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segunda-feira, 23 de junho de 2014

Sucesso balnear

Há duas semanas fomos à praia. A intenção principal de ir até à beira-mar era fazer um passeio de bicicleta de vários quilómetros pela costa flamenga e holandesa, que me haviam dito ser lindíssimo. Andava a sonhar com Knokke há mais de um ano. Como todas as previsões meteorológicas apontavam para um dia soalheiro e de mais de 25 graus naquela cidade costeira, permitimo-nos sonhar.

Começámos a rir maniacamente quando, ainda no comboio, cai uma carga de água enorme. Não faz mal, já estamos habituados, declarámos nós, os fatos-de-banho vieram vestidos mas bom, temos o pedalanço na mesma para fazer. Não seria em vão como há dois anos.  

Fomos então pedalar, eu sempre de antena no ar para descobrir o momento em que passássemos a fronteira com a Holanda. Nem uma placazinha azul com estrelas amarelas a anunciar, nem bandeiras holandesas em lado nenhum, mudança de língua nicles porque já estávamos na Flandres de qualquer das formas, olhar para as matrículas dos carros não me elucidou porque havia igual número de BEs e NLs, e as pessoas como é óbvio não têm escrito na testa de que país são. Cheguei a procurar desesperada anúncios em edifícios ou paragens de autocarro que tivessem um website com .nl, cheguei ponderar perguntar a alguém na rua se já estava na Holanda, mas senti-me ridícula e tive medo de ofender nacionalismos desenfreados caso ainda estivesse na Flandres. Lá vislumbrei uma caixa de correio amarela que dizia qualquer-coisa-qualquer-coisa-Nederland mas acabei por nunca vislumbrar a linha divisória como esperava. Só em casa, com o mapa GPS do percurso feito transferido para o computador pude ver que tínhamos avançado 10 km para dentro da Holanda sem nunca nos apercebermos. 

Apanhámos chuva e fresquinho, como era esperado desde a forte chuvada no comboio. O que não era esperado foi o sol que de repente brilhou em toda a sua glória no pedalanço de regresso a Knokke, e que me garantiu um lindo bronzeado à camionista que ainda hoje apresento com alguma vergonha. Apanhar escaldões aqui nestas costas do norte é uma verdadeira humilhação para pessoas Europa-sulistas como eu.

Ainda fomos à praia, o único final lógico de um pedalanço debaixo de sol quente (aqui isto não é uma redundância). E tomei banho! Fiquei mesmo feliz, felicidade essa que se esbateu um bocadinho quando dei um pontapé sem querer numa alforreca*. Acabaram-se os banhos de Mar do Norte que foi uma beleza. Secar é que não deu. Para fornecer um inesperado escaldão lá esteve ele, para secar uma pobre alma após banho de mar é que já seria pedir demais. Tentei mas não pedi, porque fique a sentir-me uma privilegiada por ter conseguido em dois anos apanhar um dia de praia digno desse nome.  






S.

* diz que este ano há lá muitas, mas inofensivas, aprendi agora.

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Portugal à segunda vista

Ainda estou a digerir um pouco o facto de que já não estou de férias. Nunca fiquei com depressões pós-férias nem nunca me custou regressar à escola/trabalho. Muito pelo contrário: setembro é um dos meus meses favoritos do ano, é como se fosse o Ano Novo, é o mês da rentrée, o fim da silly season, o mergulho na vida a sério, cheira a livros novos, tem a força da vontade das empreitadas novas, é o apagar de mais uma vela no bolo de aniversário. Mas isto anda tudo vazio, é Bruxelas, é a blogosfera, é os emails, é o escritório. Já estou pronta para setembro mas o resto do mundo ainda não. E isso entristece-me mais do que o fim das minhas férias.

