico do que seria desejável e do que muitos gostaríamos.
Aliás, lembro-me de há dois ou três anos ter havido mobilização da parte de académicas especialistas em UE e questões de género, e de oficiais das instituições europeias, para mostrarem a metade da população britânica o que esta ganha com o facto de o Reino Unido pertencer ao clube: é graças à obrigatoriedade de implementar todas as diretivas europeias que as mulheres britânicas obtiveram licença de maternidade e os pais britânicos podem gozar de licença parental, por exemplo. Portanto, quando os britânicos se queixam da red tape bruxelense, elas que pensem bem a quem uma saída do clube mais poderia prejudicar. (Os britânicos foram aliás um dos grandes opositores e portanto motivadores do bloqueio da nova diretiva sobre a licença de maternidade que visava aumentar o mínimo europeu de providências para novas mães a nível laboral.)
Isto para dar um exemplo do nivelamento por cima que Geneviève fala na citação lá de cima. Não obstante as críticas que podem ser - e são - lançadas à UE em matéria de interesses das mulheres, não há dúvida que ela tem um pendor feminista que às vezes parece um paradoxo se tomarmos em conta o racional neo-liberal que permeia o pensamento europeu. E é precisamente por isso que o tema me apaixona.
Eu já tinha partilhado o meu entusiasmo com esta notícia hoje no Facebook do blog mas faço-o novamente: o Alex Salmond, Primeiro-Ministro da Escócia, lançou hoje o plano detalhado com tudo explicadinho sobre como será a independência da Escócia. Isto é um momento histórico: há uma região que tem um plano de 670 páginas, que cobre todas as áreas do que é ser-se um Estado, e que explica como farão quando e se se tornarem um país daqui a 10 meses. É um documento histórico e nem precisa de o plano se concretizar para o ser: nunca ninguém antes planeou uma independência com tanto afinco e detalhe como os escoceses. E nunca essa decisão dependeu tanto da vontade democrática de um povo como acontecerá no dia 18 de setembro de 2014.
Eu culpo a minha educação de ciência política misturada com a minha paixão pela história UKiana para este meu entusiasmo desmesurado e aparentemente fora do lugar, mas vou tentar contagiar quem está aí desse lado. É que, reparem, independências a bem são da coisa mais rara possível na História, independências lembram guerras, revoluções, lutas sangrentas, inflamadas e impregnadas de valores e sentidos de identidade. O sentido de identidade não falta na questão escocesa, claro, sem sentido de identidade a criação de um novo Estado é sensaborona, artificial, sem objetivo. O que é novidade é a falta das outras características todas. Eu vi o lançamento desta espécie de blueprint, white paper, plano para negociação, manifesto, o que quer que os jornalistas lhe chamem, e aquilo foi tão business-like, tão comedido, tão racional, tão pacífico que fez impressão. Agora é que vai começar a campanha a sério, baseada nas ideias para o futuro da Escócia ali explicadinhas, e vai começar a extenuante tarefa de convencer os escoceses - e o resto do UK e Europa, já agora - que uma Escócia independente seria uma Escócia melhor mas ainda assim viável.
Viável... É engraçado como uma das grandes preocupações deste plano é mostrar através de ideias concretas como é que a Escócia seria um país viável a nível económico, como se conseguiria sustentar a si próprio sem os cofres do UK. Foi esta aliás a maior crítica apontada a esta ideia de independência: que a Escócia não é capaz de sobreviver sem as transferências de dinheiro de Whitehall. E ainda que seja bom que isto seja pensado e ideias concretas apresentadas, não deixa de ser um bocado injusto que uma região tenha que provar que é economicamente sustentável para conseguir a sua independência. Se fosse esse o critério para se ser um país então o nosso mapa-mundi seria deveras interessante. E muitos dos países soberanos mais velhos do mundo não existiriam de certo... (Todos temos um na ponta da língua mas vamos deixar o nome por dizer, vá.) Mas bom, a Escócia ao que parece foi bafejada com a sorte dos deuses e aquele Mar do Norte está todo impestadinho de petróleo pelo que têm rendimentos para viver por umas boas décadas sem fazer mais nada.
Um repórter da BBC afirmava muito espantado que tinha esperado que o lançamento do plano fosse carregado de euforia, simbolismo, carga emocional forte - afinal aquela gente do SNP luta por uma Escócia independente há décadas! - e em vez disso tinha visto um Primeiro-Ministro muito sóbrio a apresentar o seu plano para o futuro do país. Dizia o repórter que achava que era estratégia, para que os escoceses se descansem que uma Escócia independente não seria muito diferente do que é atualmente: continuará com a Rainha como chefe de estado, manterá a libra esterlina, continuará na UE e na NATO, etc. Será só uma Escócia sem coisas que Londres decide e que os escoceses abominam, como a polémica do bedroom tax, com controlo fiscal e controlo do seu próprio futuro. Uma Escócia mais socialista, portanto.
