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sexta-feira, 15 de maio de 2015

O feminismo a custar-me dinheiro, oh

Gostava de saber porque é que um casal com apelidos diferentes tem que pagar o dobro do que um casal com o mesmo apelido para redirecionar o correio para o estrangeiro.

Ou se paga à cabeça ou se paga ao agregado familiar. Independentemente do apelido, são sempre dois destinatários que eles terão que despachar de maneira diferente. Para quê a diferenciação?



S.


P.S. E enfiem  mas é as 500 libras onde vos aprouver, com esse dinheiro venho eu a Sheffield 5 vezes por ano - que pensando bem devem ser as vezes que tenho que cá vir de qualquer das formas - e recolho o correio eu mesma.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

A Velocidade e a Distância entram num bar e dizem à Altimetria: ...

- "... ah, e tal, a ver se estás quieta!"

A minha mania é que 13 km aqui são iguais a 13 km em Bruxelas. Não são. Especialmente se também vou com considerações de tempo.
 
Pois o que voltou a acontecer? Voltei a ficar manca.
 
Nos primeiros meses de corrida, por esta altura há um ano, andava só feliz que conseguia aguentar cada vez mais quilómetros a correr. Era um percurso plano, planíssimo, a minha volta pela Avenue Louise e mais tarde pelo bairro de Etterbeek. Nunca me ralei com o tempo que demorava, só queria não parar de correr durante N-km. Veio a meia-maratona, veio a lesão, veio a paragem. Veio a viagem de bicicleta, manteve-se a paragem.

Há 3 meses quando recomecei novamente a correr decidi que só a distância já não metia pica, queria ser mais rápida. Como disse há 9 meses, queria voltar a correr os 21 km, mas desta vez em bom.
 
O problema foi que mudar-me para Sheffield dos Picos mudou as condições desta equação. Não só ando a aumentar a carga de quilometragem, como a carga da velocidade, como a carga da altimetria. E o meu corpo não aguenta isto tudo ao mesmo tempo. Vou repetir isto novamente para ver se me convenço a mim própria: NÃO. AGUENTA. TUDO. AO MESMO. TEMPO. 
 
"A semana passada corri 10, esta quero correr 11 ou 12", é sempre a minha lógica. Mas mantendo a velocidade, se possível melhorando. E metendo-me por caminhos desconhecidos que envolvem sempre subidas longas e íngremes como um raio, e descidas semelhantes (o que também é muito amigo das lesões). Ignorar sempre os treinos em que é suposto correr a uma velocidade e distância moderadas porque, oh, se já fiz esses km e tempo antes, o que é que vou estar a treinar, então? Boooring.
 
Nunca dou tempo nem espaço ao meu corpo para se habituar às três novas coisas, mantendo-as as três constantes uma vez ou outra. E o que acontece? A perna do costume a acender-se com as lesões do costume, tipo árvore de natal: canela, PLIM!, joelho, PLIM!, anca, PLIM!. E lá fica a corrida suspensa por uns tempos.
 
A medida não pode ser só o fôlego, a mecânica da coisa ainda é mais frágil e importante. Tenho que ser mais esperta do que isto, e aprender deu uma vez por todas que a paciência é uma virtude. E dar um bocadinho mais respeito ao meu corpo do que isto. Ele merece. E ele chega lá, eu sei.
 




S.

sexta-feira, 16 de maio de 2014

Cortar raízes mais uma vez

Andei durante tantos meses a lidar com o dia de hoje e o dia de ontem e o dia de anteontem e o dia de amanhã, escrevi tantas vezes 15 May, 16 May, 14 May, 17 May em tantas listas de participantes, tantos convites, tantas atualizações de programas de trabalho, tantos emails que agora estes dias parecem-me surreais. Olhar de relance o relógio e ver "16 May" lá escrito é bizarro. É isto, é agora.
 
E depois destes dias surreais começa a contagem decrescente para o mergulho no desconhecido. Já olho Bruxelas com friozinho no estômago.



S.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Dores de crescimento

Dei-me agora conta de que faz hoje dois anos que chegámos à Bélgica.

O que são dois anos numa vida? Nada. 

