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domingo, 26 de maio de 2013

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência

Há umas semanas atrás, rumei ao Parlamento Europeu para assistir a uma conferência onde se discutia as vantagens de ter atenção ao género nas políticas de combate ao desemprego jovem. Foi bastante elucidativa porque deu para ver que as razões pelas quais jovens mulheres estão no desemprego e, nalguns casos, deixaram de procurar emprego, são diferentes das razões pelas quais jovens homens estão na mesma situação. Basicamente, deu para concluir que a maternidade e as expectativas de que a mãe será a principal cuidadora dos filhos tem um peso muito grande quer na empregabilidade das jovens mulheres quer nas próprias expectativas destas em relação ao mercado de trabalho, especialmente numa época de profunda crise económica como a que vivemos. A publicação do Parlamento Europeu sobre este tema, que foi basicamente o que os seus investigadores foram apresentar lá à conferência, pode ser consultada aqui: "As Vantagens de uma Estratégia de Género no Combate ao Desemprego Jovem".

Uma das apresentações foi particularmente lúcida e interessante e destacou-se das outras por me ter dado tanto que pensar que achei boa ideia partilhá-la aqui.

O título é "As diferenças de género na vontade de competir" e basicamente foi um estudo que um professor de uma universidade austríaca fez para avaliar a competitividade de rapazes e raparigas em diversas fases da vida. 

Fez 3 experiências com crianças dos 3 aos 18 anos que consistiam em diferentes provas. A 1ª experiência foi feita com crianças dos 3 aos 8 anos na qual tinham que correr 30 metros. Em baixo estão os resultados da performance de rapazes e raparigas por grupos de idades:


Bottomline aqui é que não há diferenças entre sexos na performance da corrida. Ao que parece, as diferenças só surgem a partir da puberdade, em que os homens tornam-se, regra geral, mais rápidos e resistentes do que as mulheres. Entre crianças, é tudo igual.

Na experiência foi depois introduzido um elemento que pretendia medir o nível de competitividade. Foi perguntado a cada criança se queria correr sozinha ou se queria correr em competição com outro/a colega. No caso de escolher a corrida com o/a colega, e se ganhasse, receberia o dobro da recompensa (acho que eram bombons ou assim). O gráfico a seguir mostra o número de rapazes que preferiu a competição e o número de raparigas:


Vemos aqui uma clara diferença da frequência com que os rapazes escolheram a competição em relação às raparigas. Lembremos que a performance é a mesma, portanto a probabilidade de uma rapariga ganhar seria a mesma que um rapaz. No entanto, não é isso que elas pensam.

"Ah, mas é normal que pensem que não são tão boas a correr quanto os rapazes porque corrida e desporto é normalmente uma área onde se considera que os rapazes são melhores." Para tomar em consideração esta espécie de parcialidade que poderia enviesar as conclusões, decidiram fazer outra experiência, desta vez numa área na qual não existe especial parcialidade ou, a haver, poderia pender para o lado das raparigas: arrumar blocos de diferentes formas. Num balde com várias peças de diferentes formatos, as crianças tinham que ir buscar todos os cilindros. Tinham um minuto para meter o máximo de cilindros que conseguissem num copo de plástico. Aqui, as raparigas tiveram uma performance um pouco melhor que os rapazes:


O elemento da competição aqui foi o seguinte: as crianças podiam escolher ganhar uma recompensa por cada peça arrumada ou ganhar duas recompensas por cada peça caso arrumassem mais peças que outra criança que lhes seria emparelhada aleatoriamente. Os resultados da competitividade não variam da prova da corrida:


Novamente, mais rapazes escolhem competir do que raparigas; e o que é mais, a diferença acentua-se com a idade! Isto numa prova que, segundo o investigador, é estereotipicamente associada a raparigas, que estas são melhores do que os rapazes a arrumar os blocos. Esta crescente diferença em competir é-me profundamente assustadora, mas já lá vou. Falta a última experiência.

Desta vez, a experiência consistia em somar números. Prova numérica mas muito simples, apenas adicionar. Aqui, como se sabe há o profundo estereótipo que os homens são naturalmente melhores a matemática do que as mulheres, que as mulheres são bem melhores em matéria de letras e comunicação do que números. Acho que é a maior treta que nos vendem desde pequeninos e que a maior parte das pessoas (eu incluída, até há cerca de um ano atrás) acredita que é mesmo uma diferença entre sexos. Que é o cérebro que é diferente e não sei quê. Os resultados da performance na soma dos números:


Duas conclusões, às quais o investigador chamou à atenção na sua apresentação:

- afinal as crianças aprendem alguma coisa na escola, visto que com a idade ficam melhores a adicionar números (haha!);

- não há diferença entre sexos na adição de números. Zero. Às vezes uma das barras está ligeiramente mais elevada que a outra, mas devido à margem de erro, a diferença desaparece. É tão claro que uma pessoa fica parva a olhar (eu fiquei, ainda que já tivesse lido umas coisas que apontavam neste sentido) e acaba por interrogar-se quem foi a alminha que inventou o mito que as mulheres são de letras e os homens de números. Bom, mas quando se vai para a questão da competição, o padrão continua:


Mais rapazes preferem competir com outro/a colega do que raparigas. E o pior: a diferença aumenta com a idade! (olhem para o grupo dos 17/18 anos, meu deus).

