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sábado, 30 de março de 2013

Barcelona, you're doing it wrong

Muito por acaso, apanhei um mercado enorme em Barcelona, daqueles mesmo bons, tradicionais e enormes, com bancas de todos os vegetais, frutas, peixes, queijos, carnes e enchidos que se possa imaginar. Não tem o caos do mercado do Midi, aqui de Bruxelas, nem a ordem do mercado de Loulé (por alguma razão, o mercado português que está mais vívido na minha memória), mas é labiríntico como nenhum destes dois e com uma variedade que me espantou francamente.

Enquanto por lá cirandava, uma banca de bacalhau chamou-me a atenção. Pensei: "Olha, que curioso, os espanhóis também apreciam bacalhau, não sabia." Até que me aproximei e vi melhor: 





Postas de bacalhau fresco, com uma grande camada de sal por cima, no que eu desconfio ser uma tentativa muito esforçada mais muito fail de produzir um bacalhau igual ao português.

Soltei uma gargalhada sarcástica e meio arrogante porque é sempre a mesma coisa. Todos tentam mas ninguém consegue ter bacalhau como em Portugal. Não, senhores barcelonenses, não é assim que se faz. O bacalhau tem que ser seco; não é só espetar um monte de sal por cima e esperar pelo melhor. Eu sei, eu já tentei... 

Corei um bocadinho quando me lembrei disto. No Natal londrino, numa tentativa um bocado desesperada de ter o tradicional bacalhau à mesa da ceia natalícia, comprei as típicas postas de peixe fresco e no dia anterior salguei-as como se não houvesse amanhã. Remediou, mas não é de todo a mesma coisa.

Por isso, vá, se é para vender tem que se fazer como deve ser; isso não engana ninguém, sim?



S.

sexta-feira, 22 de março de 2013

So far, so good


Clima soalheiro do bom:



Check.

Comida mediterrânica barata e de chorar por mais:


Check.

Caramba, tinha-me esquecido - outra vez - do que é uma cidade como deve ser. E de que há mesmo uma diferença entre o pessoal do Norte e o pessoal do Sul. Gente bem mais afável e extremamente mais relaxada. 



S.

sábado, 16 de março de 2013

Um chávena de chá e uma diretiva de licença de maternidade

Mais uma vez me encontro de volta de licenças de maternidade, diretivas sobre trabalhadoras grávidas, posições do Lóbi Europeu das Mulheres, teses e apresentações de Powerpoint. A minha amada conciliação trabalho-família. Cada vez gosto mais do tema, tenho uma pontinha de orgulho pela minha humilde mas séria investigação na área, mas, caramba, hoje teria feito as coisas de maneira diferente. Espiolharia mais, metia mais o nariz onde talvez não fosse muito chamada, iria mais fundo. Três ou quatro meses não dariam para muito mais do que eu fiz, mas gosto de achar que agora I know better e utilizaria de forma ainda melhor esses meses. 

Ainda assim, vai ser uma grande honra estar na mesma sala que monstras académicas da igualdade de género, cujos livros de muitas li nas intermináveis tardes passadas na amada biblioteca da LSE, e que constam na bibliografia da minha tese bebé. Vou-me sentir um pardalito ao pé daqueles cisnes académicos, mas um pardalito entusiasmado e cheio de vontade de partilhar os três ou quatro fios de palha que achou e com os quais fez um... coiso (acabaram-se-me as analogias com o mundo das aves).



Vai ser em Barcelona, no sábado. Lá vou eu voar (olha, afinal tinha mais uma!) para os países do sul que espero se portem climatico-gastronomicamente como deles é esperado, que isto aqui anda uma tristeza. Vivi na segunda-feira a minha primeira tempestade de neve, tenho trabalhado que é maluquice, ando euforicamente agradecida por terem voltado graus positivos e acho que as gauffres do supermercado da esquina são uma iguaria. Portanto isto está grave. Tanto a nível gastronómico como climático. 