Continuo a sentir-me tão criança quanto quando aqui cheguei. Continuo com a leve sensação de que não faço ideia do que estou a fazer, nem do que devo fazer, e, às vezes, nem do que gostava de fazer. Sei, tão claro como a água (mas não a que sai das torneiras bruxelenses) que daqui a quatro meses vou-me embora daqui sem saber se estou a fazer a coisa certa. E o pior: provavelmente nunca vou saber. E isto é horrível. Eu cresci convencida de que os adultos sabiam sempre o que estavam a fazer e o que deviam fazer. Esta liberdade e múltiplas opções de escolha é humanizante mas paradoxalmente claustrofóbica. Nunca vamos saber se tomámos a decisão certa e haverá sempre tantas pessoas a enveredar por caminhos diferentes que nos farão questionar o nosso. É o ter que fazer uma escolha e viver com o "e se" de todas as outras que recusámos. Suficiente para uma pessoa dar em doida.

Haverá sempre alguém a fazer o mesmo que tu, melhor do que tu.

A única frase que me regula as perspetivas e acalma as ânsias, embora eu não consiga explicar porquê. A perspetiva de que há sempre alguém melhor do que nós só deveria era potenciar essas ânsias. Estranhamente, acalma-me a necessidade de querer ser melhor, de querer mais, de saber mais e de estar agudamente consciente de que sou a única responsável nisto tudo. Do ser melhor. É capaz de ser na lógica do "perdido por cem, perdido por mil", do fuck all para isto tudo.

Espero é entretanto não ter ficado a gostar da Bélgica afinal.






S.



quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Meu rico federalismo europeu

Apercebi-me agora de que em 2014 vou lidar com finanças de três países diferentes.







Até se me gelou o sangue.


S.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Motins, viagens-sonho e leões

Acho que o meu corpo - e, desta vez, o meu espírito por arrasto - ficou traumatizado com os 15k de domingo. Não foi assim tão mau, acho eu, mas se calhar só afirmando em retrospetiva. Isto porque eu estive a tentar convencer-me, ao corpo e ao espírito, (já somos três, não sei quem é este terceiro, talvez a consciência), até hoje, que tínhamos que nos fazer à estrada novamente. Foi a semana toda nisto:




A consciência lá acabou por ganhar, depois de ter mandado um murro na mesa e exclamado: "Mas qu'ésta merda, afinal quem é que manda aqui?! E tu 'tás-te a preparar para uma meia-maratona ou não, minha menina?? Olha que já só faltam 6 semanas, aquilo vai ser para acabar ou para fazer figura triste e desistir? Calça-me esses ténis e vam'embora, vá!"

Corri pouco mais que uns míseros 6 km porque percebi que as minhas pernas não estavam para ali viradas.



Ainda tiveram o desplante de me mandar este sorriso cínico do "eu bem te avisei". Estúpidas.

Sou agora uma pessoa muito infeliz depois de ter constatado que são as minhas pernas a parte fraca disto tudo. Muito infeliz. Às vezes correm três quilómetros sempre a chorar, canelas a parecer que se abrem, enquanto pulmões e coração olham atónitos, para aquela mariquice toda, e confusos pela dificuldade que estão a presenciar mas que não sentem. Quem é que percebe que às vezes corram 15 km e outras mal 6 aguentem? Bipolaridade física, ou caraças.

Ora, o que acontece então é que tenho que esperar impacientemente que o esforço acumulado se vá embora das patas antes de voltar a fazer-me à estrada, mas sem saber exatamente quanto tempo posso esperar sem que comece a perder resistência. É um equilíbrio tão delicado que me põe nervosa, às portas da prova dos 21.

Anseio que passe a Meia-Maratona e a Corrida dos Sinos para poder voltar a correr sem pressões durante os treinos de quilómetros a conquistar. Apetece-me voltar a correr na minha zona de conforto, durante um tempinho, para depois me começar a concentrar na velocidade em vez de na distância. Porque a chatice com as distâncias é a longa duração do passeio e o auto-entretermo-nos enquanto vamos em esforço. Costuma ser esse o papel da música mas começo a ficar farta da minha playlist e um álbum de Arctic Monkeys já não chega para os passeios mais longos. E estava a começar a estragar as músicas por associá-las ao esforço, muito ao jeito do cãozinho do Pavlov. De maneiras que hoje parti sem phones nos ouvidos, pela primeira vez. Não me aborreci. Mas foi pouco mais de meia-hora...

