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segunda-feira, 27 de maio de 2013

Há sempre o outro lado da moeda

Nunca pensei vir a dizer isto mas, tenho poucos transportes na minha vida. A sério. Isto de ter o trabalho perto de casa é muito bonito mas uma pessoa fica sem tempo para pensar na vida. E só percebi isto quando viajei da última vez. Levava o livro do momento do estudo, como uma menina bonita, mas não lhe li nem uma linha, apesar de ter gastado várias horas em avião e em comboio. Mas não as posso gastar a ler! Foi o que eu percebi. São-me mais úteis para pensar na vida.

E o que eu gosto de pensar na vida!... Não há nada melhor do que longos commutings para pensar na vida. Tenho minhas maiores epifanias e tomo as melhores decisões de mudança de vida em viagens longas (e quando estou mesmo a adormecer, também). Só que ultimamente é só bicicleta e caminhar, bicicleta e caminhar. Às vezes lá pego o metro ou o tram mas é sempre por menos de 10 minutos, nunca dá tempo de refletir. Na bicicleta vai-se concentrada no esforço, na adrenalina, nos carros (convém), no caminho. A andar também tem que se ir com alguma atenção - se bem que já dá para pensar um bocadinho na vida. Mas dou por mim e já cheguei a casa. No meio de coisitas que se inventa sempre para fazer, internet, livros, etc acaba-se o attention span para pensar na vida.

Isto para dizer que nunca, nunca, nunca o ser humano consegue achar uma situação perfeita e sentir-se plenamente satisfeito. Mete um bocado de raiva.







S.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A marcha dos pinguins revisitada

Gosto mesmo muito quando as minhas teorias coincidem com as teorias de outrém. 

O post de ontem de um dos blogs que visito regularmente falava disto: "Como caminhar no gelo", e a exemplificar tinha uma imagem de um pinguim. 





Rebolei a rir. Há um mês falava eu da "Marcha dos pinguins", e de como tinha aprendido através da tentativa-erro a caminhar pelos passeios cobertos de neve. Não sabia era que a comparação com o pinguim era tão certeira.



S.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Passatempo favorito: Brussels-bashing

Após acordar estremunhada, olhar pela janela e ver inesperadamente os passeios cobertos de neve, apeteceu-me mandar as bicicletas e as caminhadas à merd@ e dirigi-me ao tram que me levaria ao metro que me levaria ao outro metro que me levaria ao trabalho. Estou sem paciência para ter frio nos olhos e pés congelados.

Mas o metro bruxelense acha por bem ter a regularidade de  dez-em-dez-minutos em plena hora de ponta e portanto foi a resmungar entredentes que esperei por ele na estação apinhada. Os dez minutos passados e a luta para entrar na carruagem que é customeira. Nunca ninguém ensinou os bruxelenses que primeiro se deixa as pessoas sair dos comboios e só depois se entra, assim como nunca ninguém os ensinou que numa escada rolante, quem está parado encosta-se à direita. Oh, ordem londrina.

Na estação o metro esvai-se em pessoas, uma corrente de indivíduos que não acaba e o motorista sente que já está ali há tempo demais e portanto toca a fechar as portas no meio da corrente humana. O sistema mecânico destes metros de há cinquenta anos atrás dita que estes não tenham sistema de deteção de coisas entre as portas e é preciso muitos pares de mãos a segurar as portas para que ninguém fique entalado. Desisto de entrar no comboio do demo e fito as portas de olhos arregalados, incrédula com a estupidez que se acabou de passar ali.

As portas acabam por se fechar, menos uma. Após várias tentativas, vejo o motorista a sair da sala das máquinas, a mandar dois pontapés na porta e a regressar com ar de enfado ao seu posto. O comboio arranca pouco depois.

Após mais dez minutos de espera na estação onde faço o transbordo, a mais nojenta e incrivelmente desfeita do metropolitano bruxelense, de certo, só rivalizando com a de Schuman que tem a desculpa de estar em obras (há dois anos). Na dita cuja, subo os seis ou sete lanços de degraus de pedra por polir/acabar, maldizendo Bruxelas por não ter consideração nenhuma por pessoas idosas, deficientes ou simplesmente que ali apanham o autocarro direto para o aeroporto, e portanto têm que alombar com 20 kg às costas e é se querem. Saio para a rua e está a cair aquela chuva miudinha que não é chuva nem é neve, está frio, e eu estou quinze minutos atrasada. Tivesse caminhado, chegava a tempo, tivesse pedalado, teria chegado 10-15 minutos antes.