Porquê? Porque é que as raparigas se subtraem à competição muito mais que os rapazes, se têm exatamente as mesmas probabilidades de ganhar? Mais: porque é que se subtraem à competição mesmo quando têm mais probabilidades de ganhar do que os rapazes (na prova dos blocos, ligeira vantagem)? Basicamente, as conclusões do estudo são que as raparigas são mais avessas ao risco que os rapazes, e que os rapazes são mais otimistas em relação à sua performance que as raparigas. Ou seja, as raparigas têm uma perceção de que desempenham pior do que realmente desempenham, enquanto os rapazes têm uma perceção que desempenham melhor do que realmente desempenham. Umas são underconfidents, outros são overconfidents. E, como vimos, os estereótipos só pioram a underconfidence e a overconfidence de umas e outros.

Uma vez que as diferenças entre a vontade de rapazes e raparigas de competir nestas tarefas aumentam com a idade, suspeita-se que a educação e os papéis de género tenham também grande dose de influência nesta vontade de competir.  E faz sentido; das raparigas espera-se que sejam diligentes e aplicadas na escola (e na vida), dos rapazes espera-se que gostem de desporto, que joguem, que compitam, que ganhem (no desporto e na vida). Mas esta vontade de competir não irá ter meras consequências no desporto que se possa praticar ou em competições pontuais que se possa fazer; a vontade de competir é uma característica muito valiosa para se singrar no mundo do trabalho. Para se candidatar a um emprego está-se a entrar em competição com os outros candidatos, para nos tornarmos disponíveis a uma promoção está-se a entrar em competição com outros potenciais candidatos. Nunca tinha percebido a relação entre confiança e competição e mercado de trabalho: só uma pessoa que confia que tem um bom currículo ou que está ao nível do que é pedido em determinado anúncio de emprego se irá candidatar; só uma pessoa com confiança em si irá se propor a uma promoção que envolva qualidades de liderança, gestão, etc. E nisto, ao que parece, os homens ganham-nos aos pontos. É uma questão genética, do tipo os homens são naturalmente mais competitivos? Mas ao que parece é algo que aumenta com a idade. É de educação? De estereótipos de género? Porque de performance, já se viu, não é. 

O investigador disse uma coisa muito interessante, uma espécie de dito: "Um homem vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que condiz, candidata-se; a mulher vê as especificações de um anúncio de emprego e, se tem uma que não condiz, não se candidata." A questão da overconfidence e underconfidence que pelo vistos caracteriza os géneros e que eu vou desconfiando que é mesmo assim.

Este post já vai longo mas há ainda uma coisa que eu queria escrever aqui porque basicamente essa era a finalidade do estudo: a questão das quotas. Não a vou discutir neste post porque dá mesmo muito pano para mangas mas vou só lançar umas ideias.

O que este estudo, na sua segunda parte, pretendia perceber era o efeito que a intervenção de políticas de quotas ou discriminação positiva tem na vontade das mulheres de competir. Já se viu que são no geral pessimistas em relação ao seu próprio desempenho e que se retraem na hora de competir por um lugar. Ou seja, está-se a perder potenciais trabalhadoras competentes em determinadas áreas (engenharias, informática, tecnologias, etc), trabalhadoras já formadas, mas que simplesmente não acreditam que têm hipótese. E portanto nem chegam a candidatar-se a determinadas posições.

No estudo, fizeram mais uma data de experiências, no mesmo molde das outras e com o esquema de sozinho/competição. Desta vez estavam num grupo de seis colegas, 3 homens e 3 mulheres. A tarefa era adicionar números em 3 minutos e podiam escolher: ganhar 50 cêntimos por cada par adicionado corretamente, ou 1,50 euros se fossem um dos dois melhores no grupo a adicionar números. O que os investigadores fizeram foi variar depois o tipo de recompensa para as mulheres que quisessem competir, e no sentido de ver se com ganhos assegurados, as mulheres estavam mais dispostas a competir. No fundo, é simular o efeito que as quotas teriam numa situação real.


Portanto, o CTR é o grupo no qual não era dada qualquer vantagem às mulheres. O que se vê é aquela diferença abismal na predisposição para competir.

No QUO, a regra era que entre os dois vencedores, pelo menos um tinha que ser mulher, o que significa que a mulher com o melhor desempenho venceria decerto. Isto é o equivalente às quotas frequentemente introduzidas nos partidos ou a que a Viviane Reding queria introduzir nos quadros das empresas europeias. Aqui vê-se um claro aumento do interesse das mulheres em entrar em competição, ainda que não supere o dos homens. 

No PT1, era dado às mulheres um ponto extra, que servia como desempate caso elas tivessem um desempenho tão bom quanto os homens. O interesse pela competição aumentou entre as mulheres. 

No PT2, eram dados às mulheres dois pontos extra, o que significa que uma mulher menos qualificada poderia ganhar em relação a um homem com um desempenho melhor. Este é o único em que as mulheres preferem muito mais competir que os homens.

Finalmente, no REP, haveria repetição da competição caso nenhuma mulher ficasse entre os dois vencedores. Na repetição, as regras normais seriam aplicadas. Não convence muito as mulheres a competir, neste caso.

Ou seja, as únicas experiências que nivelam o campo em termos de predisposição para competir são o QUO e o PT1. O único injusto - na minha opinião - é o PT2. É importante frisar mais uma vez que o desempenho das mulheres e dos homens é igual, ou seja, não existe aqui o perigo de estar a favorecer candidatas menos qualificadas do que os candidatos (exceto no PT2). Mesmo com as vantagens favoráveis, quem acaba por ganhar será sempre a mulher mais qualificada. O que as intervenções fazem é aumentar o número de candidatas disponível porque há mais mulheres - igualmente qualificadas que os homens - predispostas a ir à luta. 