Um dia destes vou a Waterloo. É a minha viagem-corrida de sonho. Fica a 14 km da minha casa e desde que cheguei à Bélgica que lá quero ir, mesmo, mesmo muito. Palmilhar o caminho a patas deve elevar a experiência ao quadrado. Terei que me embrenhar na Fôret de Soignes para lá chegar, já que a estrada até lá não tem sempre passeio (sim, já andei a stalkar o caminho no Street View. À séria. É o quanto quero ir lá). Nunca corri pelo meio de florestas daí que estes 14 km ganhem outra dimensão dantesca. A parte do vir para cá é que é pior... Se me inspirar no Napoleão não consigo. Haha.

Vou lá dar um beijinho ao leão e volto.


Hahaha, ou então não. Escalar uma rampa daquelas após arrastar-me durante hora e meia?? Não me parece. Mando cá de baixo.



S.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Egocêntrica, much?

Ontem tomei duas decisões, com potencial de mudança de vida, que me fizeram constatar que eu não me conheço. Ou não me conheço, ou estou a evoluir* para outra coisa qualquer mais depressa do que o meu ego consegue desvendar.

- Inscrevi-me na Meia-Maratona de Lisboa. Vou em março a Portugal, de propósito correr uma prova que insisti durante uma hora, ainda há dias, nunca me meter. Em retrospetiva, após os últimos meses de treinos continuados nem sei bem em nome de quê, faz todo o sentido. Do ponto de vista de quem eu sou (era? sempre fui?), juro que não faz. Não foi preciso a Gralha me espicaçar muito para ficar com o bichinho desta prova, depressa anui. O que revela, mais uma vez, que eu não me conheço.

- Recusei uma perspetiva profissional em Londres. Ainda não acredito. Não acredito é no alívio que senti após o decidir, sabendo, aqui algures mas que não era só na cabeça, que tomei a decisão correta. Afinal tenho instinto ou coisa que o valha... (Mentira, a lista dos prós e contras também esteve presente e foi o teste final. Se bem que o alerta veio das entranhas.) Eu amo Londres, eu fui lá tão feliz, eu cheguei a sentir-lhe mais a falta, tantas vezes, do que a pátria materna, e recusei conscientemente, livremente e aliviadamente me mudar para lá, trocando esta cidade pela qual não tenho carinho especial pela minha amada Londres. 

Desculpem-me os clichés mas isto é aquilo do rio não passar duas vezes pelo mesmo sítio? Ou do outro que dizia que o difícil não é ir atrás dos nossos sonhos, é saber e ter a coragem de largá-los quando já não são os nossos sonhos? 

É por estas e por outras que eu tenho um medo terrível de ter filhos. Não é pelas mudanças do corpo, não é pelos vómitos, não é pelos horrores do parto, não é pela alteração do ritmo de vida, não é por ter que cuidar de outro ser humano, não é pelas manhãs a dormir até ao almoço que se acabam, não é pelo aperto financeiro, não é pelo We Need To Talk About Kevin, não é pelo fim do tempo e espaço pessoais, não é pela adolescência da prole, não é pelo mudar de fraldas, não é pela incerteza do futuro. É simplesmente porque o meu eu de hoje não sabe que eu vai encontrar do outro lado da maternidade. E eu ainda tenho tanta coisa que quero concretizar neste estado mental do presente.






S. 

*Atenção que quando digo evoluir não é como sinónimo de progresso, é mais no sentido de como os Pokémons evoluíam: chegavam a determinada altura, após não sei quantas batalhas e skills adquiridos tinham a possibilidade de evoluir para uma criatura diferente. Mas quantas vezes o estádio anterior não era bem mais poderoso...

domingo, 6 de outubro de 2013

A pity party da corrida que não foi

Os grandes e ansiados planos que tinha de correr a minha primeira prova hoje resumiram-se a fazer zapping entre a Maratona de Lisboa e a Great Scottish Run na televisão, refastelada no sofá, enquanto bezuntava os tornozelos com anti-inflamatório e resmungava entre dentes "Para o ano estou ali, cará, para o ano são 15 ou 20, moderfocas dos pézinhos de princesa, acham que isto foi esforço, vão ver o que é esforço, é só deixarem de fazer 'criiiic' que vão ver o que é bom."