No dia em que tiver que abandonar esta cidade, não vou sentir um pingo de tristeza.






S.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Tempo belga: 2 D.S.: 0

Meu querido chapéu azul das doze estrelas amarelas:

Vivemos um ano muito feliz, eu e tu. Acompanhaste-me sempre na mala, todos os dias, a fornecer-me a força e confiança necessária para caminhar debaixo de chuva interminável. Foste-me oferecido com muito carinho e no auge da minha paixão por todas as coisas união-europeanas. Ao início até andava cheia de tristeza por o inverno lisboeta de 2011-2012 ter sido tão seco e nunca me dar oportunidade de te usar. Por isso foi com muita alegria que vim viver para o paraíso do aguaceiro. 

A tua flexibilidade sempre me maravilhou. Cabías na minha mala mais pequena mas não eras como os outros chapéus desdobráveis; não senhora. Eras resistente, abanavas muito essas varetas mas nunca nenhuma se partia e, entretanto, eu também aprendi a jogar ao chapéu-de-chuva-e-vento.  Afastaste água, neve e granizo, incluindo aquele temporal de pedras de gelo que nunca mais vou esquecer e que até deu ao céu uma cor meio roxa, muito assustador. Nunca mais fechaste muito bem, mas isso estou em crer que se devia à tua felicidade em me proteger da chuva, mais do que ao teu historial de lutas contra a ventania bruxelense e contra a precipitação do demo. Foste um fiel companheiro nas viagens deste ano louco, e mais do que uma vez voltei atrás para te salvar de um esquecimento que quase era completo.

Mas ontem a ventania foi forte demais. Nem o melhor do chapéus rijos aguentaria aquilo, e tu eras melhor que muitos desses. Eras o melhor dos chapéus. Sei que parei no meio do passeio  porque o vento nos impediu de progredir e agarrei-me com força a ti, na esperança que fosses também o mais bravo dos chapéus e te aguentasses, mas depressa descobri que era em vão. Saltou-te uma vareta, saltou-te duas, e eu pensei "Olha, já foi", enquanto continuava de pé fincado e a fazer força para não ser arrastada para o meio da estrada. Ainda te tentei abrir, como se nada fosse, mas tinhas a asa partida. Tentei concertar-te, mas estava para lá de arranjo. Despedi-me de ti.

Foste um bom chapéu. Só quero que o teu sucessor tenha metade da tua força e aguente metade do que tu aguentaste. Conseguindo-o, já será um grande chapéu.

Um adeus do fundo do meu coração partido,

S. 






P.S. - Isto foi para eu não me armar em esperta a gozar com a queda do Napoleão. Ninguém goza com o tempo belga e sai impune.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Fez-se luz na minha vida sedentária

Engraçado como o corpo humano se vicia em exercício. 

Há nove meses, eu era a pessoa mais sedentária que conhecia e afirmava terminantemente que exercício físico não estava entre as minhas prioridades. Estava empenhada em mil e uma coisas mas o mexer-me para além do trajeto casa-paragem de autocarro/trabalho-paragem de autocarro era mentira. 

E nunca pensei que seria Bruxelas que me iria mudar. A capital belga não é particularmente plana nem de avenidas largas, não é dominada por bicicletas (ainda...) e portanto não havia razão para ser diferente de Lisboa. Mas a verdade é que fui sendo seduzida aos pouquinhos pela conveniência que é andar de um lado para o outro. Literalmente, andar de um lado para o outro.

O medo de que com a troca de local de trabalho eu ficasse sem a minha caminhada diária de uma hora fez-me inscrever imediatamente no ginásio. Mas os transportes demasiado indiretos e o hábito de caminhar que estava mais entranhado do que eu alguma vez acreditei ser possível fizeram com que as pernas se mexessem quase de seu acordo em direção a casa. Daí à bicicleta foi um pulinho. E o ginásio, para minha enorme surpresa, continuou local frequente de passagem, e o ritual do exercício+banho+caminhar-para-casa-a-pé-desempenada-e-a-levar-com-o-ar-fresco-do-fim-da-tarde, tornou-se revigorante.

Mais: recentemente cheguei à conclusão que já não consigo andar de transportes. Maça-me profundamente. É o autocarro que para nos sinais vermelhos, nas paragens, no trânsito e eu que começo a bufar, tentando calcular mentalmente onde é que eu já podia estar se tivesse escolhido ir a pé. Ou, melhor ainda, de bicicleta. É o desconforto e o stress de ter tanta pessoa à minha volta num espaço pequeno e fechado, o cheiro, o ar abafado dos metros e saturado de tantas respirações. 

