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terça-feira, 20 de janeiro de 2015

Esta rapariga consegue

Não sei se já viram o vídeo promocional, acho esta campanha espetacular.


This Girl Can é uma campanha que tenta promover o desporto, o exercício físico, o 'mexer-se' para todas as mulheres.
 
Isto parece um bocado aborrecido e mais do mesmo mas a parte fixe aqui é que a campanha quer que isto do mexer-se seja mesmo para todas as mulheres, mulheres cheínhas, mulheres sequinhas, mulheres com celulite, mulheres com carnes a abanar, mulheres com ossos espetados, mulheres que são boas num desporto, mulheres que não são boas mas que gostam de um desporto, mulheres que querem experimentar um desporto, mulheres que querem fazer exercício sozinhas, mulheres que querem fazer exercício em grupo. 
 
O importante, e o que esta campanha celebra, é o ultrapassar a barreira do julgamento de terceiros. E numa sociedade em que as mulheres são avaliadas constantemente e crucialmente pela aparência, e pela relação podre que isto nos leva a desenvolver com o nosso corpo, isto do julgamento de terceiros é mesmo fundamental na decisão de mexer ou não mexer.
 
Um exemplo pertinho de casa: levei bastante tempo a passar do correr no ginásio para o correr na rua, e tenho a certeza de que se não fosse num contexto em que já estava desenraizada de qualquer das formas e em que ninguém me conhecia (Bruxelas), nunca o teria feito. As apitadelas em Portugal confirmam este medo do julgamento: ainda não é muito comum ver uma rapariga a correr sozinha pela beira da estrada fora.
 
Parece-me que tudo o que tente convencer as mulheres de que mexer-se pelo prazer de se mexer, e não como um castigo pela fatia de bolo de chocolate que se comeu no dia anterior, ainda é pouco. Suar é espetacular e combina com o feminino, sim senhora. Nós mulheres também somos animais, sabiam? E temos um corpo que faz coisas incríveis para além de equilíbrio em saltos de 10 cm.
 
 
 
 
S.

segunda-feira, 3 de março de 2014

A máscara de atleta

"E tu, S., de que te mascaraste ontem, domingo de Carnaval?"

Ora, eu vesti a minha máscara de corredora e lá fui eu por esses caminhos bruxelenses afora, armada em atleta.

Agora a sério. Se há coisa que eu agradeço por viver em Bruxelas é não ter que levar com o Carnaval aí pelas ruas, gente mascarada, apitos, música sambaesca e afins característicos da época. Nem preciso de saber que é Carnaval, posso deslizar por esta festividade numa inconsciência abençoada que muito agradeço.

Mas vesti-me de corredora, sim senhora. Foi o meu último record de distância antes da meia-maratona em Lisboa, a corrida da ponte, como a gosto de pensar, que é já daqui a duas semanas. Foram 17.85 km (eu ainda não me dignei a arranjar uma coisa para medir caminhos. Calculo-os antes de sair para correr e confirmo quando volto, no site muito catita do Mapmyride. Aqueles 150 m deixaram-me um bocadinho piursa na altura de confirmar o que tinha mesmo corrido).

Estes praticamente-18-km significam praticamente-2-horas a correr e eu ainda não sei o que sinto realmente em relação a isto.

A corrida entrou na minha vida como um vendaval e eu tenho com ela a relação mais estranha que já tive com qualquer outra coisa. E não faço ideia onde ela vai culminar. Já fiz as pazes com o facto de ter sido uma batata de sofá durante tanto tempo, de odiar as aulas de educação física, de odiar desporto, de ter tentado tantas vezes incorporar exercício na minha vida e continuar a odiá-lo, e de agora ter metido na cabeça que ia correr uma meia-maratona porque sim. Já não me interessa que não me conheça, e agora a surpresa deste compromisso virou confiança absoluta de que se eu consigo fazer uma coisa tão fora da minha (antiga) zona de conforto, então consigo fazer qualquer coisa que possa imaginar. Pior (ou melhor, vá): o meu corpo consegue fazer coisas incríveis. E eu não fazia ideia. E precisamente por causa disto ganhei-lhe um respeito imensurável, tenho por ele uma admiração e carinho tão grandes que só me apetece é continuar a correr mais longe, a correr mais rápido para continuar a puxar-lhe os limites, a fazê-lo feliz, a cumprir-lhe o destino biológico para o qual ele foi feito, animal que é.

Isto parece um bocadinho esquizofrénico, falar do meu corpo na terceira pessoa, até porque é mais como a gralha disse há pouco tempo: a minha relação com o meu corpo mudou desde que eu percebi que o meu corpo sou eu, não é um trambolho que arrasto de má vontade, e que portanto fazê-lo feliz, metendo-o a mexer e recompensando-o, só me fará a mim feliz.