Paralelismos com o mercado de trabalho não são coincidência, são intenção. 

Agora o que eu gostava mesmo de descobrir era quanto da pouca vontade de competir é uma questão genética e quanto é socialização do que é "ser mulher".



S.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

IRS codificado

Os meus papéis de IRS, primeiros na vida, já chegaram e vêm em flamengo.

É espetacular. 

Estou há meia-hora a olhar para eles, a fitar palavras como BEZOLDIGINGEN e AFZONDERLIJK BELASTBARE INKOMSTEN e SCHEIDSRECHTERS e ARBEIDSOVEREENKOMST e BEZOLDIGINGEN (ah não, espera, esta já passei) à espera que com a intensidade do meu olhar carrancudo elas se traduzam automaticamente.

É por estas e por outras que sempre adorei a expressão "glaring daggers". É o que estou a fazer agora. Glaring daggers contra o papel. 

Bem, então vou ali abraçar-me ao Google Translate durante umas horinhas e já venho.




S. 

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Sei o que fizeste o 26 de fevereiro passado

Andei o mês todo a pensar nisto e até fui ver o e-mail da reserva do avião para descobrir o dia certo em que tínhamos chegado a Bruxelas.

Reparei hoje que faz um ano que nos mudámos para Bruxelas. 

É a primeira vez, desde que começámos a morar juntos, que paramos um ano no mesmo sítio. E eu que estava tão convencida que seria Londres a quebrar a marca... 

Não temos intenções de sair daqui tão cedo mas muito menos de ficar aqui muitos anos. Vai-se deixando andar, num misto de ir-se com a corrente do dia-a-dia e ter-se umas imagens esboçadas sobre onde se quer estar no futuro próximo.

Agora, com o ciclo anual fechado, e à medida que os próximos meses se desenrolam, começam as comparações inevitáveis - especialmente com o tempo que faz e o que fez o ano passado. E com o que se estava a fazer há um ano, e onde fomos passear, e com quem estávamos e o que sabíamos, e o francês que falávamos e percebíamos. 

Esta cidade de vez em quando frustra-me, dá-me algumas dores de cabeça, mas também foi ela que me deu o meu primeiro emprego a sério, a possibilidade de me deslocar a pé para o trabalho e a facilidade em lhe escapar quase todos os meses devido à sua centralidade. Por isso as minhas queixas são relativas.






S.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Passatempo favorito: Brussels-bashing

Após acordar estremunhada, olhar pela janela e ver inesperadamente os passeios cobertos de neve, apeteceu-me mandar as bicicletas e as caminhadas à merd@ e dirigi-me ao tram que me levaria ao metro que me levaria ao outro metro que me levaria ao trabalho. Estou sem paciência para ter frio nos olhos e pés congelados.

Mas o metro bruxelense acha por bem ter a regularidade de  dez-em-dez-minutos em plena hora de ponta e portanto foi a resmungar entredentes que esperei por ele na estação apinhada. Os dez minutos passados e a luta para entrar na carruagem que é customeira. Nunca ninguém ensinou os bruxelenses que primeiro se deixa as pessoas sair dos comboios e só depois se entra, assim como nunca ninguém os ensinou que numa escada rolante, quem está parado encosta-se à direita. Oh, ordem londrina.

Na estação o metro esvai-se em pessoas, uma corrente de indivíduos que não acaba e o motorista sente que já está ali há tempo demais e portanto toca a fechar as portas no meio da corrente humana. O sistema mecânico destes metros de há cinquenta anos atrás dita que estes não tenham sistema de deteção de coisas entre as portas e é preciso muitos pares de mãos a segurar as portas para que ninguém fique entalado. Desisto de entrar no comboio do demo e fito as portas de olhos arregalados, incrédula com a estupidez que se acabou de passar ali.

As portas acabam por se fechar, menos uma. Após várias tentativas, vejo o motorista a sair da sala das máquinas, a mandar dois pontapés na porta e a regressar com ar de enfado ao seu posto. O comboio arranca pouco depois.

Após mais dez minutos de espera na estação onde faço o transbordo, a mais nojenta e incrivelmente desfeita do metropolitano bruxelense, de certo, só rivalizando com a de Schuman que tem a desculpa de estar em obras (há dois anos). Na dita cuja, subo os seis ou sete lanços de degraus de pedra por polir/acabar, maldizendo Bruxelas por não ter consideração nenhuma por pessoas idosas, deficientes ou simplesmente que ali apanham o autocarro direto para o aeroporto, e portanto têm que alombar com 20 kg às costas e é se querem. Saio para a rua e está a cair aquela chuva miudinha que não é chuva nem é neve, está frio, e eu estou quinze minutos atrasada. Tivesse caminhado, chegava a tempo, tivesse pedalado, teria chegado 10-15 minutos antes.

No dia em que tiver que abandonar esta cidade, não vou sentir um pingo de tristeza.






S.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Das conferências e das chatices das manifestações



Pararam grande parte da cidade? Pararam.

Bloquearam as artérias principais de acesso ao bairro europeu com os seus 500 tratores? Bloquearam.

Deu muita chatice a muita gente que ia trabalhar? Deu.

O Parlamento quase fechou as portas por causa do protesto? Sim.

Íamos ficando sem lugar para a conferência que andámos a preparar durante meses, correndo o risco de mais de cem pessoas ficarem à porta? Pois, e trememos muito durante duas horas.