A bicicleta provou-me que não estou em forma. Qualquer inclinaçãozinha se reflete na minha respiração e no esforço que as pernas fazem, e não consigo fazer todo o caminho para o trabalho montada no selim. Mas o mais entusiasmante é ir notando, pouco a pouco mas cada dia, que consigo um bocadinho melhor. E saber que um dia vou conseguir (hoje, no caminho para casa, foi a primeira vez que o fiz sentada na bicicleta todo o trajeto, apesar de ter parado numa subida para recuperar o fôlego).

Mas agora outro elemento se juntou à equação: a chuva. É verdade que o que não faltou durante os cinco meses de caminhadas foi chuva. Mas uma pessoa abre o chapéu, encolhe-se debaixo dele e vai caminhando até casa. Agora, de bicicleta torna-se um problema. E a razão é óbvia: não posso ter chapéu aberto enquanto conduzo a bicicleta (se bem que hoje vi um ciclista a fazer isso... Receio não ter a destreza para tal). Isto a juntar à deslocação do ar e à chuva a bater na cara, facilmente se vê que a bicicleta se torna o transporte menos ideal. 

E, sabendo o que já sei sobre o clima bruxelense, chuva é coisa com que contar todos os dias. Ou quase.

É por isso que agora ando de olho numa coisa destas:



Tirando o facto que fico a parecer um dementor, é uma coisinha extremamente útil. Sendo que uma pessoa vai sentada na bicicleta e que eu tenho metro e meio, aquilo acaba por cobrir as pernas também. Serei toda eu uma bola impermeável. Uma bola azul, amarela ou vermelha, ainda não decidi.

Quero muito continuar esta vaga de meximento múltiplo. Ginásio, caminhar, bicicleta. Agora só faltava começar a gostar de legumes e ser alérgica a chocolate e tornava-me um modelo de vida saudável :D



S.

domingo, 16 de setembro de 2012

Bruxelas sem carros

Hoje foi o Domingo Sem Carros aqui em Bruxelas. Um dia espantoso de sol e calor fez com que milhares de pessoas saíssem às ruas e tornassem a cidade em algo que eu ainda nunca tinha visto.


À hora do almoço, quando vinha do ginásio, reparei que a praça do Châtelain estava transformada num mercado de coisas em segunda mão. Fui a casa devorar o comerzinho e voltei ali para dar a atenção merecida às bancas de roupa, livros, sapatos, brinquedos, acessórios para a casa e etc.


Nem às quartas-feiras, dia de mercado de legumes e frutas, eu havia alguma vez visto tanta gente! Ainda trouxe algumas peças para casa, a preços de chorar por mais.

Resolvi depois deambular mais um bocado pela cidade para experimentá-la sem o barulho infernal do trânsito e sem a preocupação da segurança rodoviária. Sabia que no centro havia vários eventos e portanto lá fui eu até à Grand Place.

Entretanto fiquei sem bateria na máquina fotográfica, de maneira que as próximas fotos são roubadas ao Google. Mas fazem jus ao que vi hoje.


Aqui, no Mont des Arts, uma das vistas mais bonitas sobre a cidade, completamente livre de carros (o que vem lá atrás é um táxi. Hoje os transportes públicos não foram impedidos de circular, e os táxis idem)



A praça em frente ao Palácio Real



Piqueniques em frente à Bolsa



Uma das avenidas mais movimentadas da cidade, frente ao Parc Cinquantenaire, completamente irreconhecível



De notar que a quantidade de ciclistas na rua foi brutal, e Bruxelas fez-me lembrar Amesterdão. E tal como em Amesterdão, há cagaços com bicicletas que fazem travagens bruscas mesmo em cima de nós ou que se desviam no último centímetro. Mas pronto, faz parte, e mais vale levar com uma bicicleta desgovernada do que com um carro...

Para casa vim um pedaço de bicicleta, para completar a minha experiência do Domingo Sem Carros. 

É realmente pena ser apenas um dia por ano. A cidade ganha um ar completamente diferente - literalmente - e as pessoas ganham uma qualidade de vida incomparável. Só o facto de não se ouvir motores de carros é mindblowing... E o mais estranho foi que eu apenas reparei que não se ouvia nenhum carro quando, de vez em quando, passava algum autocarro. Aí é que eu pensava para mim "Realmente, está aqui um silêncio esquisito..." Bem-vinda ao futuro! (esperemos que ele se pareça com isto)



S.