A blogosfera anda mortiça e este blog não é exceção. Aborrece-me cada vez mais a monotonia das opiniões expressadas, o elevar de pequenas embirrações de dia-a-dia a problemas de primeiro mundo, irrita-me a impaciência dos blogueiros para com as idiossincrasias dos outros, os posts pespinetas, os posts pseudo-humorísticos, a banalidade destas partilhas. E este blog não é exceção.
Tenho cada vez menos paciência para escrever sobre feminismo, e suspeito que isto tenha pouco a ver com o facto de estar a fazer uma investigação sobre ele. Sinto que estou sempre a bater na mesma tecla, que o que tenho para dizer é óbvio, básico, que já toda a gente sabe isto, para quê repeti-lo. Que as mulheres ainda são discriminadas por serem mulheres deveria ser óbvio, a parcialidade do status quo deveria ser mais que evidente a qualquer pessoa minimamente inteligente, a objetificação e hipersexualização das mulheres deveria ser um fenómeno que é mais que óbvio (e consequências nefastas também, já agora), a necessidade de uma lei que criminalize a importunação sexual uma coisa que já cá devia estar há mais que tempo, a justeza de sistemas de quotas uma evidência, que existe violência contra mulheres por estas serem mulheres (ou seja, que deriva dos papéis atribuídos a elas e respetiva 'correção' quando estes não são respeitados) idem. Mas depois leio coisas, oiço coisas e vejo discussões que ainda estão presas ao significado de palavras, que o feminismo não se devia chamar feminismo, que igualdade é que é, que humanismo é que é, e que há homens que também são, e chego à conclusão que o que parece óbvio não é óbvio, não senhora, e o senso comum não é tão comum quanto isso. O problema é que adotei uma posição de aprendizagem exclusiva, que é como quem diz: eu educo-me, os outros que se lixem. Prefiro perder tempo a ler coisas do que a debatê-las, que não devo explicações a ninguém e quem se quiser educar há muito material à solta, é só pesquisar. E isto é um bocado triste.
O que também é um bocado triste é eu ter passado de correr 60-70 km semanais a 5-7 (com sorte). Toda eu apanhei um trauma tão grande à intensidade e sacrifício das últimas semanas de treinos para a maratona que o meu corpo agora é fisicamente avesso à ideia de programar uma corridinha que seja. A mente, essa, esgotou-se-lhe toda a força de vontade no ato de calçar os ténis nessas últimas semanas. Para a última coisa que está virada é para instigar o corpo num 'vá, vamos lá correr 10k!' Não há objetivos à vista, e assim será até voltar a ficar entusiasmada com alguma prova e ansiar preparar-me para ela. É só um bocado triste e não inteiramente porque não fazem ideia do bom que é saber que não tenho que acordar às 6h da manhã de domingo para ir rolar 3h no asfalto (se calhar até fazem, eu agora é que passei para o lado dos normais outra vez). Ou acordar e pensar 'argh, logo à noite tenho que ir correr antes de poder vestir o pijama e refastelar no sofá'. A única maneira de sair para uma corrida é agora: a) com companhia, ou b) acabar o trabalho do dia e pensar para mim mesma, como quem não quer a coisa: 'e se fosse agora correr um bocadinho?' e ir, logo, logo. A palavra tabu é PLANEAMENTO. O equilíbrio - que demorou umas boas semanas - já está restabelecido mas o bichinho não voltou a picar. E por enquanto estamos muito bem assim.
Entretanto já escrevi (leia-se: rascunhei) cerca de um terço da minha tese e ainda não perdi a vontade de viver. Pensava que era isso que os doutoramentos faziam. Gosto muito do meu projeto, mas às vezes gostava de ter escolhido alguma coisa que fosse mudar o mundo. Mas também tudo o que está abaixo de curar o cancro parecer-me-ia sempre poucochinho, por isso sei melhor do que ir por aí. Penso tantas vezes 'mas que merda fui fazer?!' quando me ocorre que me despedi para voltar a estudar, e tornei-me mais perita em evitar pensar na minha vida para lá de setembro de 2017 do que em evitar a praga. Estou mais relaxada no que toca a planear coisas a curto-prazo. A palavra tabu é PLANEAMENTO.
Num gesto de altruísmo auto-servidor, participo desde o início como cobaia numa investigação sobre o percurso de mulheres doutorandas em universidades de Sheffield e as entrevistas anuais com a investigadora são uma catarse tão poderosíssima que acho que eu lhe devia pagar. Melhor que terapia.
Foi tão difícil acostumar-me a ter uma vida diferente das pessoas normais, que trabalham em empregos normais das 9 às 17, que saem de casa para ir para o escritório e voltam para casa à noite, que estive à beira de arrancar cabelos. Nunca pensei que a normalidade fosse tão importante para mim, ou que estivesse tão enraizada cá dentro que quando não a executo se alojasse um sentimento de culpa e de inadequação que não é abalado por mais que o tente demover racionalmente: 'Estás no bom caminho, vê só a lista dos artigos todos que já reviste, vê só o que já escreveste! Se não estás convencida por ti mesma, ouve a validação externa, a publicação em vista, as call for papers garantidas com sucesso. O teu supervisor diz que está tudo a andar sobre rodas, que está contente com o teu progresso! O calendário de tarefas está a ser cumprido. Que mais precisas para te assegurares de que estás a trabalhar, que o teu esforço diário é válido?' Hardwired. Eu estou hardwired para equacionar emprego com sucesso pessoal, e isto é tão neo-liberal, tão capitalista e tão poucochinho que se me revolvem as entranhas. Mas está ao nível do subconsciente, que posso fazer.
(Re)comecei a gostar de roupas bonitas. E gosto tanto de batons. Eu nunca tive paciência/jeito/vontade para maquilhagem, mas agora gosto tanto de batons. Não sei o que me deu, mas vou com a corrente. Isto vai e vem, sei melhor do que dramatizar estas obsessões repentinas. Os seres humanos são criaturas de contradições maravilhosas.
No outro dia o meu dentista de há 15 anos - que não via há uns 5 - nas perguntas de circunstância perguntou se havia namorado. 'Sim, é o mesmo.', 'O mesmo? Que tédio.' Oh meu bom homem, com tanta mudança de vida, de casa, de país, de rede social, de a-fazeres, de hobbies, que felicidade, que alívio, que segurança, que sanidade mental, que constância é ter o mesmo homem - o meu melhor amigo - sempre ao meu lado.
S.






