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domingo, 10 de março de 2013

Exposição à vista

Há uns meses dei-me conta de uma exposição que o V&A em Londres estava-se a preparar para receber e que encaixa perfeitamente num dos meus interesses literários mais aguçados: o período Tudor. A exposição chama-se "Treasures of the Royal Courts" e conta com peças inéditas das Cortes do Henrique VIII e Elizabeth I, dos Stuarts e do Ivan, o Terrível (como este último foi aqui enfiado permanece um mistério para mim).




Infelizmente, só agora reparei que é uma exposição paga - os museus londrinos gigantes, preciosos e totalmente grátis habituaram-me mal - mas estou convicta de que valerá a pena. Só precisava de um pretexto para voltar a Londres nos próximos meses.

O pretexto chegou há uns dias, sob a forma de celebração dos 20 anos do meu curso na King's e convite para lá ir falar sobre a minha vida pós-European Studies (o que eles acham que eu possa ter de interessante para contar supera-me um bocado mas, hey, qualquer desculpa é boa para voltar a Londres :D). Calha mesmo bem para ir visitar a exposição das Cortes, que abriu ontem e lá estará até meados de julho. A ver vamos se nessa altura vai estar mais alguma coisa que valha mesmo a pena ver. Já decidi que me vou manter afastada dos veados, por isso vou ganhar umas 3 ou 4 horas para queimar a conhecer um recanto qualquer daquela cidade que ainda não tenha visitado. Talvez seja desta que vá ao mercado Spitalfields.





S.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Agarra que é feminista

Ainda mal o comecei, mas a avaliar pelo tempo que tem estado a marinar na minha mente e pelo número de vezes que já tive ganas de o lançar, este post vai levar tempo a ser escrito. Por mim, tudo bem; tenho o fim-de-semana todo pela frente.

Já por duas ou três vezes toquei no assunto, quase sempre relacionado com os meus estudos. Mas a igualdade de género tem vindo a adquirir uma parte demasiado grande dos meus pensamentos, da minha perspetiva da vida e do mundo, e do que eu quero fazer no futuro. Merece, pois, ocupar um espaço maior na minha escrita. 

Este blog é por vezes demasiado ligeiro, com mais aleatoriedades, reviews de chás e baboseiras sobre chocolates quentes do que eu me atrevo a admitir e, tirando um ou outro post sobre considerações mais profundas sobre o futuro - o meu futuro, entenda-se - não relata nenhuma das minhas lutas interiores de convicções. E o feminismo, como já se viu, é talvez a maior delas. Não era, mas de há uns anos para cá tem vindo a rastejar sorrateiro pelos meus sentidos, fazendo cócegas à minha inteligência, suscitando mais dúvidas do que esclarecimentos, mas trazendo à baila uma lógica muito diferente do senso comum mas que faz tão mais sentido ao que observo à minha volta todos os dias.

Já aqui tinha dito uma vez como as questões de igualdade de género me suscitaram interesse pela primeira vez. Lembro-me perfeitamente de em 2007, por altura da assinatura do Tratado de Lisboa e quando Portugal detinha a presidência do Conselho Europeu, me ter vindo parar às mãos uma capa com panfletos sobre a Presidência, com um cd pequenino que continha as prioridades políticas de Portugal para a Europa, e uma delas ser distintamente a continuação da luta pela igualdade de género. E lembro-me de achar aquilo surpreendente e maravilhoso ao mesmo tempo, sem saber ainda explicar bem porquê. Uma espécie de gut feeling me dizia que aquela era a direção certa a seguir.

Entretanto, a minha paixão, curiosidade e ambição pela União Europeia definiu-se e apurou-se, e numa das minhas leituras anteriores ao ingresso na King's, descobri logo que a minha dissertação final de Mestrado teria que versar sobre direitos das mulheres. E versou. Desde então, vi-me obrigada a ler muito na área, aprender ainda mais, descobrir os variados campos onde a igualdade de género ainda não é uma realidade (todos. Menos o da lei, talvez. Mas os hábitos, como se sabe, são sempre os últimos a mudar) e conciliar a minha visão académica com a minha visão feminista.

Agora que olho para trás é que me apercebo como os dois campos da igualdade de género que sempre me fizeram borbulhar mais o sangue foram precisamente os que escolhi como trabalho/estudo: 

- a violência, doméstica mas não só, contra as mulheres, que foi o que impulsionou a minha intenção de estagiar na APAV. Normalmente, eu sou uma pessoa muito serena, controladinha nas suas emoções e ações, no domínio sobre mim, e por isso mesmo lembro-me perfeitamente de ver o Bordertown, e acabar o filme a soluçar, cheia de calafrios e um horror que me abanou até à alma. E pensar: "Isto não é normal. Se eu não tenho nenhum trauma de violência, como é que é possível isto me afetar desta maneira?". E chegar à conclusão que ali estava a única e verdadeira causa com a qual eu alguma vez me podia indignar a sério, ao ponto de agir.

- a divisão do trabalho doméstico. Esta agora metida assim por baixo da da violência até parece um bocado mal, pontos diferentes de gravidade, se calhar... Mas se há coisa que sempre me mexeu com os nervos foi a questão de levar a roupa, fazer o jantar, fazer a cama, ir às compras, mudar fraldas, dar biberões, ir pôr à escola, passar a ferro, etc etc serem coisas de mulher. Como é que num casal onde ambas as pessoas trabalham fora de casa continua a ser da responsabilidade da mulher? Como é que isto parece justo seja a quem for? Também a propósito disto, lembro-me agora de uma professora de História no 10º ano, que não tinha mais de 30 anos e dona de uma energia contagiante, relatar muito bem-disposta que não senhor, lá em casa fazia-se tudo a meias, ela cozinhava, o marido passava a ferro; ela punha roupa a lavar, ele aspirava o chão. E eu ganhar uma admiração daquelas do género inalcançáveis, "quando for grande quero ser assim" mas ter-se toda a certeza que é preciso muita sorte para calhar com um homem daqueles. Hoje já penso bem diferente, e que não passa pela sorte mas sim pelo bom senso e não espero menos que a sua quota-parte do trabalho doméstico feito. Que - surpresa! - é pelo menos metade: 2 a dividir por 2 dá 1. Que é metade de 2 (ok, acho que já se percebeu). Mas porque entendo que enquanto não houver divisão perfeita neste campo as mulheres nunca vão poder escolher livremente carreira ou família ou ambas, e porque surpreendentemente a UE já legislou sobre isto, foi o tema da minha dissertação de Mestrado.