Metade das pessoas chegaram atrasadas? Chegaram.

Houve muito barulho? Se houve.

Tem razão? Não faço a mínima.

É justo que milhares de pessoas sejam afetadas porque uns quantos agricultores se sentem injustiçados? Absolutamente.

O direito à manifestação é um direito ileanável  dos cidadãos de um país democrático. Independentemente das chatices que possa causar  - e normalmente causa - a terceiros. Acho sempre muita piada a quem é contra as greves pelo incómodo que lhe causa. Estes foram especialmente perspicazes em dirigirem os seus protestos a quem é realmente responsável pela política agrícola europeia - as instituições europeias em Bruxelas. E, desculpem mas borrifar a polícia de choque com jatos de leite é ridicularmente engraçado.


A conferência correu muito bem, obrigada. 



S.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fez-se luz na minha vida sedentária

Engraçado como o corpo humano se vicia em exercício. 

Há nove meses, eu era a pessoa mais sedentária que conhecia e afirmava terminantemente que exercício físico não estava entre as minhas prioridades. Estava empenhada em mil e uma coisas mas o mexer-me para além do trajeto casa-paragem de autocarro/trabalho-paragem de autocarro era mentira. 

E nunca pensei que seria Bruxelas que me iria mudar. A capital belga não é particularmente plana nem de avenidas largas, não é dominada por bicicletas (ainda...) e portanto não havia razão para ser diferente de Lisboa. Mas a verdade é que fui sendo seduzida aos pouquinhos pela conveniência que é andar de um lado para o outro. Literalmente, andar de um lado para o outro.

O medo de que com a troca de local de trabalho eu ficasse sem a minha caminhada diária de uma hora fez-me inscrever imediatamente no ginásio. Mas os transportes demasiado indiretos e o hábito de caminhar que estava mais entranhado do que eu alguma vez acreditei ser possível fizeram com que as pernas se mexessem quase de seu acordo em direção a casa. Daí à bicicleta foi um pulinho. E o ginásio, para minha enorme surpresa, continuou local frequente de passagem, e o ritual do exercício+banho+caminhar-para-casa-a-pé-desempenada-e-a-levar-com-o-ar-fresco-do-fim-da-tarde, tornou-se revigorante.

Mais: recentemente cheguei à conclusão que já não consigo andar de transportes. Maça-me profundamente. É o autocarro que para nos sinais vermelhos, nas paragens, no trânsito e eu que começo a bufar, tentando calcular mentalmente onde é que eu já podia estar se tivesse escolhido ir a pé. Ou, melhor ainda, de bicicleta. É o desconforto e o stress de ter tanta pessoa à minha volta num espaço pequeno e fechado, o cheiro, o ar abafado dos metros e saturado de tantas respirações. 

A bicicleta provou-me que não estou em forma. Qualquer inclinaçãozinha se reflete na minha respiração e no esforço que as pernas fazem, e não consigo fazer todo o caminho para o trabalho montada no selim. Mas o mais entusiasmante é ir notando, pouco a pouco mas cada dia, que consigo um bocadinho melhor. E saber que um dia vou conseguir (hoje, no caminho para casa, foi a primeira vez que o fiz sentada na bicicleta todo o trajeto, apesar de ter parado numa subida para recuperar o fôlego).

Mas agora outro elemento se juntou à equação: a chuva. É verdade que o que não faltou durante os cinco meses de caminhadas foi chuva. Mas uma pessoa abre o chapéu, encolhe-se debaixo dele e vai caminhando até casa. Agora, de bicicleta torna-se um problema. E a razão é óbvia: não posso ter chapéu aberto enquanto conduzo a bicicleta (se bem que hoje vi um ciclista a fazer isso... Receio não ter a destreza para tal). Isto a juntar à deslocação do ar e à chuva a bater na cara, facilmente se vê que a bicicleta se torna o transporte menos ideal. 

E, sabendo o que já sei sobre o clima bruxelense, chuva é coisa com que contar todos os dias. Ou quase.

É por isso que agora ando de olho numa coisa destas:



Tirando o facto que fico a parecer um dementor, é uma coisinha extremamente útil. Sendo que uma pessoa vai sentada na bicicleta e que eu tenho metro e meio, aquilo acaba por cobrir as pernas também. Serei toda eu uma bola impermeável. Uma bola azul, amarela ou vermelha, ainda não decidi.

Quero muito continuar esta vaga de meximento múltiplo. Ginásio, caminhar, bicicleta. Agora só faltava começar a gostar de legumes e ser alérgica a chocolate e tornava-me um modelo de vida saudável :D



S.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A caça ao apartamento

Começo a pensar seriamente que procurar casa é tão ou mais difícil que procurar emprego.

O processo é exatamente o mesmo: pesquisa mais pesquisa todos os dias, em meia dúzia de sites previamente guardados na barra de marcadores, contactar os senhorios, chegar à fase da visita/entrevista, e do "depois digo-lhe se a escolhemos". O mercado imobiliário de Bruxelas é tão saturado de procura que os senhorios dão-se ao luxo de elaborar uma lista de potenciais interessados, exigir comprovativos disto e daquilo (especialmente rendimentos de ambos os membros do casal), e de depois escolher à vontade quem lhes parece mais digno de ocupar as reais paredes de míseros estúdios.

A paranóia e o stress não se instalaram porque, ainda assim, temos um telhado sobre as cabeças, numa zona que gostamos muito. Mas o facto de não conseguirmos algo mais baratucho e razoável é inacreditável.