E eu digo que a corrida é a relação mais estranha que eu já tive com alguma coisa porque eu não sou só feliz a correr. Aliás, eu raramente sou feliz a correr. Geralmente sou derrotista, às vezes sou aborrecida, tantas vezes penso "o que é que estás a FAZER?! vai para casa, JÁ!", muitas vezes aperto as luvas que levo na mão com tanta força que quase sinto as unhas a cravarem-se na palma, já me deu vontade de chorar com o esforço. Mas há mesmo muito poucas coisas tão boas nesta vida como o primeiro passo que dou na rua antes de começar um treino quando me sinto leve, leve, leve, ou receber olhares esbugalhados de pessoas encasacadas por ver uma menina de sorriso maníaco a correr de t-shirt quando estão pouco mais de zero graus, ou a vista da minha porta, já mesmo ali, 17 km depois e quase a chorar de alegria. E acordar nervosa antes dos treinos de maior distância, ao fim-de-semana porque sei que vem aí luta física e, muito provavelmente, quase duas horas que custam a passar. Nervosa! Como se fosse algo que não dependesse de mim absolutamente só, algo que só a mim me dissesse respeito, para o qual não tenho absolutamente nenhuma amarra.

Já tive dias que não me apetecia ir, manhãs que prolonguei na cama até quase ao limite da tarde porque já sabia o que me esperava assim que me levantasse. Já lamuriei ser dia de ir correr e temi que o meu entusiasmo com a corrida estivesse a desvanecer-se, como é tão normal com estas paixões explosivas mas efémeras. Houve dias em que me respeitei a mim própria, quando a vontade era tão negativa, e não fui, ficou para o dia seguinte.

Porque isto foi o que eu descobri e que me surpreendeu ainda mais do que se a paixão se tivesse desvanecido: eu acabo sempre por ir. E eu não sei explicar porquê nem o que me impele. A saúde não é, a perda de peso muito menos, a competição ainda menos. Diz que é a adrenalina. Talvez. Confissão um bocado envergonhada: às vezes dou por mim a vir do trabalho a pé e apetecer-me desatar a correr pela rua, qual cavalo galopante, só porque sinto falta da corrida e porque aquelas ruas são-me familiares do treino. É uma vontade um bocado desconcertante, de tão animalesca.

Uma rapariga que eu mal conhecia mas com quem falei entusiasticamente durante meia hora sobre isto das corridas, e que já tinha corrido quatro maratonas só no ano passado (!!!) disse-me assim: se tu queres correr uma maratona, fá-lo. Mas fá-lo por ti própria, aliás, tens que querer fazê-lo apenas por ti própria porque mais ninguém vai querer saber. Ninguém vai querer saber da distância que tu correste, do tempo que demoraste, nem do que te custou. Por isso só podes fazê-lo por ti.

E eu acho que é exatamente por isto que eu acabo por ir. Porque ninguém me obriga, nem eu tenho um compromisso com ninguém. Tem que ver única e exclusivamente com o que eu sinto, e com o que sei que sentirei assim que terminar a prova/treino.

É também por estas palavras sábias da minha mal-conhecida das maratonas que eu termino o post. Já chega, e ninguém quer saber. ;)




S.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Feliz Ano Novo

A silly season está mesmo, mesmo a acabar - e ainda bem porque já estou farta da expressão silly season. Porque eu ainda não consegui descolar da mentalidade de ano letivo, e setembro deixa-me um ano mais velha e por isso é mês de rito de passagem, e eu este ano estou cheia de pica e vontade de fazer coisas, aqui fica a minha lista de desejos para o Ano Letivo Novo até ao Ano Novo:

- É mesmo desta que vou recomeçar a minha aprendizagem do alemão. Vou voltar aos cartõezinhos com palavras para decorar os géneros, vou voltar às tabelas com as declinações, vou voltar aos livros com histórias Disney em alemão. Não quero saber que vivo numa cidade bilingue mas em que nenhuma das línguas oficiais é a germânica, não quero saber que ainda teria muito francês para aperfeiçoar e que ainda não consigo manter uma conversa de jeito na língua dos gauleses, nem quero saber que aqui vou ter que ir através da língua francesa para chegar à alemã. Desejos recorrentes e que duram anos ganham pontos pela persistência e merecem ser elevados à categoria de concretizados. E o francês, sinceramente, não me dá pica. Longe de dominada mas demasiado familiar. E posso sempre consolar-me com o facto de que o alemão - descobri-o há pouco - é a terceira língua oficial da Bélgica.