E por falar em socialismo, é muito interessante isto de a Escócia se tornar mais esquerdista (já aqui tinha falado dessa diferença e do que uma amiga escocesa me disse, qualquer coisa como "We are not like the English, we want to succeed but we want to bring everyone with us.") porque isto significaria que a Inglaterra-Gales-Irlanda-do-Norte se tornar mais conservadora. Já vários escoceses me afirmaram que se a Escócia se vai embora o Partido Trabalhista nunca mais volta a ter maioria em Westminster, já que é muito através dos círculos eleitorais escoceses que lá tem deputados. Daí que se os Conservadores na Inglaterra estão a fazer campanha para um "Better Together" UK e não querem mesmo, mesmo nada ver a Escócia partir (se bem que foi o seu líder que autorizou o referendo pela independência, não percebi ainda em nome de quê, gente estranha), os Trabalhistas também não têm interesse nenhum em que a Escócia se vá embora.
Bom, dizia eu, a Rainha fica, a libra fica, a UE e a NATO ficam, as armas nucleares que estão num submarino qualquer estacionado na Escócia vão embora, a Union Jack não mais será defraldada na Escócia (uuuh, simbolismo!), a BBC vai embora também. No manifesto estão lá os planos detalhados para a negociação de cada uma destas coisas.
Mas depois vem um senhor deputado Conservador e diz: "ah, e tal, isto é tudo muito bonito mas é no papel, o plano não passa de um lindo trabalho de ficção, e não se esqueçam eles que quase todos estes pontos não dependem do governo escocês, dependem de terceiros que podem não estar dispostos a ceder a estes termos, numa negociação não se ganha tudo o que se quer, etc." Eeeeer... A sério que ouvi bem? Oh camafeu, o teu partido quer fazer um referendo em que uma das opções é votar para manter o UK na UE mas com novas condições e poderes repatriados, coisa que nenhum partido pode oferecer porque não está nas mãos de nenhum governo garantir que o resto da UE aceita essas novas condições, e tu vens dar bitaites a outrém sobre como não se consegue tudo o que se quer em negociações? Ide dar esse conselho ao vosso próprio partido, ora essa! Cambada de hipócritas...
Vamos lá entao por partes:
- Sobre manter a libra esterlina, ou seja, fazer uma união monetária com o resto do UK:
"Ah, o resto do UK pode não aceitar." Ao que o Salmond responde "ah, então eu posso não aceitar alarcar com a parte que nos cabe da dívida pública do UK. Uma coisa implica a outra." A dúvida maior seria se a Escócia não seria obrigada a adotar o Euro, como dizem os tratados... Eles dizem que não, "olha para a Suécia, não quis, não entrou, continua a assobiar para o ar a ver se ninguém se lembra dessa exceção que tem que não é bem exceção. Nós fazemos o mesmo!" Não sei, não...
- Sobre manter a Escócia na NATO:
"Hmmmmm, não sei se vos deixam, vocês querem-se livrar do armamento nuclear!", dizem os céticos. Oh valha-me deus. Desde quando é que um país tem que ter armas nucleares para pertencer à NATO? Querer livrar-se dele é que devia ser condição para entrada, se é por um mundo mais pacífico que a NATO luta (é? não me lembro bem.). E que o mundo saiba, só 3 marmanjos na NATO é que as têm.
- Sobre manter a Rainha:
Bah, esta condição não tem problema, ela é chefe de tanto sítio, mais um ou menos um tanto lhe faz.
- Sobre manter a Escócia na UE:
Esta é a mais complexa de todas elas, concedo. E as dúvidas que os apologistas da união ou os simplesmente mais céticos levantam são legítimas. Nunca a UE teve que lidar com uma região secionista. Aquilo passa a ser um novo país, terá que pedir adesão novamente e esperar uns anitos até entrar? Mas, e entretanto? Rouba a UE ao povo escocês o direito de livre circulação que deteve até aqui, só porque escolheu ser independente? O que o Salmond quer é negociar com os outros estados-membros uma emenda ao Tratado de Lisboa para incluir que a Escócia continuará com os mesmos direitos de estado-membro caso se torne independente, como desde 1973 detém. Aqui há muitas reticências porque para esta emenda ser aprovada a tempo da independência (em 2016) tem que começar a ser negociada já, é preciso que Londres concorde (não quer concordar porque isto é abrir caminho a um "Sim" certo no referendo, os escoceses são eurófilos de coração), é preciso que outros países com problemas na sua casa concordem, como a Espanha (olha a Catalunha aos pulos lá atrás!) ou a Bélgica (já consigo imaginar os flamengos a irem-se embora e a levarem Bruxelas com eles).
E os escoceses, o que pensam eles disto tudo? Segundo fontes confidenciais e ultra-fidedignas (vá, um ou dois amigos) é mesmo muito difícil de prever. Vai tudo depender de que rumo tomará a campanha a partir do lançamento deste plano e provavelmente do quanto as políticas do Cameron os irritarem nestes próximos 10 meses. As fontes confidenciais e ultra-fidedignas dizem-me que não, que tudo vai depender é se fizer chuva ou sol no dia do referendo porque isso ditará se muitas ou poucas pessoas saírão de casa para votar. Parece-me uma análise tão válida como qualquer outra.
"Edinburgh is a mad god's dream, fitful and dark". Era assim que começava um dos poemas gravados no muro do novo parlamento escocês. Um de muitos, uns em inglês, outros em gaélico, mas que ficou comigo porque é uma ode à atmosfera mágica, meio impenetrável e milenar desta cidade que, para mim, is the loveliest in the world.