Se a analogia com a procura de emprego está correta, então é bom que me prepare para palmilhar esta cidade de norte a sul, de este a oeste, ver muita coisa, não gostar de metade e de ser recusada para a outra metade. De repente lá estará a casinha que queremos, que não será ainda a "nossa casa", aquela para a qual compraremos os móveis ao nosso gosto e decoraremos com todo o carinho e tempo, mas que cumprirá o objetivo de nos poupar o mais possível, vivendo com o mínimo de conforto.





S.


Entretanto dei por mim à pesquisar casas em Richmond e , por consequência, Hounslow, a nossa morada em Londres. Não vou nem dissecar o que isto  significa.

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Para a frente é que se pedala

Depois de ter passado cinco meses a caminhar todos os dias para o trabalho, estava um bocado ansiosa sobre:

1º - se ia arranjar emprego;

2º - onde iria ser esse emprego e se poderia continuar a deslocar-me a pé.

Pensei sempre para comigo que iria ser sorte a mais conseguir um emprego a menos de meia hora de casa, como tinha sido o caso até aqui. E, de facto, não me enganei. A nova morada profissional não me era desconhecida - a rotunda de Schuman é o centro da colmeia dos eurocratas - mas de facto ficava a bem mais de meia hora de casa, num caminho não tão linear, e por isso foi com resignação que, na véspera do primeiro dia, lá estava eu a estudar o mapa dos transportes.

Depressa concluí, como já desconfiava, que não tinha transporte direto. Ou andava 500 metros para apanhar o metro e tinha que mudar de linha, ou andava uns 700 para apanhar um autocarro que, a somar ao meu azar rodoviário, consta que não são muito de confiar aqui em Bruxelas. Conclusão: mais de meia hora iria sempre gastar em commuting e uma parte deles seria a andar de qualquer das formas.

Na véspera do primeiro dia bati o pé e decidi que ia experimentar ir sustentada a perninhas apenas. "Só amanhã, para ver se custa muito ou não."

Deixei 45 minutos para a travessia e cheguei com quase dez minutos de antecedência. Alegria! :D Na primeira semana, fiz o caminho com entusiasmo, se bem que com mais custo por ser mais longe e ter subidas e descidas.

Entretanto, comecei a pensar "O que era mesmo fixe era eu ter um transporte que me levasse de casa ao trabalho, sem ter de esperar nem cumprir horários, e à minha inteira e única disponibilidade..." E comecei a namorar bicicletas.

Ora, Bruxelas tem um sistema muito catita de aluguer de biclas (semelhante ao de Londres, aliás) e que sempre me suscitou a curiosidade. Há uns dias, decidi investigar.


E o que descobri  deixou-me boquiaberta. Por uns míseros 32 euros anuais, uma pessoa usa estas bicicletas as vezes que quiser, a partir de onde e para onde quiser. A única regra é que cada viagem tem de durar menos de meia hora, caso contrário começa-se a pagar 50 cêntimos por cada excerto de tempo excedente.

Aquilo tem um sistema muito bom de se poder utilizar o passe urbano de transportes em vez de ter um diferente, e usá-lo para desbloquear a bicicleta que se quer utilizar.

No sábado, porque tinha uns recados para tratar e era pertinho, estreei-me neste transporte tão catita.

Foi um desastre, a estreia.

Estava nervosa, porque já não andava de bicicleta seguramente há mais de um ano, nunca andei no centro de uma cidade, e era uma experiência nova. Começou logo pelo facto de não saber mudar as mudanças daquilo (e ainda não sei... :/ ). A bicicleta estava no mais leve e eu comecei logo por uma descida. Depois, deu-se o facto de eu, simplesmente, nunca ter conduzido no meio do trânsito. Foi algo que me deixou muito nervosa, já que eu, por um lado não quero estorvar os carros, então vou muito perto do passeio ou dos carros estacionados, e por outro sinto-me um peão que vai a andar ali no meio da estrada feito maluco. São demasiados anos condicionada pelas regras do bem-circular na estrada enquanto peão...

A somar a isto, uma das estradas pelas quais tive que passar era de calçada e a bicicleta, por estar demasiado leve, ia-me cuspindo do assento. Quando uma das rodas entrou por um carril de tram dentro, perdi o controlo da bicicleta e tive que levar os pés ao chão para não bater no táxi do lado. De coraçãozinho a tremer, lá fiz o resto do caminho que faltava, depositei a bicicleta no seu parque, e saí dali quase a correr. "Como, oh meu deus, como vou eu adotar a bicicleta como meio de transporte se só em cinco minutos ia morrendo umas três vezes...!" (sou muito dramática e mariquinhas nestas experiências fora da minha zona de conforto. Que ainda por cima é muito estrita).

Mas no domingo, e porque andava com a pulga atrás da orelha sobre o Bois de la Cambre há meses, e aquilo era só ir pela avenida abaixo, sempre a direito e com espaço, lá me aventurei eu novamente em cima do selim. Isso e a minha extrema abjeção a desperdiçar dinheiro. "Pagaste 30 euros agora hás de andar todos os dias...

Já correu melhor. Encorajada pelos outros (muitos!) ciclistas que agora observo atentamente, comecei a ganhar a noção de que a bicicleta é tão transporte como o carro, e portanto não tenho que estar aflita se o carro passa por mim ou não; se tiver espaço suficiente, passa, se não tiver, que vá atrás de mim. Isto parece demasiado despreocupado mas é mesmo assim que no site do Villo aconselham a que os ciclistas façam. E como vejo sempre os outros ciclistas a fazer.