- Em dezembro vou correr nove quilómetros numa hora. Em termos humanos, nada de especial, mas como diz o outro, o que interessa não é ser superior aos outros, é ser superior ao que já fomos. E eu já fui uma pessoa que corria cinco minutos e ficava com o peito a rebentar (não estou a dramatizar). Conseguir a hora redondinha vai-me deixar orgulhosa porque, ao contrário de estudos e coiso, sempre foi uma coisa que eu acreditei nunca conseguir. Suspeito que me vai deixar mais orgulhosa do que o dia em que eu conseguir ler um livro em alemão pela primeira vez (mesmo que seja uma história Disney).

- Antes de 2013 acabar, terei a minha candidatura a doutoramento completa. E fora do meu controlo. Mais um passarinho que enviarei por essa janela à espera que me traga um raminho de oliveira no bico.

- Terei acabado de ler o European Feminisms 1700-1950. (Irra, que a porcaria do livro não me larga!)

- Terei acabado o meu primeiro curso da Coursera. Após três tentativas falhadas. 

- Terei aprendido a gostar de mais um legume cru. Após o básico tomate e alface. 

- Terei visitado Bruges. Após 30287 tentativas falhadas.

- Conseguirei acompanhar um episódio de uma série qualquer dobrada em francês sem fazer cara de nojo.

...

Só espero não me tornar uma ilustração da expressão "ter mais olhos que barriga".




Apareceu-me esta imagem enquanto pesquisava imagens para wishlists. A relação entre os dois está para lá da minha compreensão mas quem sou eu para negar o destino.




S.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Gym motivation: Unlocked

Vou a caminho dos seis meses seguidos inscrita num ginásio e a frequentá-lo pelo menos duas vezes por semana, o que é um verdadeiro feito considerando o meu historial de sedentarismo/preguiça. O facto de ele ficar perto de casa ajuda mas não explica o fenómeno na sua totalidade. Mas há um aparelhozinho que contribui com o resto da explicação e que mantém oleada a mola que me faz saltar do sofá ou da cama para ir passar cerca de uma hora a mexer as pernas:




É isso mesmo. O Kobo volta a figurar no meu top de adorações. Desta vez, em forma de motivador de exercício. Mas a história toda tem que ser conhecida porque envolve uma boa dose de hipocrisia.

Tinha já reprarado várias vezes nas pessoas que levavam para o ginásio livros e que passavam muito tempo numas bicicletas que parecem poltronas e cujo esforço para movimentar sempre me pareceu extremamente pouco. O meu reflexo do julgar-antes-de-analisar vinha à tona sempre que eu via alguém absorvido na leitura, recostado na sua poltrona-bicicleta e dava-me para pensar com desdém: "Pff, ler e fazer exercício nunca podem combinar. Ou se está concentrado numa coisa ou na outra, impossível fazer as duas bem". E lá continuava eu a pedalar/dar à perna com redobrada energia, como que a provar a mim mesma que não, eu é que estava a fazer aquilo acertadamente.

Entretanto, e como toda a gente que já frequentou um ginásio sabe, aquilo começa a embrutecer a mente. Ou seja, o esforço físico começa a não ser tão penoso quanto o aborrecimento que é estar a ver os minutos a passar lentamente e uma pessoa acaba por se fartar rapidamente. Os programas de TV nunca foram excecionalmente apelativos (tirando o facto de que ali era a única vez que eu conseguia apanhar telejornais belgas e ainda cheguei a ver uma ou outra reportagem interessante sobre as eleições comunais) e cheguei a levar música minha para ver se animava aquilo mas sem grande sucesso. Até que houve um dia em que, contra o meu melhor juízo, fui experimentar as bicicletas-poltronas e... adorei. Que maravilha recostar para trás e só dar à pata! (quero acreditar que foi porque estava especialmente cansada nesse dia). Só que aquilo ainda é menos animado que o resto dos aparelhos e portanto comecei a pensar que fixe, fixe, seria ter qualquer coisa que me distraísse do cronómetro, que ajudasse o tempo a passar mais rápido. Alguma coisa do tipo, um livro... talvez?