Não tem a beleza óbvia e por vezes irritante de Amesterdão, nem o rigor, limpeza e ordem germânicos de Estrasburgo; ao invés, é uma cidade escura devido à pedra uniformemente acastanhada, gasta e poluída pelos séculos, com que os seus edifícios são invariavelmente construídos. É escura, mas sem nunca ser sombria. Edimburgo é uma cidade sinuosa, de altos e baixos, de becos e ruelas muito estreitas, mas nunca é duvidosa, assustadora, suspeita. Não há um graffitti nas suas paredes, não obstante a fama estereotipada dos escoceses para a, er... selvajaria. É uma cidade segura, com uma qualidade de vida extremamente invejável não obstante o tempo que faz.
O tempo que fez a semana passada foi extraordinariamente benevolente para connosco. O sol brilhou, durante muitas horas, muito frequentemente, e a chuva manteve-se ao largo. Vi o azul do céu escocês, vi o dia nascer às quatro da manhã e fechar-se às onze da noite. Andei na rua às dez da noite não vendo vivalma, estranhando a ausência de gente e de lojas e cafés abertos, porque a luz do dia dizia-me, enganosa, que eram cinco da tarde. A frase que mais ouvi repetida das bocas dos locais foi "It's hot, isn't it?" porque claramente 18 ou 19 graus no final de maio equivale a vaga de calor na Escócia. Eu encolhia os ombros, sem dizer nada, porque claramente as perceções de calor variam muito na Europa e, francamente, deviam ver o que são 35 graus em Lisboa para conhecerem o calor!
Ganhei um respeito e sobretudo um carinho muito grande pelo povo escocês. Consigo agora entender e distinguir a sua individualidade que me tinha largamente escapado das primeiras vezes que visitei a Escócia de fugida. Os elementos que fazem a minha consciência acenar que sim, que estou no UK, estão lá - a tomada tripla, os carros em contramão, as distâncias em milhas, o volante do lado direito, o semáforo que acende laranja antes de acender verde, os Neros, as Debenhams, Primarks, Marks & Spencer, Tescos, HVMs, o omnipresente inglês, os autocarros de primeiro andar, o dinheiro esquisito, os Look Lefts no alcatrão, a chaleira no quarto de hotel, o omnipresente chá com leite, tudo grita "UK". Mas isso é para quem olha uma vez. Quem olha a segunda, a terceira, a décima, dá-se conta de um laivo muito forte, secular, cultural, subtil mas invariável, de qualquer coisa que não existe em mais lado nenhum. Primeiro são as bandeiras azuis de cruz branca. que marcam presença nas montras de pubs, em edifícios administrativos, em hotéis. Não como que a marcar uma posição desafiante, nacionalista, com cheiro artificial, mas sim a constatação de um facto. A Escócia existe de facto, os escoceses são um povo, têm uma história própria, verdadeira, distinguível dos ingleses. Mas a bandeira desfraldada no topo do Castelo de Edimburgo é a Union Jack...
Uma colega e amiga revelou-me que os escoceses têm uma mentalidade política profundamente diferente dos ingleses. Bem mais comunitária, mais socialista, mais complacente. Ela disse "We want to succeed, of course, but we want to bring everyone along with us." E isto, afirmou, é algo que os seus amigos ingleses simplesmente não entendem. Sim. Não obstante ter sido a terra natal de um pai do pensamento económico liberal (o que muitos protestariam ser um eufemismo para capitalismo selvagem), Adam Smith, a Escócia é muito mais esquerdista que o resto do UK. O partido trabalhista obtém as suas maiorias parlamentares graças aos deputados escoceses, o partido conservador é fraco da muralha de Adriano para cima e a palavra Thatcher é quase uma asneira nas Highlands. O UKIP, esse partido profundamente anti-Europa, assustadoramente anti-imigração e ridicularmente populista como só quem nunca governou pode ser, não consegue ganhar raízes na Escócia como o está alarmamente a conseguir em Inglaterra. No outro dia - e eu juro que queria ter feito um post sobre isto porque me ri tanto e bati tantas palmas sozinha como uma doida - o Nigel Farage foi a Edimburgo e foi corrido à sapatada de um pub porque o empregado atrás do balcão simplesmente se recusou a servir gente da laia dele. E depois o Farage queria vomitar mais um bocadinho de scaremongering numa conferência qualquer e não conseguiu porque os protestos foram tantos que ele teve que, literalmente, fugir a correr. Diziam os protestantes que não queriam escumalha fascista e homofóbica na cidade deles. O Farage, fulo da vida, lá tentou obrigar o Primeiro-Ministro escocês a condenar os protestos, numa tentativa demasiado falhada de ligar protestos legítimos de quem não tem paciência para gente que gosta de espalhar o ódio e o racismo, à causa nacionalista, mas foi em vão. O Alex Salmond levantou-lhe uma sobrancelha e basicamente disse que cada um tem o que merece. E que não fosse criança e fosse aprender a argumentar, em vez de espalhar ódio sobre os nacionalistas escoceses.