Nestas semanas de regresso à pátria fiz um esforço consciente para visitar coisas que me andavam a fazer cócegas na imaginação há muito tempo. Mas como as férias são tempo para usar e abusar da presença física dos mais próximos - e de quem não podemos abusar durante o resto do ano, valha-nos o Skype mas não nos vale assim tanto, é pura imitação - arrastei a família atrás, ah pois.

Sintra. Aquele pedaço de terra mística que me é tão familiar mas tão superficialmente conhecido. As odes nos jornais, nos livros, na História, no Pessoa, nos Maias, na boca e nos olhos brilhantes dos estrangeiros que já visitaram Portugal e dificilmente encontram palavras para descrever a sua visita quando lhes digo de onde venho. O meu conhecimento superficial e a pouca distância da minha casa de 20 anos, aliada àquele sentimento de coisa adquirida que temos pelo que convivemos quotidianamente, fez-me achar durante muito tempo que Sintra estava um tanto ou quanto overrated.



Não está, porra. Não está. À Regaleira fui há uns anos, numa visita prenda-de-anos, e não desapontou. Tornou-se instantaneamente num dos meus lugares portugueses mais preciosos, com espacinho no coração (não são muitos). Desta vez fomos lá acima, ao topo da serra, ao Palácio, que vale mil vezes mais pelas vistas maravilhosas que pelo interior do edifício. Que serra maravilhosa. Que vista desafogada (50 pontos para quem conseguir distinguir o Convento de Mafra ao fundo). Ainda tivemos direito a testar o microclima sintrense porque a dada altura começou a chuviscar e eu passei o dia a vestir e a despir o casaco, consoante as esquinas do palácio que virava.

Porto. Xii, o Porto. Revelo com a vergonha devida que conhecia mesmo, mesmo muito mal a segunda cidade do país. Mas se calhar por isso ela arrebatou-me pelos pés e virou-me do avesso. Juro que a frase que mais pensei enquanto era guiada pelas ruelas da cidade, pela Ribeira, pela Foz e pelos miradouros, foi que o Porto batia aos pontos a beleza de Lisboa*. E que a cidade está ainda demasiado underrated, tanto na mente dos morcões como na dos estrangeiros que visitam Portugal e talvez não contem o Porto como parte do seu itinerário de viagem. Meu deus, a riqueza que é ter pontes que se percorrem a pé! Ter uma margem sul que não é bem Margem Sul porque é tão já ali. Ir ao Porto é acreditar que há vida para além de Lisboa, há Portugal vivinho da silva para além da capital, e isso fez-me extremamente bem às perspetivas.




E depois a descida do rio Tejo, sempre na ânsia do "já chegámos? já chegámos? já chegámos?" porque sabia que a qualquer momento iria virar uma curva e vislumbrar o Castelo de Almourol em toda a sua glória, e sim, ali estava ele, no meio do rio, lindo como sabia que só podia ser, mágico como esperava que fosse, um bocado, er... vazio por dentro como não sabia, mas com vistas do caraças quando se sobe mesmo até lá acima. Dá para sentir como um conquistador, e se semi-cerrarmos os olhos com convicção e se o sol brilhar forte na cabeça pode ser que dê para vislumbrar um exército a cavalo lá ao fundo. Mas o sol tem que estar a bater forte e quente na cabeça, claro.



Finalmente, a Tapada. Tão perto mas durante demasiado tempo longe do coração. Sempre a querer ver veados em Richmond e não sei quê, e afinal vivi durante tanto tempo tão perto deles. Ali, mesmo à mão de semear, quase que dá para se fazer festinhas, não fosse a desconfiança dos bichos em relação ao pessoal de duas patas. Teria mais sorte com os javalis, suspeito. Peguei numa coruja pela primeira vez e estou quase a completar a minha experiência HPteriana. Só falta o tour às Highlands.