Já oscilei entre orgulho por ter uma lesão desportiva, já que nunca na vida tinha esforçado o meu corpo o suficiente para estar sequer perto de uma, passei à irritação pela estupidez que foi ter achado que os velhos ténis serviam para correr na rua, até à frustração que foi ver o dia da prova chegar e os tornozelos sem melhora. Neste momento estou na fase do lamber as feridas e biding my time






S.     

sábado, 14 de setembro de 2013

Amoramoramoramor

Ao fim de oito anos de namoro, descobres que é mesmo, mesmo, mesmo, mesmo amor quando dás por ti a parar o estudo da tua (amada) IG para ir espreitar regularmente o resultado do (odiado) Benfica vs P. Ferreira e informar o parceiro regularmente por sms. 

Há um dito que é:



Eu acabei de inventar outro: "Se uma feminista parar a leitura de um artigo muito interessante sobre representação dos direitos das mulheres para te enviar uma sms com o resultado de um jogo de futebol de um clube rival, casa com ela!"



S.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Karma strikes back - Parte 283756

Mais cedo eu admitisse que os policy jobs na UE já não me dizem muito, mais cedo me aparecia uma oportunidade para ingressar num.

"Just to shake things up a bit", pensou o meu karma. Deve achar que a vida a que ele preside anda demasiado aborrecida, ou assim.

-.-'





S.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O futuro é um lugar estranho

Por cada post de observações, de aleatoriedades, de constatações mais leves, há sempre um mais sério que guardo para mim. As dúvidas existenciais são mil vezes mais profundas, provavelmente mais interessantes (para amigos e família, claro), são o triplo do tamanho, mas são infinitamente mais difíceis de escrever. Afinal, não é fácil ser eloquente quando nem nós próprios sabemos o que pensar.

Há um ano estava aqui, neste preciso ponto e com estas mesmas angústias de "o que fazer agora?". As semelhanças são tantas que parece que estou a viver um dejá vu. Estava a acabar uma coisa em que me tinha metido (antes mestrado; agora estágio), enviava currículos atrás de currículos sem obter resposta, encontrava-me num país que não era o meu e as intenções de ficar eram abaladas pela não perspetiva de sustento futuro. O regresso a Portugal estava lá, como plano Z que foi subindo as letras do alfabeto, devagar mas certo, até se tornar o plano A. Terá Bruxelas o mesmo desfecho que Londres? Um mantra repetia-se na minha cabeça "E agora? E agora? E agora?" - desta vez, porque ainda (ou só?) faltam três meses é um "E a seguir? E a seguir? E a seguir?".

Mas depois esforço-me por respirar fundo, largar a preocupação de uma coisa que está fora do meu controlo, e olho para trás. Não, não saltando este último ano para onde me encontrava no início de maio de 2011, mas para o que fiz desde aí e o que me trouxe aqui. O estágio na APAV, a minha primeira verdadeira experiência de trabalho, o estágio que me fez até ansiar por regressar a Portugal, no meio do desânimo que foi desistir do sonho londrino. O que vi e aprendi e o primeiro contacto prático com a UE. As pessoas inesquecíveis que conheci. Desconfio que esta experiência foi a grande responsável pelo sucesso da minha candidatura ao Parlamento Europeu, à realização do meu sonho de trabalhar nas instituições europeias, e se não fosse também por tudo o resto, só por isto a APAV teria a minha gratidão eterna. O projeto de base de dados dos deputados britânicos. O curso sobre o Tratado de Lisboa à noite, na Clássica, que me fez agradecer a todos os anjinhos o facto de ter entrado antes na Nova. Mas que ainda assim me foi muito positivo. As aulas de Inglês aos miúdos, xii... as aulas! O respeito monstro que ganhei por professores a tempo inteiro. O artigo académico que publiquei. Os artigos semanais para a Next Europe, que continuam.