A Escócia, ao contrário de Inglaterra, tem uma ligação profunda com o Continente. Gosta dos europeus continentais, percebe a ideia de Europa, sabe o que isso é, sente-se parte. Dizem eles que os escoceses passaram a sua história toda a aliar-se ora com os franceses, ora com os espanhóis contra os vizinhos do sul, e que, uns séculos mais tarde enquanto Londres franzia o sobrolho ora à França, ora à jovem Alemanha e tentava equilibrar a balança europeia, os escoceses mantinham trocas comerciais com o Continente, negociando, trocando, vendendo, comprando, com os primos europeus. Na Europa, a Escócia vê uma oportunidade de ter uma voz, de escapar aos laços que a estreitam e regem em Westminster. Percebi, também, e claro como o dia, que a situação de meia autonomia, meia pertença em relação ao UK - a chamada devolution - não é nada mais que uma transição. Entendo que a independência seja o único passo lógico na luta por uma cada vez maior devolução de poderes. Porque é disso que se trata, devolução. A Escócia foi um país durante séculos, tem uma cultura política diferente da Inglaterra, há uma grande vontade de voltar a ser soberana. Dentro da família europeia, em parceria com a Commonwealth. É uma vontade transversal a tudo o que eu vi, senti, ouvi na Escócia, ainda que não seja unânime. O referendo de 2014 vai ser extremamente antecipado por esta outsider.
Neste momento, Edimburgo está metade em Westminster. A justiça é gerida pela Escócia em Edimburgo, são os membros do parlamento escocês quem dita as leis do sistema penal da terra. Mas nas reuniões de ministros em Bruxelas, quem se senta à mesa é o Ministro da Justiça britânico, quem dá sugestões para a política europeia, quem decide, quem veta ou aprova legislação europeia, que será depois vinculativa em todas as partes do UK, mesmo nas que ele, nacionalmente, não decide nada. Porque é o UK que é país, estado-membro, não a Escócia. Muita especulação já houve também sobre a pertença da Escócia à UE caso se torne independente: entrada automática ou fase de adesão? Obrigada a adotar o euro eventualmente ou pode manter-se na libra? Os novos cidadãos escoceses perdem o direito a movimentar-se livremente pela Europa e só o ganham quando a Escócia voltar a pertencer à UE? Mas pode a UE retirar-lhes um direito, o de livre circulação, apenas por terem eles exercido o seu direito democrático de votar para a independência? Tanta pergunta sem resposta por não haver precedente.
Sente-se o peso da História nas pedras da calçada das ruas de Edimburgo. E nas casas, seculares e com o mesmo traçado característico desde o centro aos subúrbios mais longínquos. Evidência de uma cidade que escapou às guerras devastadoras do Continente no século passado. Não se encontra uma capital tão medieval e sistematicamente preservada e autêntica na Europa continental. Acasos felizes que não são só acasos mas consequências de uma geografia muito periférica. Uma geografia que, para além disso, se caracteriza por ter mar à volta. Ser ilha e impossível de invadir a pé e a cavalo, basicamente. Apenas o Parlamento escocês destoa, um edifício moderno, sinuoso, e que consta que sem um único ângulo reto na sua arquitetura. Estranho mamarracho que suscita ódios e amores nos corações escoceses. (Mas eu diria mais ódios.)
Por falar em ilha, vi novamente e por uma série de acasos muito felizes - estar sentada à janela, ter olhado na altura certa e estar um céu limpo - como a Grã-Bretanha é tão "já ali". É mesmo. Quando se vem do norte e estamos a sobrevoar a costa britânica, surge o mar e logo a seguir o Continente. Abarca-se ambas porções de terra no mesmo olhar, com uma língua de mar que parece ínfima da janela de um avião. É maravilhoso.
Mais uma vez me encontro de volta de licenças de maternidade, diretivas sobre trabalhadoras grávidas, posições do Lóbi Europeu das Mulheres, teses e apresentações de Powerpoint. A minha amada conciliação trabalho-família. Cada vez gosto mais do tema, tenho uma pontinha de orgulho pela minha humilde mas séria investigação na área, mas, caramba, hoje teria feito as coisas de maneira diferente. Espiolharia mais, metia mais o nariz onde talvez não fosse muito chamada, iria mais fundo. Três ou quatro meses não dariam para muito mais do que eu fiz, mas gosto de achar que agora I know better e utilizaria de forma ainda melhor esses meses.
Ainda assim, vai ser uma grande honra estar na mesma sala que monstras académicas da igualdade de género, cujos livros de muitas li nas intermináveis tardes passadas na amada biblioteca da LSE, e que constam na bibliografia da minha tese bebé. Vou-me sentir um pardalito ao pé daqueles cisnes académicos, mas um pardalito entusiasmado e cheio de vontade de partilhar os três ou quatro fios de palha que achou e com os quais fez um... coiso (acabaram-se-me as analogias com o mundo das aves).
Vai ser em Barcelona, no sábado. Lá vou eu voar (olha, afinal tinha mais uma!) para os países do sul que espero se portem climatico-gastronomicamente como deles é esperado, que isto aqui anda uma tristeza. Vivi na segunda-feira a minha primeira tempestade de neve, tenho trabalhado que é maluquice, ando euforicamente agradecida por terem voltado graus positivos e acho que as gauffres do supermercado da esquina são uma iguaria. Portanto isto está grave. Tanto a nível gastronómico como climático.
