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sábado, 22 de novembro de 2014

Acabando com o sexismo no futebol, um passo de cada vez




Durante a semana passada vários patrons do clube demitiram-se após o clube ter deixado o ex-violador voltar a treinar, incluindo a campeã olímpica Jessica Ennis-Hill, que pediu para retirarem o nome dela de uma as bancadas do estádio do Sheffield United caso Ched Evans voltasse a integrar formalmente a equipa. Alguns patrocinadores ponderaram retirar o financiamento ao clube.






Chegaram a perguntar ao primeiro-ministro britânico o que é que ele pensava deste caso, durante a cimeira do G20 da semana passada na Austrália.






No final das contas, o clube não aguentou a pressão. Dizem eles no comunicado de ontem isso mesmo, que nunca pensaram que este assunto tomasse as proporções que tomou e que dividisse os adeptos de foma tão fervorosa. E que agora, o clube, muito contra a sua vontade e contra os seus princípios de justiça e igualdade de tratamento de profissões, volta atrás na sua decisão. Culpam a reação mob-like de um grande número de pessoas que esteve contra a integração de Evans de volta na equipa. (Ainda assim a única reação mob-like que veio a público veio de um dos apoiantes de Ched Evans que enviou uma ameaça de violação à campeã olímpica que quis que o seu nome deixasse de ser associado com o clube caso o clube reintegrasse o ex-violador. Enfim, pormenores.)






Entretanto a seleção de futebol feminina inglesa vai fazer história amanhã, ao jogar num estádio Wembley completamente esgotado contra a Alemanha. Prova de que há mercado para o futebol feminino, sim senhora, haja a vontade de o promover eficazmente.



Baby steps; baby steps.






















S.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Lição de ética

Era uma vez um jogador do Sheffield United chamado Ched Evans. Um dos melhores jogadores da sua geração, marcou muitos golos pelo clube, chegou a ser capitão da seleção do País de Gales, jovem promissor. Aqui há uns anos, foi condenado a 5 anos de prisão por violar uma rapariga e ter convidado os amigos para ver. Os 5 anos passaram a 2,5 e em outubro o jogador foi libertado. O clube nunca quebrou completamente o vínculo laboral (penso que chegou apenas a suspender o contrato com o jogador quando ele foi condenado) e portanto a dúvida para muita gente foi: vai o Sheffield United integrar um violador condenado na equipa? Pode? Deve?
 
Temos uma Associação de Jogadores Profissionais que diz que não só pode como deve. Foram eles que requereram que o clube aceitasse o jogador de volta aos treinos, o que acontecerá ainda esta semana. Há um mês, quando interrogado sobre se o Evans devia voltar a jogar profissionalmente, o representante desta respeitosa instituição deu uma resposta sarcástica do género "não sabia que as pessoas quando cumprem pena de prisão não podem voltar a fazer coisas". Mestre da sensibilidade, portanto.
 
Ele era jogador, foi condenado por um crime, cumpriu a sua pena, volta à sua vidinha. E isto parece-me certo. Uma pessoa não pode ficar irreparavelmente culpada por um erro que cometeu - e pelo qual pagou o preço que a lei estipula - o resto da sua vida. Há que lhe ser dada uma segunda chance, a oportunidade de se reabilitar para a vida em sociedade.
 
E aqui se calhar é que está o problema: ele não acha que fez nada de errado. Nunca pediu desculpa à vítima, continua a declarar-se inocente. Não há como ser reabilitado se não há admissão de culpa.
 
Entretanto o nome dele vai ser cantado todos os domingos, em estádios com milhares de pessoas. Vai ser o ídolo de muito rapaz, de muito adolescente cuja admiração pelo seu talento de chutar uma bola para dentro de uma baliza vai ser misturada com admiração pela pessoa que ele é, o Ched Evans. Ele destruiu a vida de uma rapariga, mas isso vai passar a ser visto apenas como um aborrecimento na vida talentosa deste jogador, no melhor dos cenários um erro que ele cometeu e pelo qual pagou e no pior dos cenários ela será relembrada como a má da fita porque lhe estragou a carreira, a carreira de um promissor jogador de futebol. Assim como acontece com todas as outras vítimas de violação e abuso sexual que estragam as carreiras de famosos apresentadores, políticos, atletas. Como se atrevem, realmente.
 
Pelos vistos, esta rapariga vítima de violação não lhe estragou rigorosamente nada. Suspendeu-lhe a carreira por três anos, coisa menos coisa, mas o lugar no clube estava cá à sua espera quando ele saísse. 
 