Ainda voltei para uns dias no sul, que foram muito bons para levar muitos banhos de calor familial, uns tantos de sol e ainda mais uns literais de mar. Que maravilha é ter um mar só para nós e uma praia semi-deserta às 9 da manhã. E sim, é possível tal coisa no Algarve em pleno agosto. É só saber onde procurar :). Serviu também para apreciar o fresquinho de Bruxelas e maravilhar a possibilidade de andar na rua sem precisar de óculos de sol na cidade. Que esta aprendizagem me sustenha durante os próximos meses (já estou a pensar que tenho de comprar um casaco verdadeiramente quente e umas botas verdadeiramente aderentes. Pensar em neve em meados de agosto é espetacular.)


(Foto roubada ao primo que tira fotos melhor do que eu)


Agora vou sossegar um bocadinho aqui em Bruxelas e aprender a chamar "home" à casa nova, voltar a encaixar a biblioteca na minha vida e cruzar os dedos até mais ou menos maio. 



S. 


*Entretanto, já nem sei, porque uns dias depois fui à Baixa e desci a Rua Augusta e o sol brilhava forte no céu azul intenso e a pedra do arco da Rua Augusta estava tão mas tão branca, e fiz a procissão até ao Cais das Colunas - que sim, aquele caminho tem mais de sagrado e ritualesco que muita romaria que por aí anda - e eu fiquei novamente embriagada com o caráter de Lisboa e já quase lhe implorava perdão por ter pensado que outra cidade portuguesa a podia bater. Igualar, pronto vá, lá me decidi pela justeza.  

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

O bicho da leitura volta a atacar

A minha vida tem se resumido a praia, piscina e leitura como se não houvesse amanhã. De maneiras que ando o mais desagarrada disto do blog e dos Facebooks como nunca. Quem mais beneficia com este facto é o meu bicho da leitura, que se tem revelado na sua plenitude máxima por entre mergulhos refrescantes e pés na areia. E o resto é conversa (literalmente).

(Neste momento navego em Salem, tendo alternado entre o mundo dos Tudor e a frieza de S. Petersburgo e  dos autores russos, passando por uma viagem à América de meados do séc. XIX. E outros 60 já me esperam guardadinhos na biblioteca eletrónica do meu maravilhoso melhor amigo, Kobo.)


S.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Tempo belga: 1 - D.S.: 0

Chegámos à praia, uma hora depois começa a chuviscar. Acabei por ter de me vestir, casaco incluído.

...




É preciso dizer mais alguma coisa sobre o tempo belga?


S.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Corrida ao fato-de-banho

Bruxelas tem estado luminosa e quente como ainda nunca a tinha visto. Fora um ou dois dias em junho, o termómetro ainda não tinha passado a barreira dos 25 graus, sendo que tem insistido em manter-se abaixo dos 19. E a chuva de que já me queixei repetidamente. 

No entanto, parece que esta semana é para se manter nos 28-29. Não há uma nuvenzinha à vista, o céu está todo azul, o ar está quente e, há pouco, quando vi o termómetro de uma farmácia anunciar "30º" quase me deu um fanico. É uma alegria mal-contida, verdade seja dita. 

Ora, acontece que sexta-feira é um dia especial para os pombinhos aqui d'Ixelles (o aniversário número sete tem uma mística qualquer, é um número bonito, ainda que nada redondinho) e tenho andado a olhar para os vários restaurantes aqui da zona com outra atenção. Um jantarzinho romântico à luz das velas, no único dia do ano em que me (nos) permito a extravagância verdadeira de jantar fora com pinta, parece-me muito bem. 

Pois, parecia-me! Os planos de aperaltamento, comida boa e refeição a meia-luz deram uma grande cambalhota quando uma única palavra começou a invadir a mente de ambos, não deixando espaço para mais nada: PRAIA. Eu. Quero. PRAIA. Uma porção de água para banhar.