Pior: há dois ou três meses que não compro um chá de jeito. Tem sido só tiros ao lado. Acabou-se-nos o chá preferido há um mês, o Rooitea Caramel da Tee Gschwendner, e que entretanto descobri, por entre lágrimas sofridas, que custa o triplo do preço encomendando online devido aos portes. Qual a vantagem de viver no centro da Europa se está tudo tão longe na mesma? Rai's partam os portes de envio.
Desconfio que não será Barcelona que me curará esta última miséria. Mas se curar as outras duas, nem que seja por dois diazinhos, já me darei por satisfeita.
O Parlamento Europeu prepara-se para assinalar o dia. A grande conferência alusiva à igualdade de género este ano calha no dia 7 e intitula-se: "Women's Response to the Crisis" e conta com apresentadores de várias áreas e países que vão demonstrar de que forma a crise europeia e as medidas de austeridade estão a afetar desproporcionalmente as mulheres e, consequentemente, as crianças europeias.
Ainda não sei se vou. Muito provavelmente vou estar a trabalhar e, muito honestamente, não é um tema que me suscite especial interesse.
Vou continuar de antena no ar para captar mais eventos do género por Bruxelas.
Quando, há umas semanas, o D. me diz: "Dia 14 vou ver o Benfica a Leverkusen", a minha primeira reação foi "Está bem." Mas depois lembrei-me: "Espera lá, dia 14 é Dia dos..."
"A sério? Vais ao estádio no dia dos namorados? Numa saída de amigos? Quão cliché é isso, pá?"
Mas depois lembrei-me das minhas raízes feministas, e que mais cliché do que ir ver bola com os amigos no Dia dos Namorados é ser a namorada que fica aborrecida com isso, por isso esta foi a minha verdadeira reação:
Entretanto, andava a matutar sobre que iria fazer no Dia da Mulher que se aproxima. Há um ano, graças ao estágio no PE, estava em lugar privilegiado para assistir a todas as conferências e mais alguma sobre o tema. Precisamente no Dia da Mulher, tive a oportunidade de assistir a um debate muito interessante sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres na UE. Por isso, e como sei que a as instituições europeias são devotas à igualdade de género, a primeira coisa que me ocorreu foi ir pesquisar o que o Parlamento Europeu tinha agendado para este ano.
Em caminho descobri a campanha do One Billion Rising. O título baseia-se na estimativa de que uma em cada três mulheres será, algures durante a sua vida, violentada, abusada ou violada.
Uma em três.
Isto traduzido em números dá 1 bilião. Não sei o que dá melhor compreensão da extensão do flagelo da violência contra as mulheres, se o número 1 bilião ou se a fração 1 em 3. Uma coisa é certa: são demasiadas.
Pelo que consegui saber, o Lóbi Europeu de Mulheres - aka o meu sonho de emprego - estava a organizar uma flashmob no dia 14 de fevereiro ao fim da tarde em Bruxelas como parte desta campanha mundial contra a violência contra as mulheres. Havia ensaios de coreografia e tudo, e todo um código de vestimenta para participar nessa mobilização.
Quatro coisas conspiraram para que eu considerasse que essa flashmob puderia ser o serão perfeito para o meu Dia de S. Valentim:
1. Estava de folga àquela hora naquele dia;
2. Assim como assim iria estar sozinha em casa sem nada de especial para fazer;
3. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa nesta cidade, porque só assim me consigo integrar;
4. Preciso de ter uma vida social e societal mais ativa no que diz respeito aos direitos das mulheres, porque só assim consigo conhecer pessoas que partilham a minha visão e os meus interesses e os desenvolvo. A Beauvoir é boa companhia mas também preciso de conviver com gente viva.
Uma coisa conspirou para que a flashmob ao ar livre se tornasse uma má ideia:
1. O tempo.
Depois da hora do almoço começou a chover e no meu boletim meteorológico habitual até figurou um novo tipo de tempo: freezing rain. E que é freezing rain? Portanto, não é neve, não é chuva normal, também não é granizo... O que é? Pode-se sempre contar com Bruxelas para inovar no que aos códigos de meteorologia diz respeito. Comecei a temer que a chuva estragasse os meus planos de manifesto feminista.
Decidi ir. Está a chover, que se lixe. Se não fizer nada porque está a chover bem que posso ficar todos os dias em casa. E se está 1 grau, veste-se mais um casaco e siga.
Quando cheguei à Place Monnaie, o ponto de encontro da campanha e onde iria acontecer a dança, fiquei surpreendida com a quantidade de pessoas. Não estava à espera de ver a sala tão composta:
A minha postura demasiado auto-consciente e mais passiva do que gosto de admitir, levou-me a instintivamente procurar um lugar de observadora, e por isso fugi lá do meio e fui-me posicionar estrategicamente entre as colunas do edifício (também queria estar numa posição privilegiada para fotografar e filmar, confesso).
Entretanto, a música começa e o pessoal começa a coreografar:
Não conhecia os passos, mas a beleza das multidões é que se apanha o ritmo instintivamente, e começa a tornar-se impossível ter os pés quietos. Isso e o frio; não há nada como tirar o pé do chão para evitar que um membro nos caia, de dormente que está.