Uma petição tem circulado contra o regresso do ex-violador ao Sheffield United, assinada por mais de 150 000 pessoas. Há muita gente que acha que idolatrar homens que violam raparigas não é boa ideia. O clube ainda não se decidiu formalmente se o vai voltar a integrar oficialmente na equipa, mas a permissão para treinar esta semana deixa antever qual será a decisão. Os jornais dizem que a última palavra cabe aos presidentes do clube, dois sauditas, por isso, pronto, já sabemos que são as considerações éticas de anti-violência contra as mulheres que vão singrar sobre a vontade de fazer dinheiro.
 
 
 
 
 
S.
 
 
P.S. Já referi que a maior defensora e promotora da inocência do Ched Evans é nada mais nada menos do que a sua própria namorada? Namorada que já o era aquando do crime, portanto, e mesmo que acreditasse piamente na inocência do seu pombinho, tinha sido traída de uma das formas mais escabrosas que uma pessoa pode ser? Namorada que vem a público defender uma e outra vez que ele devia ser permitido voltar a integrar o Sheffield United e que ele é muito boa pessoa? Valha-nos todos os santinhos contra a perda de respeito próprio.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Primeiras na Europa



"Costa torna-se a primeira treinadora de um clube de futebol profissional na Europa."

Confesso que nunca tinha pensado neste glass-ceiling em particular. E é incrível como em 2014, em plena Europa, ainda há notícias com as palavras "a primeira mulher a ...". Não devia já estar tudo conquistado? 

Na notícia são mencionados alguns comentários a esta contratação deixados por fãs na página do clube. Fala-se do pouco respeito que ela conseguirá impor aos jogadores por ter apenas 36 anos. O Mourinho ganhou a Taça UEFA com o Porto aos 41, pelos vistos o critério idade pode ser irrelevante para o respeito. Resta saber se o sexo será.

Fala-se também de que tudo isto não passou de uma manobra de publicidade de um clube mediano tentar ganhar visibilidade. Claro. Porque toda a gente sabe que mulheres em lugares profissionais proeminentes fizeram qualquer marosca para lá chegar. Mérito é sempre a última coisa a ser-lhes atribuída.

Como todas as "primeira mulher a...", a Helena servirá de modelo para outras raparigas a ingressar numa carreira no mundo do futebol. Parece um cliché idealista mas a igualdade de oportunidades não se faz só com a ausência de uma lei que determina que só homens podem fazer determinada coisa. Se não houver nenhuma mulher a treinar um clube nenhuma rapariga chegará a considerar essa via como potencial carreira. É um ciclo vicioso. Duplos parabéns para as primeiras capazes de o quebrarem.




S.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Parabéns ao Luky (ou, como quem diz, neste blog não se fala de futebol)

...

Entretanto o Luky faz um aninho. Está grande, o bicho. Grande e lindão.

Que seja o primeiro de muita felicidade canina. E humana, também.





S.


Há dez minutos que não sei do D.. Temo que se esteja a tentar afogar no lavatório, ou assim. Já volto.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

A solidão é solitária

Já não sei estar sozinha. Acho que lhe perdi o jeito.

Em Londres eu sabia muito bem estar sozinha. O meu horário reduzido de aulas e o trabalho exigente do D. fizeram com que eu passasse muito tempo em casa, contente de volta das tarefas domésticas que eram minha obrigação pela primeira vez, a dar um pulinho à High Street, ir ao banco, ir ao supermercado, ir à Primark bater palminhas aos preços impossivelmente baratos. Palmilhar a cidade na companhia exclusiva de mim mesma. Ao final da tarde, ele chegava a casa, e o sentimento de lar instalava-se; as horas solitárias do dia eram agradáveis porque temporárias. E porque eu sempre gostei muito da minha companhia.

Em Portugal tinha o contrário, horário a rebentar pelas costuras, tempo passado a trabalhar em vários sítios diferentes com pessoas diferentes, sempre com companhia. À noite e aos fins-de-semana lá estávamos nós dois, e se não estávamos, a proximidade dos pais, avós e um Luky a dormir ao tapete nunca deixava espaço para solidões.

Aqui, tenho permanente companhia: no escritório com colegas, ao fim da tarde e fins-de-semana o D. 

Não admira pois que uma solidão, ainda que de poucos dias, me pareça estranha. À boa moda do Luky, eu aproximo-me dela, cheiro-a e torço o nariz por não a achar familiar. Ainda que tenha por ela uma espécie de amor-ódio. Enquanto caminhava para casa depois do trabalho (sim, estou-me a aguentar estoicamente neste meu novo hábito, quem diria...) ía enumerando entusiasmada todas as coisas que podia aproveitar para fazer em casa estando sozinha: aproveitar o silêncio para me embrenhar a fundo na leitura, ver episódios de Downton Abbey em modo contínuo, limpar a casa de alto abaixo, estudar muito muito muito para o exame que se aproxima...