E o que é certo é que, agora que reparo com nova atenção, muitas ruas bruxelenses têm espaço para bicicletas (ainda que não possa dizer que na grande maioria dos casos seja uma verdadeira faixa. Mas que há espaço, há).



Posso dizer também que, pela parte que me toca, Bruxelas está bem servida destas estações de estacionamento de bicicletas. Tenho uma a 50 metros da porta de casa, outra a uns 200, e mais umas a distância a pé. Ao pé do trabalho, tenho também umas duas. Esta é uma possível desvantagem: estas bicicletas não me levam à porta dos sítios onde quero ir; sempre que se quer utilizar este serviço, há que pesquisar no mapa onde as há de onde se quer partir, e onde as há até onde se quer ir. E os meus olhos agora já ligaram radar no que toca a procurar o sinal circular laranja com a palavra Villo! escrita. 

Já me deparei com alguns contratempos:

- estação vazia hoje de manhã, quando queria estrear o caminho para o trabalho neste novo modo de transporte;

- ontem, agarrei numa bicicleta com o pneu furado (ainda comecei a andar e lá ia eu perdendo o controlo outra vez...);

- hoje, quando queria voltar, não conseguia destrancar a única bicicleta disponível naquela estação. Frustração transformou-se em energia nas patas (remédio!);

- as inclinações e ligeiras subidas dão cabo de mim, mesmo aquelas que não dão quando caminhava apenas. Em contrapartida, nas descidas estou no paraíso :D ("olha para mim tão rápida a chegar lá abaixo!");

- ainda não me sei colocar como deve ser no sinal vermelho... Aconselham a que nos posicionemos sempre à frente do primeiro carro, para sermos os primeiros a arrancar, e é isso que vejo os outros ciclistas a fazer. Mas muitas vezes não há espaço suficiente para navegar a bicicleta até lá, e não tenho ainda a confiança necessária para me embrenhar aos ziguezagues pela fila, como todos os outros ciclistas fazem. Em contrapartida, a minha sinalética dos braços é efusiva, porque quero que o carro que vai atrás de mim não tenha dúvida que eu vou virar à esquerda (às vezes quase me apetece gritar "EU VOU VIRAR À ESQUERDA, CUIDADO!");

- acho que vou ter que arranjar um capacete. Não é de todo obrigatório, coisa que me choca um bocado, pois aqui há mesmo muita gente a usar a bicicleta como meio de transporte principal, e por isso deve haver acidentes, mas é recomendável. Vou ter que tratar disso.

A minha grande ambição na vida neste momento é saber mudar as mudanças daquilo. Pego sempre em bicicletas que estão no "1", e não encontro o manípulo que costuma existir no lado direito da rodazinha das mudanças. Há que ganhar coragem e perguntar a alguém que esteja a alugar uma bicicleta na mesma altura que eu...



Basicamente, é isto. Ganhei um novo meio de transporte, disponível quando quero, movido a energia de S. e que me leva menos tempo do que se apanhasse metros ou autocarros. A prova final será quando começar a chuva e o frio...



S.


P.S. Por falar em bicicletas movidas a energia de S., ando completamente parva com o exercício todo que tenho feito, quase sem querer. Ele é ginásio dia sim dia não, caminhadas a pé de 40 minutos até ao trabalho, bicicleta... Acho que qualquer dia o meu corpo curto-circuita-se com tanto movimento saudável... "Eu não fui criado para isto!", temo eu que ele me diga um dia destes, e decida fazer greve. Enquanto esse dia não chega, nem a neve, já agora, há que aproveitar :) . 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Nacionalidades e racionalidades

Porque veio mesmo a calhar, relativo ao meu último post, para calar as minhas preocupações sobre conhecimento de gente local:

A minha supervisora, no meu novo emprego, é belga.

Fiquei muito contente, porque assim já tenho alguém com quem bombardear com perguntas sobre as maiores e mais pequenas idiossincrasias deste meu país hospedeiro.

Já comecei com as relacionadas com as línguas e os aparentes - ou não? - desentendimentos e ressentimentos entre valões e flamengos, fonte de enorme interesse da minha parte. A essência de um país vai sendo descortinada através de pequenas peças que vamos juntando aos pouquinhos e ao longo do tempo, coisas que em si mesmas são irrisórias, mas que todas juntas constituem o caráter de um povo e de um país. 

A minha precisa ideia sobre a Bélgica e sobre o povo belga é precisamente a ausência de essência. Ou melhor, é uma essência que se caracteriza por desentendimento e tensões entre as duas comunidades linguísticas; um flamengo é capaz de ter mais que ver com um holandês do que com um valão. Apesar de o primeiro e o último terem o mesmo passaporte.

É por isto mesmo que a nacionalidade vale o que vale, e que tanto pode ser muito como rigorosamente nada. Da mesma forma, e precisamente por ser relativa, não deve servir de medida para nada. Tal como a raça, o género ou qualquer outra coisa aleatória e fora do controlo da pessoa.

...

E depois deste filosofar profundo vou dar às pernas para não ser só o cérebro a cansar-se.  




S.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Been there, done that

Depois de três semanas em Portugal, o regresso atribulado a Bruxelas (que implicou uma recusa de embarque, uma noite extra em solo português, coração nas mãos na segunda tentativa de embarque e uma mala que não veio) já acabou e já estou novamente instalada na capital belga e com todos os meus pertences devolvidos.