Foi muito inspirador. E superou as minhas expectativas. Não tanto pela música e pela flashmob propriamente dita, os pretextos para o ajuntamento e o grito de revolta, mas pelos pequenos detalhes que vi: as amigas que vieram juntas e que gritaram mais que todos os outros; os cartazes contra a violência; a mãe que levou a filha de um ano e que encorajava a bebé a dançar ao meu lado, e que foi bem sucedida (mais uma prova de que o ritmo de multidões a dançar é contagiante) e que me trouxe lágrimas aos olhos, porque sim senhora, de pequenino é que se torce o pepino, e assim é que é, educar a filha a ter orgulho em ser mulher, sem ser apenas no mais banal da aparência; na velhota de fartos caracóis loiros que entretanto apareceu lá no meio a bambolear e a curtir a música como as raparigas de 20 anos, e que me levou a um grito interno de "Quando eu for grande quero ser assim!"; os homens que apareceram e que se juntaram ao protesto, numa posição de respeito pelas mulheres da sua vida.
Entretanto a flashmob acabou, começou música para animar e aquecer o pessoal ("Vous êtes CHAUDS?" Então não estamos, senhora apresentadora...) e eu decidi sair do meu poleiro e ir mirar as barraquinhas com informação sobre a campanha. Uma senhora entregou-me isto:
Nada mais nada menos que um panfleto sobre aulas de defesa pessoal, defesa verbal, e grupos de auto-ajuda e aconselhamento sobre como as mulheres se podem sentir mais seguras. Quão bad ass, meu deus!
Isto fez-me lembrar um argumento que a Beauvoir faz n'O Segundo Sexo, sobre a relação entre a passividade a que são devotadas as mulheres e o seu sentimento de fragilidade e insegurança. Segundo ela, é necessário que as mulheres participem em atividades físicas, não lhes seja travado o impulso de subir às árvores em criança, de correr, de saltar, de puxar o limite dos seus corpos. Só experimentando o corpo, mexendo-se e raspando joelhos é que a mulher, tal como o homem, ganha consciência do que é capaz, e que as suas conquistas físicas e a boa relação com o seu corpo lhe dão a auto-estima necessária para dizer na sua vida: "Eu sou capaz" e a colocar-se a si própria objetivos mais altos. Eu vou desconfiando que ela tem razão.
Sem saber muito bem como nem porquê, dei por mim no meio da multidão, e a mexer o pé devagarinho. Passados cinco minutos era ver-me aos saltos como uma maluca, a dançar como raramente aproveito, e com um sentimento de irmandade a invadir-me os sentidos. Fala-se tanto da rivalidade entre mulheres, e como as amizades entre raparigas são sempre tão cheias de intrigas, e como é tão difícil trabalhar com mulheres porque são umas cabras umas para as outras, que foi mesmo bom sentir e presenciar a refutação desse mito: o que ali vi foi mulheres a partilharem a felicidade genuína e o sorriso fácil que vem da dança e do mexer o corpo sem qualquer propósito que não o da diversão: sem o propósito de agradar, sem o propósito de seduzir ou sequer rivalizar. Mexer ritmadamente e ao som de música dançante simplesmente porque é divertido.
Fiquei parva comigo mesma; estava a gostar genuinamente de estar ali a dançar!... De notar que eu fujo da discoteca e da noitada como o diabo da cruz. Fez-se mais uma vez a flashmob e eu entrei rapidamente na coreografia, no meio da multidão e sem qualquer preocupação no mundo.
A sessão de anti-self-consciousness fez-me definitivamente bem à alma.
Agora estou aqui sentada no sofá, no quentinho e no silêncio do lar, de pernas dormentes porque levaram dose puxada de abuso hoje - para além da caminhada habitual de commuting de uma hora, ainda me levaram até à Place Monnaie e aguentaram uma hora a pular como se não houvesse amanhã. Mas estou satisfeita, de sorriso nos lábios e com vontade de me envolver em mais coisas destas. Que venha o dia 8 de março!
Ainda mal o comecei, mas a avaliar pelo tempo que tem estado a marinar na minha mente e pelo número de vezes que já tive ganas de o lançar, este post vai levar tempo a ser escrito. Por mim, tudo bem; tenho o fim-de-semana todo pela frente.
Já por duas ou três vezes toquei no assunto, quase sempre relacionado com os meus estudos. Mas a igualdade de género tem vindo a adquirir uma parte demasiado grande dos meus pensamentos, da minha perspetiva da vida e do mundo, e do que eu quero fazer no futuro. Merece, pois, ocupar um espaço maior na minha escrita.
Este blog é por vezes demasiado ligeiro, com mais aleatoriedades, reviews de chás e baboseiras sobre chocolates quentes do que eu me atrevo a admitir e, tirando um ou outro post sobre considerações mais profundas sobre o futuro - o meu futuro, entenda-se - não relata nenhuma das minhas lutas interiores de convicções. E o feminismo, como já se viu, é talvez a maior delas. Não era, mas de há uns anos para cá tem vindo a rastejar sorrateiro pelos meus sentidos, fazendo cócegas à minha inteligência, suscitando mais dúvidas do que esclarecimentos, mas trazendo à baila uma lógica muito diferente do senso comum mas que faz tão mais sentido ao que observo à minha volta todos os dias.