É preciso que esta enumeração substitua o mantra do "E a seguir? E a seguir? E a seguir?" para que eu me lembre do que fiz num ano e no que posso voltar a fazer em mais um. Para acalmar o espírito controlador do destino e do "Para onde? Para onde? Para onde?" e assegurar-me de que, seja onde for que tenha de ir, lá chegarei. Daqui a um ano estarei noutro sítio qualquer a fazer algo que de certeza ainda não faço ideia do que será. Mas as peças irão encaixando, porque é mesmo assim a vida.

Avisaram-me que seria assim, este par de anos a seguir ao término dos estudos. Aliás, continuam a avisar. Entre todos nós, estagiários, vindos de percursos diferentes e de nacionalidades diferentes, uma coisa nos é comum: este não é o primeiro estágio. Para muitos de nós, não será sequer o último. Alguns andam nisto há muitos anos, (demasiados), outros ainda lhe estão a tomar o gosto (muito cedinho ainda). Para alguns, o peso dos sucessivos estágios já chegou ao limite, outros estão agora a começar a experimentar o aborrecimento da vida constantemente temporária. Posto assim em perspetiva, sei que não posso ainda descartar a hipótese de novos estágios nem exigir já um emprego permanente e remunerado. Mas a mesma pessoa que avisou que estes dois anos iriam ser assim também disse algo que eu memorizei e guardei para futuro uso: "You're worth a salary". Chegará o dia em que eu terei de dizer "basta", se não for o emprego a chegar primeiro.

Estas são as agrúras normais e esperadas de quem atingiu a maioridade laboral no meio de uma crise sem precedentes nos últimos 80 anos. Mas há uma dúvida insinuosa, mais incómoda e mais existencial, que torna a incerteza de trabalho futuro mais aguda. Ela prende-se com o desencanto de um sonho, um bocadinho à imagem do desencanto pela América mas não completamente... Porque este não é o desencanto pela UE em si, é antes o desencanto por um trabalho dentro da mesma. E custa admitir, oh, se custa! Persegui este objetivo durante anos, como não há-de custar confessar que talvez não seja bem isto que eu quero fazer?

Escrever isto aqui torna-o mais definitivo. Está cá fora, foi partilhado, não pode ser ignorado. Não é o encerramento do fascínio pela UE, de todo. Mas é o encerramento das ilusões sobre um policy job dentro da UE. Entretanto, a Europa mantém-se um objeto de fascínio para o estudo. E agora, o doutoramento, relegado para o segundo plano da minha mente, começa aos pulos efusivos porque até ele já percebeu, ainda que eu tenha demorado a admitir, que fará parte da minha vida a curto-prazo.

Porque o que me faz mesmo feliz, no que eu sei que sou mesmo boa e que se tem mantido uma constante na minha vida e especialmente neste último ano, é escrever. Debitar palavra no papel, traduzir, rever, editar. Partilhar, seja histórias, seja observações, seja notícias sobre a Europa, seja argumentos para defesa da igualdade de género, seja a construção de artigos sobre estudos de caso, devidamente apoiados por investigação científica. É o único meio em que me sinto à vontade para partilhar e o consigo fazer eficazmente (má, tão má no debate em falatório, credo). As experiências do último ano vieram certificar e selar a certeza do que eu acho que desde sempre soube. Tenho muito que aprender, pois claro que tenho. E muito curso avulso que tirar para sistematizar algo que apenas faço amadoramente. Mas é um percurso no qual me vejo a gostar realmente do que faço, diariamente.

Escrever, seja em forma de artigos seja em pesquisa académica, dar-me-ía outra coisa que eu tenho vindo a valorizar cada vez mais: a gestão autónoma do meu tempo. Os múltiplos projetos do último ano habituaram-me a tal. E, mais importante, fizeram-me ver que é possível. Era voluntária em dois projetos britânicos e nunca desde então pus o pé em solo londrino (graduation não conta). O escritório é irrelevante neste tipo de trabalhos, horário das 9h-17h, idem. 

Por isso, é com o coração um pouco mais leve desde o início deste post - blog catártico, é o que isto é - que eu confesso: o meu nome é S. e o meu futuro já não está nas instituições europeias diretamente, mas na escrita, jornalística e/ou académica. Assim, no máximo que me é possível antever, acho que serei feliz profissionalmente.






S.   