Pior: há dois ou três meses que não compro um chá de jeito. Tem sido só tiros ao lado. Acabou-se-nos o chá preferido há um mês, o Rooitea Caramel da Tee Gschwendner, e que entretanto descobri, por entre lágrimas sofridas, que custa o triplo do preço encomendando online devido aos portes. Qual a vantagem de viver no centro da Europa se está tudo tão longe na mesma? Rai's partam os portes de envio.

Desconfio que não será Barcelona que me curará esta última miséria. Mas se curar as outras duas, nem que seja por dois diazinhos, já me darei por satisfeita.



S.
    

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Vida a 2 e a 1+1

Começou quando a nossa vida a dois ainda não tinha começado. 

O laço da imperatividade da presença física foi quebrado quando o D. entrou num avião a caminho de Londres três meses antes de mim. A nossa relação tornou-se "relação à distância" durante esse tempo, com pontuais visitas de parte a parte, e ainda que temporariamente. Mas o mito de que a presença era absolutamente necessária a todo o tempo desfez-se e tornámo-nos duas pessoas com vidas autónomas, que se sobrepõem muitas vezes, que vivem juntas, que se amam e que partilham um desejo enorme de constituir um "nós" verdadeiro, todos os dias e à sua maneira.

Quando parti para Londres, viajei de avião sozinha pela primeiríssima vez. Como o D. o tinha feito três meses antes, aliás. Outra amarra que foi quebrada. Rapidamente ficou inscrito na minha mente que é possível, eu sou capaz, faz-se. O que até aqui estava conotado na minha mente com "férias em família" (necessariamente, para mim, férias eram em família) tornou-se um mero instrumento que me leva do ponto A ao ponto B. O avião perdeu a mística que encerrava.

Estes dois cortes de amarras, da imperatividade da presença física e do avião como parte de férias, deram origem a uma coisa muito curiosa e que eu nunca esperei: vou a qualquer lado sempre que é preciso. Idem com o D., ou a coisa não funcionaria.

Há um jogo em Londres para ver, mete-se o D. num autocarro e vai ver. Surge a ideia de surpreender os meus pais interrompendo-lhes as férias de verão para se me juntar a eles, lá vou eu a voar até Faro. Reunião de trabalho em Lisboa, apanha-se o avião e lá estou eu na Portela passado duas horas. Jogo do Benfica com o Barcelona, segue sr. D. até terras espanholas. Férias de natal na terra-natal, senhor meu parceiro parte uns dias antes de mim.

É tudo muito novo, isto. Ou antes, por razões circunstanciais (o Benfica de repente joga muito fora mas muito perto daqui e o meu emprego é muito dado a reuniões fora de Bruxelas) intensificou-se recentemente. Talvez por isso mesmo o gosto a autonomia e a quebra da presença física esporádica sejam hilariantes e um gosto ainda não decididamente certo como saboroso ou amargo. Por enquanto é isso mesmo, hilariante, exhilarating, libertador, confortável, saudável. E a sensação de "CASA, cheguei a casa" quando se entra pela porta do nosso pequeno apartamento bruxelense e "olha só quem está aqui, a falta que me fizeram estes braços e estes traços familiares e este riso e esta voz e estas piadas reconfortantes, perspicazes e conhecedoras". Mesmo quando se acaba de deixar outra casa que já foi Casa, outras caras familiares, outros braços reconfortantes, e ainda se está a tentar descortinar se o país que se acabou de visitar e já foi o meu país continua a ser o Meu País e, se sim, que lugar no meu coração tem este onde acabei de aterrar cheia de alívio.

A ausência é uma poderosa catarse de sentimentos. Especialmente porque suscita a saudade. Faz-nos sentir vivos e humanos, e permite definir claramente o que é fundamental e importante na nossa vida, como acho que mais nada o consegue.





S.