Já aqui tinha dito uma vez como as questões de igualdade de género me suscitaram interesse pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente de em 2007, por altura da assinatura do Tratado de Lisboa e quando Portugal detinha a presidência do Conselho Europeu, me ter vindo parar às mãos uma capa com panfletos sobre a Presidência, com um cd pequenino que continha as prioridades políticas de Portugal para a Europa, e uma delas ser distintamente a continuação da luta pela igualdade de género. E lembro-me de achar aquilo surpreendente e maravilhoso ao mesmo tempo, sem saber ainda explicar bem porquê. Uma espécie de gut feeling me dizia que aquela era a direção certa a seguir.
Entretanto, a minha paixão, curiosidade e ambição pela União Europeia definiu-se e apurou-se, e numa das minhas leituras anteriores ao ingresso na King's, descobri logo que a minha dissertação final de Mestrado teria que versar sobre direitos das mulheres. E versou. Desde então, vi-me obrigada a ler muito na área, aprender ainda mais, descobrir os variados campos onde a igualdade de género ainda não é uma realidade (todos. Menos o da lei, talvez. Mas os hábitos, como se sabe, são sempre os últimos a mudar) e conciliar a minha visão académica com a minha visão feminista.
Agora que olho para trás é que me apercebo como os dois campos da igualdade de género que sempre me fizeram borbulhar mais o sangue foram precisamente os que escolhi como trabalho/estudo:
- a violência, doméstica mas não só, contra as mulheres, que foi o que impulsionou a minha intenção de estagiar na APAV. Normalmente, eu sou uma pessoa muito serena, controladinha nas suas emoções e ações, no domínio sobre mim, e por isso mesmo lembro-me perfeitamente de ver o Bordertown, e acabar o filme a soluçar, cheia de calafrios e um horror que me abanou até à alma. E pensar: "Isto não é normal. Se eu não tenho nenhum trauma de violência, como é que é possível isto me afetar desta maneira?". E chegar à conclusão que ali estava a única e verdadeira causa com a qual eu alguma vez me podia indignar a sério, ao ponto de agir.
- a divisão do trabalho doméstico. Esta agora metida assim por baixo da da violência até parece um bocado mal, pontos diferentes de gravidade, se calhar... Mas se há coisa que sempre me mexeu com os nervos foi a questão de levar a roupa, fazer o jantar, fazer a cama, ir às compras, mudar fraldas, dar biberões, ir pôr à escola, passar a ferro, etc etc serem coisas de mulher. Como é que num casal onde ambas as pessoas trabalham fora de casa continua a ser da responsabilidade da mulher? Como é que isto parece justo seja a quem for? Também a propósito disto, lembro-me agora de uma professora de História no 10º ano, que não tinha mais de 30 anos e dona de uma energia contagiante, relatar muito bem-disposta que não senhor, lá em casa fazia-se tudo a meias, ela cozinhava, o marido passava a ferro; ela punha roupa a lavar, ele aspirava o chão. E eu ganhar uma admiração daquelas do género inalcançáveis, "quando for grande quero ser assim" mas ter-se toda a certeza que é preciso muita sorte para calhar com um homem daqueles. Hoje já penso bem diferente, e que não passa pela sorte mas sim pelo bom senso e não espero menos que a sua quota-parte do trabalho doméstico feito. Que - surpresa! - é pelo menos metade: 2 a dividir por 2 dá 1. Que é metade de 2 (ok, acho que já se percebeu). Mas porque entendo que enquanto não houver divisão perfeita neste campo as mulheres nunca vão poder escolher livremente carreira ou família ou ambas, e porque surpreendentemente a UE já legislou sobre isto, foi o tema da minha dissertação de Mestrado.
Estas são duas boas razões para uma pessoa ser feminista. A palavra está conotada com um sentido pejorativo que leva muitas mulheres a afirmarem que acreditam que há ainda muito a fazer no campo da liberdade das mulheres "mas eu não sou feminista". Pensa-se em mulheres histéricas, zangadas com o mundo e com os homens, de cabelo rapado e a queimar sutiãs. É do género da ideia de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço. Eu não tenho nada contra feministas radicais que gritam muito, rapam o cabelo e queimam sutiãs; pelo contrário. Tenho uma profunda admiração por este grupo, por exemplo, que cultiva ódios um pouco por todo o lado mas que chocam e abanam o establishment até às entranhas, com a noção muito radical de que o corpo da mulher lhe pertence a ela somente:
Só tenho pena de não ter a coragem delas. Mas ser feminista não é nada mais do que acreditar que todas as pessoas devem ter os mesmos direitos, a mesma liberdade, as mesmas oportunidades e o mesmo tratamento, tenham elas uma pilinha ou um pipi. Mas depois entra-se no campo da grande frase "mas os homens e as mulheres são diferentes, ponto." Aparentemente são, sim. Mas quanta dessa diferença é biológica e quanta é socialmente construída? Aqui é que reside a verdadeira questão: saber separar as diferenças fisiológicas e óbvias, das que são assimiladas desde a nascença, pela convivência em sociedade, e que se traduzem em todo um conjunto de regras que ditam o que é "ser mulher" e o que é "ser homem". E as diferenças fisiológicas, tenho-me vindo a aperceber que são pouco mais do que as diferenças que há de um indivíduo para outro.