Estas são duas boas razões para uma pessoa ser feminista. A palavra está conotada com um sentido pejorativo que leva muitas mulheres a afirmarem que acreditam que há ainda muito a fazer no campo da liberdade das mulheres "mas eu não sou feminista". Pensa-se em mulheres histéricas, zangadas com o mundo e com os homens, de cabelo rapado e a queimar sutiãs. É do género da ideia de que os comunistas comem criancinhas ao pequeno-almoço. Eu não tenho nada contra feministas radicais que gritam muito, rapam o cabelo e queimam sutiãs; pelo contrário. Tenho uma profunda admiração por este grupo, por exemplo, que cultiva ódios um pouco por todo o lado mas que chocam e abanam o establishment até às entranhas, com a noção muito radical de que o corpo da mulher lhe pertence a ela somente:



Só tenho pena de não ter a coragem delas. Mas ser feminista não é nada mais do que acreditar que todas as pessoas devem ter os mesmos direitos, a mesma liberdade, as mesmas oportunidades e o mesmo tratamento, tenham elas uma pilinha ou um pipi. Mas depois entra-se no campo da grande frase "mas os homens e as mulheres são diferentes, ponto." Aparentemente são, sim. Mas quanta dessa diferença é biológica e quanta é socialmente construída? Aqui é que reside a verdadeira questão: saber separar as diferenças fisiológicas e óbvias, das que são assimiladas desde a nascença, pela convivência em sociedade, e que se traduzem em todo um conjunto de regras que ditam o que é "ser mulher" e o que é "ser homem". E as diferenças fisiológicas, tenho-me vindo a aperceber que são pouco mais do que as diferenças que há de um indivíduo para outro.

O post já vai longo e por isso reservo a crítica do livro O Segundo Sexo da Simone de Beauvoir, o verdadeiro instigador deste post, para outro dia. E este blog vai decididamente tomar um caráter mais discutidor porque ele sempre foi catártico e meter as ideias em texto ajuda a desenrolar o novelo emaranhado chamado FEMINISMO que reside na minha cabeça e que todos os dias adquire um novo nó.




S.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Esses malditos veados

Em boa verdade, eles não têm culpa nenhuma de nada. Mas foi o que eu disse várias vezes durante a última passagem por Londres.

Quando se formulou a pergunta: "Vou estar umas boas horas em Londres, alguma coisa em especial que nunca tenha visto / deva ver / queira mesmo muito voltar a ver?" Nada se me afigurou ao primeiro pensamento. Mas aí ao terceiro, uma coisa muito nítida começou a tomar contornos: veados. Muitos veados. Richmond... Este vídeo maravilhoso:




Depressa pus de parte a ideia porque Richmond fica um bocadinho longe da área monumental da cidade e ainda assim havia o mercado de Spitalfields (adoro dizer esta palavra) a que também nunca tinha ido e já merecia uma visita.

Mas depois de horas e horas a deambular pela cidade a obsessão com Richmond foi subindo à tona e numa fração de segundo decidi ir almoçar à cidade/vila da Virgínia (por falar em Virginia Woolf, a senhora é uma alumna da King's e eu não sabia:



Sempre à espera que alguma da genialidade se transmita por osmose ou assim...) e ir finalmente deleitar a vista com as illusive creatures que estes veados londrinos provaram ser.

Como fui de mãos a abanar no que aos mapas diz respeito, e porque só estive em Richmond uma vez, vi-me obrigada a procurar um daqueles postes na rua com a bolinha vermelha do You are here para saber onde ficava o parque. Depressa encontrei um Old Deer Park, não muito longe dali. Meti os pés ao caminho.





Como diz o Nilton: "Bela merda..."

Na minha ingenuidade, achei que a palavra-chave em Old Deer Park era Deer. Afinal era Old, na medida em que era, já não é. Porque veados, viste-los.

Não era mais que um grande descampado verde com balizas (!) de rugby e futebol, um grande campo de golfe atrás, e uma via rápida a correr num dos lados. Que parque tão prazenteiro à vida animal...





Foi quando reparei noutro mapa-poste, desta vez a mostrar o Richmond Park que se fez luz na minha cabeça e que eu fiz o maior facepalm da vida. Parque errado... (mas quantos parques tem Richmond, também?! Quando lá fui em 2010 estive num à beira do Tamisa e nos Kew Gardens e agora no Old Deer Park e nada de veados...)

Resumindo: foram 40 minutos até lá, mais 40 minutos até cá, e mais umas 2 horas a deambular pela cidade/vila deitados pelo esgoto abaixo. E cheguei à conclusão que Richmond também não é tão bonitinho, bucólico e suburbano quanto a minha seletiva memória o havia idealizado. Ainda assim, lá voltarei novamente porque à terceira será de vez e os veados não me vão escapar.



S.



quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

E porque uma notícia nunca vem só

Os resultados da King's chegaram. Parece que já sou Mestre. 



Agora é Graduation com ela e fecha-se este capítulo. 



S.