Sinceramente, os aeroportos andam pouco imaginativos no que respeita os meus regressos atribulados, já que tudo o que se passou desta vez foi quase um déjà vu de há um ano e meio. De maneiras que foi com algum enfado que passei por tudo isto outra vez. Quando o senhor da segurança, em Lisboa, se dirige a mim  e me impede de recolher a mala do raio X porque "A senhora tem aí uma latinha na sua mala..." - era de chá, what else - ainda me entusiasmei um bocadinho e pensei "Eh lá! Sou suspeita". Mas ele nem quis que eu abrisse a mala para confirmar o que era, de maneiras que aquilo acabou tudo muito rápido.

Enquanto o homem não chega tenho andado entretida a tornar a casa habitável, incluindo reabastecimento do stock alimentar, a voltar à rotina de ginásio - que não tinha chegado a tornar-se rotina - e a tratar de burocracias necessárias a uma permanência mais permanente aqui na Bélgica. 

Amanhã é o meu primeiro dia de trabalho e tornar-me-ei formalmente uma emigra. De momento, estudo o mapa de transportes de Bruxelas para descobrir o caminho mais curto para o escritório, que infelizmente é demasiado comprido para ser percorrido a pé. O ginásio cá está para a substituição.



o universo conspira para que eu ame cada vez mais aeroportos


S.  

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Por falar em emigrantes e agosto...

Acabei por vir passar parte do meu a Portugal.

Não sou pessoa saudosista - tampouco do meu país natal - mas após conseguir a segurança de emprego a partir da rentrée, agosto transformou-se realmente em férias. Com Oostende riscado da lista de possíveis destinos balneares, e com todos os outros sítios soalheiros a mais de 300 euros de distância, Portugal tornou-se o destino óbvio: sol e família, mata-se dois coelhos de uma cajadada.

Cinco meses é tempo demasiado escasso para sentir saudades de qualquer sítio daqui. Mas é bom rever a família, ter sol certo, banhar no mar algarvio, pisar areia, abraçar o meu cão. Vista daqui, Bruxelas parece um sonho longínquo; as impressões destes cinco últimos meses parecem mesmo desvanecer-se em fragmentos. Estranho, isto da memória.

Nunca estive mais de seis meses sem regressar à base. Não sei se é saudável, emigração assim. Parece que uma pessoa fica com a vida dividida, ainda que queira assentar definitivamente no país que a acolheu (como é o caso). Mas a pouca distância e a facilidade de transporte de hoje em dia torna impensável estar quatro, cinco, dez, vinte anos sem pisar solo natal. O que não decidi se é uma coisa boa ou má.

Os ingleses tem uma boa expressão para este tipo de emigração: não se chamam e/imigrantes, mas sim expats. O que é uma palavra fina que substitui a conotação negativa que às vezes está associada aos imigrantes. Expat é aquele que está temporariamente noutro país, vive e trabalha lá, mas quase por acaso, nunca por necessidade, não, isso é coisa de e/imigrante, que horror. Mas expat é uma palavra que, sendo dissecada, não quer dizer nada. Ou está mal empregue, semanticamente, no que é empregue. Expat é uma pessoa expatriada, renegada pela sua pátria, que não é de lado nenhum. Será que quem se considera expat tem a consciente noção do pesado significado da palavra?

Eu não faço ideia por onde o meu futuro vai passar. Já tive a mania que sabia, e dei-me mal com o que o destino tinha reservado para mim. Deixei de ter essa presunção. Sei, no médio-prazo, onde vou estar, mas não por quanto tempo. É facto que, com um emprego para cada um, a certeza de ficarmos na Bélgica mais definitivamente é maior, e já nos aventurámos a ter coisas impensáveis há um ou dois meses, tão simples mas tão longo-prazo como uma ligação à internet com contrato de um ano. Ainda assim, deslocações ao Ikea é coisa que não nos passa pela cabeça, e qualquer pensamento de decoração é demasiado risível e duradouro para ser levado a cabo. A casa continua temporária, e, sinceramente, não sei reconhecer o clique que dirá irrevocavelmente: "Esta será a nossa casa". Como quem diz, "para sempre". 

Abrigo o não tão secreto desejo de voltar a Inglaterra como residente, um dia, quem sabe, que eu não. Mas por enquanto estamos noutra. Relembro sempre a resposta que as pessoas do Portugueses pelo Mundo dão no fim de cada programa, quando inquiridas sobre a intenção de voltar a Portugal: "por enquanto não; er, um dia, talvez, quem sabe; mas por enquanto não tenho esse desejo nem essa intenção". É um bocado isso, é.





S.   

terça-feira, 26 de junho de 2012

As agruras de quem procura 1º emprego

Gostava de saber - porque nunca alcancei o brilhantismo da ideia - por que se cansam as empresas a enviar cartas para casa a dizer que NÃO ficámos com determinado emprego.

A sério.

"Ah, e tal, porque é simpático e cheio de consideração." Não é... Não é. É a mesma coisa que oferecerem-nos uma prenda, uma pessoa desembrulhar cheia de expectativa, e lá dentro estar um papel a dizer "Afinal não há prenda, não". Mandem a porcaria de um e-mail. A consideração é a mesma e de caminho poupa-se a vida a uma árvore.

Já não é a primeira vez, daí que desta não me tenham apanhado desprevenida. Mas é sempre um momento estúpido, aquele em que se fica a olhar para um papel "cheio de consideração" mas no qual constam as palavras "we regret to inform you that..." que os meus olhos já procuram instintivamente.