E foi assim que o Kobo me passou a acompanhar nas sessões de ginásio. Melhor ideia não podia ter tido! Da primeira vez que o levei sentei-me nas bicicletas-poltronas e fiz meia-hora sem reparar. Meia-hora não é nada de espetacular naquelas máquinas da preguiça, mas o que me surpreendeu foi a rapidez com que essa meia-hora passou. Isto porque o Kobo e as máquinas daquele ginásio (talvez de todos, não sei) têm um casamento muito feliz: as máquinas têm uma espécie de prateleira pequenina no mostrador, onde eu coloco o Kobo, e o Kobo tem a altura e a largura suficiente para tapar o cronómetro mas para deixar a barra circular livre, que me dá uma ideia da percentagem de tempo que já cumpri. Um livro seria sempre muito mais trapalhão, já que é mais grosso que a prateleirinha, e as páginas normalmente não se sustêm sem as estarmos a agarrar. E além de me ajudar a passar o tempo no exercício, ali está uma hora sem distrações que devoto à leitura, o que às vezes é complicado em casa devido à supra-distração que dá pelo nome de internet.

É por isso mais uma ode que aqui deixo aos leitores de livros eletrónicos, vulgos e-readers, ode essa muito merecida. Mais uma boa razão para considerar deixar de parte os calhamaços de papel e abraçar a tecnologia. Que no fundo só vem facilitar a vida (é para isso que ela serve, afinal).




S.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fez-se luz na minha vida sedentária

Engraçado como o corpo humano se vicia em exercício. 

Há nove meses, eu era a pessoa mais sedentária que conhecia e afirmava terminantemente que exercício físico não estava entre as minhas prioridades. Estava empenhada em mil e uma coisas mas o mexer-me para além do trajeto casa-paragem de autocarro/trabalho-paragem de autocarro era mentira. 

E nunca pensei que seria Bruxelas que me iria mudar. A capital belga não é particularmente plana nem de avenidas largas, não é dominada por bicicletas (ainda...) e portanto não havia razão para ser diferente de Lisboa. Mas a verdade é que fui sendo seduzida aos pouquinhos pela conveniência que é andar de um lado para o outro. Literalmente, andar de um lado para o outro.

O medo de que com a troca de local de trabalho eu ficasse sem a minha caminhada diária de uma hora fez-me inscrever imediatamente no ginásio. Mas os transportes demasiado indiretos e o hábito de caminhar que estava mais entranhado do que eu alguma vez acreditei ser possível fizeram com que as pernas se mexessem quase de seu acordo em direção a casa. Daí à bicicleta foi um pulinho. E o ginásio, para minha enorme surpresa, continuou local frequente de passagem, e o ritual do exercício+banho+caminhar-para-casa-a-pé-desempenada-e-a-levar-com-o-ar-fresco-do-fim-da-tarde, tornou-se revigorante.

Mais: recentemente cheguei à conclusão que já não consigo andar de transportes. Maça-me profundamente. É o autocarro que para nos sinais vermelhos, nas paragens, no trânsito e eu que começo a bufar, tentando calcular mentalmente onde é que eu já podia estar se tivesse escolhido ir a pé. Ou, melhor ainda, de bicicleta. É o desconforto e o stress de ter tanta pessoa à minha volta num espaço pequeno e fechado, o cheiro, o ar abafado dos metros e saturado de tantas respirações. 

A bicicleta provou-me que não estou em forma. Qualquer inclinaçãozinha se reflete na minha respiração e no esforço que as pernas fazem, e não consigo fazer todo o caminho para o trabalho montada no selim. Mas o mais entusiasmante é ir notando, pouco a pouco mas cada dia, que consigo um bocadinho melhor. E saber que um dia vou conseguir (hoje, no caminho para casa, foi a primeira vez que o fiz sentada na bicicleta todo o trajeto, apesar de ter parado numa subida para recuperar o fôlego).

Mas agora outro elemento se juntou à equação: a chuva. É verdade que o que não faltou durante os cinco meses de caminhadas foi chuva. Mas uma pessoa abre o chapéu, encolhe-se debaixo dele e vai caminhando até casa. Agora, de bicicleta torna-se um problema. E a razão é óbvia: não posso ter chapéu aberto enquanto conduzo a bicicleta (se bem que hoje vi um ciclista a fazer isso... Receio não ter a destreza para tal). Isto a juntar à deslocação do ar e à chuva a bater na cara, facilmente se vê que a bicicleta se torna o transporte menos ideal. 

E, sabendo o que já sei sobre o clima bruxelense, chuva é coisa com que contar todos os dias. Ou quase.

É por isso que agora ando de olho numa coisa destas:



Tirando o facto que fico a parecer um dementor, é uma coisinha extremamente útil. Sendo que uma pessoa vai sentada na bicicleta e que eu tenho metro e meio, aquilo acaba por cobrir as pernas também. Serei toda eu uma bola impermeável. Uma bola azul, amarela ou vermelha, ainda não decidi.