P.S. - E agora meter aqui no meio disto tudo os direitos das mulheres e a igualdade de género, coisa que me toca cada vez mais e me estimula o intelecto? Argh... Fica para outro dia, que neste pedaço de escrita esgotei as confissões todas para um mês!

sexta-feira, 20 de abril de 2012

David e Golias

Bruxelas é uma cidade difícil de nos cativar. Ainda não me apaixonei por ela e, tendo em conta que já lá vão dois meses, não sei se isso irá acontecer.

Porque o mundo é pequeno e as coincidências abundam na vida, acabei por partilhar o escritório com uma colega de curso da King's aqui no Parlamento. Gosto destas continuações, destas réstias de velhas vidas que permanecem connosco numa vida nova. É uma sensação reconfortante ter alguém que nos conhece de antes e que partilha connosco uma nova aventura, que nos ajuda a fazer comparações com o anterior e que nos serve um pouco como régua para medir o novo.

Claro que nas nossas conversas diárias abundam as comparações e as referências a Londres. Era inevitável. Já se tornou mesmo um cliché o nosso Brussels-bashing, um entusiasmo negativo pela nossa nova cidade adotiva.

Desde que deixei a cidade inglesa que eu sabia que para qualquer sítio onde eu me mudasse as comparações seriam inevitáveis. Com Lisboa fui branda e condescendente - pouco me poderia surpreender, afinal. Mas com Bruxelas eu sabia que iria ser implacável. E não falhei na previsão.

É difícil amar-se Bruxelas. A cidade é pequena. Não é particularmente atrativa ou bonita. Os seus sítios de interesse estão espalhados no espaço. O seu caráter particular ainda não o consegui descortinar. Semi-hiberna aos fins-de-semana. 

Tem coisas que admiro e das quais a possibilidade de viver no centro é a mais notória. Dá-me a possibilidade de me deslocar a pé para o trabalho, o supermercado, a lavandaria, as ruas comerciais principais e bares noturnos, coisa impossível em Londres. 

Mas esta pequenez geográfica acarreta com ela a escassez de coisas para ver, fazer, visitar. A artificialidade deste país, onde valões vivem lado a lado com flamengos sem necessidade de se entenderem uns aos outros, torna extremamente difícil sentir o caráter do povo belga e da sua capital.

Em compensação existem as instituições europeias, qual colmeia gigante em torno da qual zumbem diferentes vozes, linguagens, nacionalidades e espíritos. Aqui as expressões "multiculturalismo", "multilinguismo" e "diversidade" ganham uma conotação plena. E a palavra EUROPA também. Porque existe uma qualquer semelhança entre toda esta gente, há um fio condutor que (n)os liga a todos, que apesar de diversos partilham o mesmo núcleo e os mesmos valores básicos. Como uma família, vá.

Brussels-bashing não é algo limitado às minhas conversas com a M. Expandimos a novos conhecimentos, a pessoas que como nós estão aqui há pouco tempo e temporariamente. E porque as perguntas de circunstância "Estás a gostar de Bruxelas?" ou "O que é que estás a planear para o fim-de-semana?" são frequentes quebra-gelos, como é óbvio. 

Quem vive aqui há mais tempo, durante os nossos almoços de amigos na cantina, recomenda paciência. "Dá-lhe mais uns meses", dizem eles. "A cidade vai acabar por te conquistar." Eu torço o nariz e vejo a mesma reação espelhada na cara familiar à minha frente. Mas porque desconheço a minha vida para além de julho, continuo a dar o benefício da dúvida à cidade.







S.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Boo-hoo

Pensamento do dia:

"Constant whining characterises losers".

É que caracteriza mesmo. "Aaaai, nunca mais chega a 6a feira", "Aaaaai, a 2a feira chegou tão depressa", "Aaaai, esta chuva que não pára", "Aaaai, com este calor nem apetece trabalhar", "Aaaai, que nunca mais tenho férias", "Aaaai, que o trabalho está já aí à porta".

A sério, não há paciência nenhuma para queixumes constantes e rotineiros, previsíveis como o calendário. É infantil, demonstra fraqueza e incapacidade de controlar a própria vida. Quem está mal, mude-se; se não pode, que pare de chamar a atenção para a vida chatinha que tem.








Pelo menos que haja criatividade nas lamúrias.





S.