Por isso, senhores empregadores, se é para mandar barra, mandem por e-mail. Custa menos, tanto a (não-)empregado como a empregador.

Minha cara hoje, sem tirar nem por.


S.


P.S. Pai e mãe, esta não é a outra. Dessa não vão ficar a saber pelo blog, seja que resposta for.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Karma strikes back - Parte 283756

Mais cedo eu admitisse que os policy jobs na UE já não me dizem muito, mais cedo me aparecia uma oportunidade para ingressar num.

"Just to shake things up a bit", pensou o meu karma. Deve achar que a vida a que ele preside anda demasiado aborrecida, ou assim.

-.-'





S.

terça-feira, 13 de março de 2012

Emigra de curta duração

Outra data que podia ir para a cronologia: 13 março 2012, primeiro e-mail enviado a anúncio de emprego em Bruxelas.

Aguentei 13 dias, nada mau. Hoje, ao conhecer o presente de amigas que acabaram agora o estágio no PE e ao visionar nele o meu próprio futuro, entrei em pânico e fui atualizar o currículo e escrever a carta de apresentação modelo. Foi com o peito um bocadinho apertado que premi o botão "Enviar".

5 meses é demasiado pouco. É demasiado pouco tempo para poder sentar no escritório de passe de "Stagiaire" ao peito e suspirar de alívio. E, desta vez, gostava mesmo muito de não me sentir obrigada a voltar a Portugal.





S.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

domingo, 13 de novembro de 2011

Verde verdinho

Acabei de emitir o meu primeiro recibo verde. Não sei se hei-de pular de alegria ("Yey, primeiro dinheirinho desde setembro de 2010!") ou se hei-de suspirar de conformidade ("Bem-vinda à precaridade laboral da tua geração, S.").

Acho que me fico pela primeira, para não cair no desespero e lamúria geral.


S.

sábado, 29 de outubro de 2011

Riscar da lista

- ONU
- Comissão Europeia
- Parlamento Europeu



Ai mãezinha do céu.


S.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Consultorias, oh consultorias!

A minha maior ambição é trabalhar na Comissão Europeia. Uma ambição nada modesta, mas desde quando é que um sonho tem que ser modesto? Aliás, deve-se sonhar alto, para darmos o melhor de nós e não só o esforço mediano. Aim high, devia ser o lema de toda a gente. Claro que as ambições não se atingem num piscar de olhos, é preciso ir avançando passo a passo, sem nunca desistir.

Uma das disciplinas que escolhi este semestre (Lobbying and policy-making in the EU) não me tinha convencido totalmente. Lobbies, interesses a tentar influenciar a formulação de leis sempre me pareceu ser muito duvidoso, ter uma conotação negativa. Isso foi até ter começado a estudar esta disciplina.

Segundo consta, a Comissão tem pouco pessoal para lidar com as suas funções (fazer leis para 500 milhões de cidadãos). Portanto, precisa da informação detalhada e especializada que grandes grupos de interesse lhe podem fornecer para poder formular as leis como deve ser. E como é que esses grupos adquirem essa informação tão preciosa? Recrutam os serviços de investigadores. Segundo consta, há tanta gente a tentar influenciar o trabalho da Comissão Europeia como pessoas a trabalhar lá dentro.   

Ora, onde é que eu quero chegar... Existem inúmeras empresas cuja função é 'vender' os projetos encomendados por interesses de grupo, que por sua vez os vão fornecer à Comissão. Essas empresas, as consultorias, empregam investigadores, especializados na União Europeia e noutros assuntos mais específicos (ambiente, energia, transportes, saúde, etc.) para levarem a cabo esses projectos. O que significa que encontrei uma potencial carreira :)

É algo que me vejo definitivamente a fazer durante longos anos. Basicamente é uma extensão do mestrado, já que envolve apenas (apenas!) pesquisa e investigação. Seria como fazer teses mas com alguém a pagar-me para isso. É perfeito. O meu carácter encaixa perfeitamente nesse tipo de trabalho: meticulosa, perfecionista, adoro trabalhar sozinha durante longos períodos de tempo, serena e extremamente autónoma. E o que é melhor, estas empresas são absurdamente receptivas a candidatos! Normalmente as instituições não gostam de receber currículos especulativos, algumas colocam isso bem explícito no seu site, 'Só aceitamos candidaturas para vagas abertas'. Ora, as consultorias que já pesquisei enfatizam que os currículos de todos os candidatos que se interessarem por trabalhar para elas são bem-vindos. !!!

Por isso arranjei nova ocupação: pesquisar entre a extensiva lista de consultorias que trabalham com a UE (a UE fez o favor de colocar essa lista no seu site EuroActiv. Já alguma vez mencionei quanto a adoro?) e enviar o meu currículo, mais a aborrecida mas fundamental carta de apresentação (cover letter).

Desta vez não vou escrever uma única cover letter e enviá-la para todas as vagas a que quero concorrer, mudando apenas algumas coisitas. Nop. Vou escrever uma carta personalizada para cada consultoria, para exprimir o meu entusiasmo em trabalhar para a mesma e para que tenha a certeza que dei o meu máximo em cada candidatura.

Figas, please :)  ! 




P.S. - Esta foto provavelmente dá a impressão errada. A minha ambição é a Comissão sim, mas não ser Comissária. O trabalho de bastidores é muito mais a minha 'praia' ;)

S.