Quero muito continuar esta vaga de meximento múltiplo. Ginásio, caminhar, bicicleta. Agora só faltava começar a gostar de legumes e ser alérgica a chocolate e tornava-me um modelo de vida saudável :D



S.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Been there, done that

Depois de três semanas em Portugal, o regresso atribulado a Bruxelas (que implicou uma recusa de embarque, uma noite extra em solo português, coração nas mãos na segunda tentativa de embarque e uma mala que não veio) já acabou e já estou novamente instalada na capital belga e com todos os meus pertences devolvidos.

Sinceramente, os aeroportos andam pouco imaginativos no que respeita os meus regressos atribulados, já que tudo o que se passou desta vez foi quase um déjà vu de há um ano e meio. De maneiras que foi com algum enfado que passei por tudo isto outra vez. Quando o senhor da segurança, em Lisboa, se dirige a mim  e me impede de recolher a mala do raio X porque "A senhora tem aí uma latinha na sua mala..." - era de chá, what else - ainda me entusiasmei um bocadinho e pensei "Eh lá! Sou suspeita". Mas ele nem quis que eu abrisse a mala para confirmar o que era, de maneiras que aquilo acabou tudo muito rápido.

Enquanto o homem não chega tenho andado entretida a tornar a casa habitável, incluindo reabastecimento do stock alimentar, a voltar à rotina de ginásio - que não tinha chegado a tornar-se rotina - e a tratar de burocracias necessárias a uma permanência mais permanente aqui na Bélgica. 

Amanhã é o meu primeiro dia de trabalho e tornar-me-ei formalmente uma emigra. De momento, estudo o mapa de transportes de Bruxelas para descobrir o caminho mais curto para o escritório, que infelizmente é demasiado comprido para ser percorrido a pé. O ginásio cá está para a substituição.



o universo conspira para que eu ame cada vez mais aeroportos


S.  

terça-feira, 31 de julho de 2012

Meu interregno mês de agosto

É surpreendente o quão bem me adaptei à rotina nova que será a minha pelo menos durante o mês de agosto. 

Desconfio que o grande responsável tem sido o ginásio, que me dá um propósito para me levantar, sair de casa, e de ter metas a alcançar. Com os Jogos Olímpicos a passar nas múltiplas televisões de lá, é fácil uma pessoa ser encorajada a pedalar mais um minuto, ou a mexer-se com mais vigor na elíptica. Ainda no outro dia estava eu a caminhar na passadeira quando começa aquele desporto das cambalhotas e pinos e mortais no tapete. Eu olhava fascinada o que o corpo humano consegue fazer, a força com que os braços daqueles atletas os sustentavam de cabeça para baixo e tal só me deu mais vontade de acelerar o passo e melhorar a minha própria resistência.

Fico contente por me aperceber que a minha forma física está razoável, e que faço com menos esforço o que fazia da última vez que frequentei um ginásio (há quanto tempo foi isto, senhores!). Sei que devo isto às caminhadas diárias de quatro quilómetros entre trabalho e casa que fiz durante estes últimos cinco meses, e portanto posso dizer com convicção que funcionou a minha estratégia de poupança financeira em passes + exercício gratuito.

Mais uma vez dou graças por morar a 300 metros do ginásio, 100 de dois supermercados (o que significa que tenho baguettes frescas todas as manhãs), a um quilómetro do Lidl, a 100 metros de uma lavandaria, a 700 de uma zona de lojas e a 600 de uns correios. O que se torna bastante conveniente porque agora, sem a desculpa do emprego, tenho de tomar a minha parte do trabalho doméstico que eu tanto adoro. Se bem que, quando uma pessoa tem todo o tempo do mundo, ele até nem é tão mau.  

Continuo entretida a editar a revista online que tantas dores de cabeça quantos sentimentos de dever cumprido já me deu (Next Europe, que um bocadinho de publicidade nunca fez mal a ninguém), a entrevistar o pessoal empreendedor (idem) e a candidatar com força para vagas de emprego, enquanto penso no que quero fazer da vida a curto-prazo (ahem, doutoramento?). Nada disto é pago, mas note-se que eu pertenço à geração dos escravos bem-qualificados, portanto até aqui nada de extraordinário.

Estou a encarar o mês de agosto como um mês de férias - ao invés de desemprego, que é o que ele é na verdade (sem bem que, pode-se ser desempregado sem nunca ter tido um emprego a sério?) - e a permitir-me saboreá-lo, ainda que seja um agosto sem sol e sem temperaturas acima dos 20 graus nem migrações soalheiras à vista. Pode bem ser o último mês completo de férias que gozo em 40 anos. Por isso o melhor mesmo é aproveitá-lo.




S.