Mas depois uma pessoa chega a casa e não está cá ninguém. Os estores estão corridos e a sala está na penumbra. Silêncio. Nenhum movimento fora o meu. Ninguém com quem dividir a baguete quentinha acabadinha de comprar.

Ainda por cima a cidade está meio deserta, já a hibernar para o fim-de-semana prolongado de Páscoa. A caminho para o trabalho quase não vislumbrei vivalma; as duas escolas por onde passo estão fechadas para férias. Menos gente na rua, no trabalho, menos carros. A minha colega de escritório doente e a minha supervisora de férias. Cidade e Parlamento a meio gás.

Ao que a tudo isto se soma a ansiedade a borbulhar cá dentro quando sei que ele está em viagem. A transitar de um lado para o outro. Eu juro que não era assim; não me lembro de momento em que ganhei esta paranóia estúpida e irracional de entes queridos em viagem. Sei que há cerca de dois anos, quando o D. embarcou para Londres uns meses antes de mim, eu passei o dia todo agitada. Estava no meu trabalho de verão e lembro-me perfeitamente de ter aberto um site daqueles que mostram o percurso dos aviões em direto e estar constantemente de olhos presos na figurinha minúscula do avião por cima do mapa imenso da Europa. Desta vez não deu porque a viagem foi de expresso. Ainda que a possibilidade de mandar mensagem de vez em quando tenha atenuado a paranóia.

Dei o desconto de na altura ser por causa da grande mudança, do lançamento um bocado às cegas que foi a ida dele para lá, a incerteza de se tudo iria correr bem. Mas ele depois veio (foi! não é veio... por mais mudanças o compasso geográfico nunca muda, caraças) a Portugal. E eu passei outro dia com o nervosismo a borbulhar no peito, daquele chato porque não dá para acalmar visto não ter razão lógica. Ainda pensei que tivesse que ver com aviões - tenho uma irritação e nó no estômago cada vez maior quando preciso de utilizá-los - mas hoje veio confirmar que não. Também se aplica a autocarros. Se bem que hoje foi misto de ansiedade com excitação a fazer as contas mentalmente tentando imaginar quando é que ele passaria o Túnel da Mancha. Parecia uma criança: "Já chegaste? Já chegaste? Já chegaste?" Quando me informou que já estava em solo londrino abri um sorriso do tamanho do mundo, de alívio misturado com alegria por tê-lo a ele em Londres - devo pensar que estas coisas se transferem por osmose...

Por isso concluo: estar sozinha num lado qualquer é aborrecido. Desamparador. Tenho muita mania de achar que amo a vida de emigrante, que me abre o espírito e me desperta os sentidos mudar de cidade e de país, mas a verdade é que eu não aguentava aqui sozinha uma semana. E que portanto a companhia, o apoio emocional nas banalidades do dia-a-dia, a partilha da descoberta de novos lugares e as duas escovas de dentes na casa de banho não são para ser tomados como garantidos ou trivializados; se não fossem eles sei perfeitamente que não estaria aqui.




S.

terça-feira, 3 de abril de 2012

O Oyster



Eu sabia. Eu sabia que mais tarde ou mais cedo íamos precisar deles, vindo viver para Bruxelas. Lembro-me perfeitamente de ter passado pelos cartões, dentro da fruteira onde sempre estiveram (que entre carregar Oysters, lápis, canetas, papel e até pauzinhos japoneses, de fruteira tinha pouco) e hesitar: "Meto-os na mala ou não? Afinal Londres fica a hora e meia de Bruxelas..." mas empinar o nariz e muito dramaticamente pensar "Não! Não os levas, Sara, tens de saber largar o passado!"

Eis que um mero mês depois lá vai ele à cidade inglesa. Vai ter de comprar um para se deslocar por lá e nós com quatro em Portugal, muito quietinhos lá na fruteira-que-não-é-fruteira. Porra para as decisões dramáticas tomadas em vez das práticas!


P.S. Parece que vai realizar um sonho. Ou juntar dois, não sei bem. Afinal um Chelsea-Benfica não é todos os dias. Eu, criaturatizinha mais desafetada por um futebol que move tantos milhões de almas, estaria entusiasmada era por atravessar o Canal da Mancha. Mas parece que agora trabalho ou que é, não vai dar.





S.