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quarta-feira, 16 de março de 2011

6 meses

Entretanto passei a marca dos 6 meses em Londres e não me dei conta.

O humor não tem sido dos melhores. A duas semanas do fim das aulas a ansiedade sobre o meu futuro aperta. Porque fica tudo em aberto. E porque o facto de não ter emprego irá tornar-se insustentável para mim nessa altura. Tenho horror à inação, à inutilidade, ao vazio. Porque já os experimentei e são o pior estado mental possível. Anseio a sentir-me prestável, a ver o meu trabalho reconhecido, a pôr em prática o potencial que sei possuir. E quero ganhar dinheiro. Não vou ser hipócrita e negá-lo. A lista dos e-mails enviados cresce sem correlação positiva com o número de convites para entrevista. Alguns dirão: 'Bem-vinda ao mundo dos crescidos, Sara.' E têm eles razão. 

Depois vem este pânico irracional de voltar para Portugal. Acelera-me o coração, deixa-me sem ar pensar em voltar à minha vida anterior e a tudo como era antes, como se nunca tivesse vivido noutro sítio, como se nunca tivesse explorado e amado esta cidade, como se ela não me tivesse enriquecido tanto, como se não tivesse sido FELIZ aqui. Voltar e continuar tudo na mesma. E de vez em quando ouvir 'Londres' no telejornal e o ar prender-se nos pulmões, fazer o caminho habitual até Lisboa de carro (seria inevitável) e pensar 'Eu vivi a pouco mais de 30 min de tudo o que alguma vez precisei para ter uma vida completa e nunca precisei de andar de carro'. 

Vida completa. Hmm. É aqui que o pânico degenera em dúvida. 'Vida completa é para ti viver em Londres?'. Não. Vida completa é viver em Londres com o D.. Este complemento circunstancial de companhia faz toda a diferença. É o estar em casa e saber que esperamos alguém. É o preparar o jantar e ter em conta um gosto alheio. É rir às gargalhadas com outra pessoa durante o The Office. É o ouvir outra pessoa respirar durante a noite. É o poder dizer espontaneamente 'Então!!' (não há tradução possível para inglês). É entrar em pânico por as castanhas estarem a acabar no supermercado mesmo quando não gostamos de castanhas. É o lavar meias, boxers e chuteiras. É o ficar trancada em casa porque a outra metade se esqueceu e levou as duas chaves. É o ter 2 roupões, 2 toalhas de banho, 2 escovas de dentes e 2 tipos de desodorizante diferentes na casa de banho. É ter uma caixa de correio com 2 nomes.

Se um dia tiver de escolher entre Portugal com D. e Londres sem D. ... Espero não ter de escolher. Seria pânico qualquer que fosse a escolha. Por isso dou graças por não ter tido que escolher (se não dou devia dar. Todos os dias). O espírito de emigrante manifestou-se com igual intensidade nas duas partes, e uma delas largou tudo para que a outra pudesse concretizar um sonho. Dou graças por o cupido ter acertado em alguém com a mesma ânsia de descobrir, experimentar e sonhar que eu. E por permitir que os dois pilares nos quais assenta a minha felicidade e estabilidade possam ser construídos à mesma medida.

Um dia escrevo sobre a família. Alargada. Porque nunca pensei (e eu penso demais) que fosse tão pouco difícil estar longe fisicamente das pessoas que conheço desde sempre. Mas hoje fico-me por aqui.






S.