O post já vai longo e por isso reservo a crítica do livro O Segundo Sexo da Simone de Beauvoir, o verdadeiro instigador deste post, para outro dia. E este blog vai decididamente tomar um caráter mais discutidor porque ele sempre foi catártico e meter as ideias em texto ajuda a desenrolar o novelo emaranhado chamado FEMINISMO que reside na minha cabeça e que todos os dias adquire um novo nó.
Fiquei na dúvida se o Parlamento Europeu já está em meados de fevereiro ou se teve uma crise de identidade...
Num olhar mais atento, descubro que esta é apenas uma homenagem a um artista plástico checo, e que o coração néon foi originalmente feito por ele e colocado em Praga para celebrar a queda do regime totalitário comunista. Celebra-se agora 20 anos desde que o senhor ergueu o coração na capital checa.
Noutra nota, o PE decidiu celebrar o prémio Nobel da Paz colocando nos placards a toda a volta da entrada principal as fases da paz europeia. Bem no centro, e por cima do reflexo sêxtuplo do coração, está o contributo português para uma Europa melhor: a Revolução dos Cravos.
Há muito tempo que me intrigavam os intérpretes simultâneos nas cabines das conferências. Foi um dos meus maiores maravilhamentos quando aqui cheguei: o facto de descobrir que o multilinguismo, no Parlamento Europeu, é uma realidade. E constatá-lo todas as vezes em que tinha conferências e reuniões de comissão para assistir.
Hoje, tive a oportunidade de experimentar como era. Numa espécie de palestra organizada pelo serviço de interpretação, e numa tentativa de atrair estagiários das instituições europeias para a carreira linguística, pudemos constatar que línguas mais fazem falta à UE (nativos eslovenos, malteses, romenos e búlgaros), que espécie de treino e educação é preciso obter para ingressar nessa carreira, e as gratificações e frustrações que se obtém quando se interpreta para ganhar a vida.
No final, veio a parte divertida: subir às cabines e fazermos nós próprios a interpretação de um discurso em inglês para a nossa língua nativa.
É... Esquisito. Estávamos três pessoas em cada cabine; ao meu lado tinha a minha amiga M. nativa de esloveno, e do outro lado um nativo de francês. Pusemos os auscultadores, ajeitámos o micro, e esperámos. Assim que o discurso começou ficámos uns 30 segundos sem reação: é suposto começarmos a debitar palavreado agora? Acho que estávamos envergonhados por começar a falar numa língua que nenhum dos outros compreendia e que, por estar ali mesmo ao lado, teria de ouvir. Mas assim que um de nós tomou coragem (não me lembro quem deu o primeiro passo, acho que eu não fui, ainda que estivesse mortinha por começar!), os outros foram atrás e em segundos, além de ouvir a minha voz em português e o discurso original em inglês, havia mais duas línguas faladas naquela cabine.
Falhei várias partes de frases, especialmente porque ao início esperava demasiado até começar a traduzir a frase para português; não se pode. Tem que se ir andando, num verdadeiro exercício de multi-tasking que consiste em ouvir, processar a informação, transformá-la em português, e dizê-la em voz alta. Isto tudo repetidamente, sem parar.
A mulher da palestra tinha razão: aquilo dá uma adrenalina do caraças. Mesmo ali, a brincar e sem ninguém verdadeiramente a ouvir (com três pessoas a interpretar ao mesmo tempo por cabine torna-se impossível sintonizar num canal e apenas ouvir uma voz!), é um exercício de antecipação que cria um stress daqueles positivos. É como se um novelo estivesse a rolar pelo chão continuamente e nós a tentar apanhar a ponta, que continua a ser conduzida para fora do nosso alcance.
Primeiro estranha-se e depois entranha-se. É sem dúvida uma habilidade que se ganha e se treina. Ao início eu não conseguia acabar as frases mas no segundo ou terceiro discurso já conseguia deixar pouco por traduzir. Fiquei desiludida porque pensava que também conseguia traduzir do francês, por ser tão semelhante a estrutura gramatical e as próprias palavras, mas a minha compreensão auditiva francesa ainda não é ágil e rápida o suficiente para conseguir interpretar simultaneamente para português (no discurso alemão, também não, mas nem sequer tentei). Ainda assim, foi uma experiência única e muito divertida.
Fui-me informar sobre as condições que eles exigem aos portugueses nativos - já que o número de línguas pedido a um candidato depende da sua proveniência linguística e do facto de haver muitos ou poucos candidatos dessa língua. Parece que ficam contentes com duas línguas, sendo que uma delas tem que ser o inglês ou o alemão, e a outra uma qualquer das 23 oficiais (em breve 24, com o croata). O curso recomendado é o da FLUL, de interpretação, que dura um ano. Namorei alguns minutos a ideia de me por nesta aventura... Mas depois deixei-me disso: teria que voltar para Portugal durante um ano, para estudar, e além disso temo não ter personalidade para isto. É preciso ter capacidades comunicativas orais altamente desenvolvidas. Eu é mais escrever, tenho pena.