Timidamente consultámos o meteo.be, ontem, novamente hoje (e consultaremos novamente amanhã) para certificarmo-nos que o pedacinho de costa belga continua com previsões de temperaturas a rondar os 25. Confirma-se. Os dedos não estão cruzados em figas mas a esperança está cá de que este tempo continue até sexta. Só até sexta, vá lá! Porque sabe-se que isto é sol de pouca dura, literalmente, e, de facto, no sábado já preveem chuva e máximas de 18-19.

Mas porque, tal como em Londres, nunca me passou pela cabeça enfiar fatos de banho ou toalhas de praia na mala, coisas remotamente balneares é algo que não mora nesta casa. De maneiras que tivemos que dar um saltinho aos saldos e agarrar os primeiros fato-de-banho (sim, pela primeira vez em 15 anos, rendi-me a um fato-de-banho) e calções de praia que se arranjou. E o protetor solar mais elevado que conseguimos achar, porque isto de não fazer praia há dois verões habitua mal a pele alva destes dois senhores (ou habitua bem, consoante a perspetiva).

Por isso, estamos aqui numa de alguma expectativa e a pedir a todas as partículas de Higgs (são de Deus, deve dar) que o tempo belga colabore só mais dois diazinhos, que depois pode chover tudo o que lhe apetecer (e considerando que não chove há 3 dias, tenho medo do que aí virá).


... a quantidade de pára-ventos não me está a inspirar muita confiança...



S.

domingo, 17 de julho de 2011

Tróia



Portugal tem lugares surpreendentes. E que passam tantas vezes ao lado de quem pensa em destinos de férias ideais.

Para mim, que é tão desconfiante meter-me num carro e daí a uma hora estar numa praia tão estranhamente caribenha, de areia tão branca, tão fina, de mar tão calmo e de um azul turquesa de fazer inveja ao Mediterrâneo, foi uma surpresa. Não completa, porque o Google Images impede-nos de ir de olhos vendados até a um novo destino, seja ele onde for. Mas foi em tom de desafio que embarquei no ferry no porto de Setúbal, 'Alright, let's see what you've got, Tróia. Maravilha-me'. E não é que a malandra maravilhou?

Começou pelo tempo. Passa-se a Ponte Vasco da Gama e o tempo feio de chuviscos dissipa-se como por magia, quase como um prelúdio de um Algarve a 3 horas de distância. 'Ora sejais bem-vindos ao Pré-Alentejo, terra onde começam as planícies secas, amareladas do sol tórrido que se faz sentir durante mais tempo do que na Região Oeste de vossas Excelências.' Castelo de Palmela um pouco mais além, lá bem no alto, despoleta a minha imaginação medieval de batalhas de Reconquista, D. Afonso Henriques batendo os mouros, sendo batido de volta, e retirando-se para a margem norte do Tejo, a abanar um punho fechado no ar, de cara desafiante, imensamente determinado a ir por aí abaixo até não ter mais terra a reclamar.

Setúbal começa por parecer uma cidade como qualquer outra. Torres Vedras saltou-me à mente várias vezes, apesar de serem mais as diferenças que consigo enumerar do que as semelhanças (rio em Setúbal, abundantes restaurantes de peixe, serras; cidade mediana). Muito compenetrada a seguir as placas que indicam Tróia - Cais logo desde que se entra na cidade, levei um baque no coração quando virei uma esquina e me deparei com a serra da Arrábida ao fundo, a foz do Sado, e o que supus ser Tróia ao fundo. Instantaneamente pensei 'Já valeu a pena.'.

O ferry de hora a hora, chega ao seu destino em menos de 30 minutos. Parecia uma criança sem conseguir conter a sua excitação enquanto esperava pelo 'PÓÓÓÓÓ' que o barco faz antes de partir. Queria ver os golfinhos! A espuma que a ondulação fazia enganou-me demasiadas vezes. Os golfinhos não apareceram.




A desilusão durou muito pouco. A vista da travessia, mesmo sem golfinhos, é qualquer coisa. Quatro elementos que raras vezes podem ser abarcados de uma só vez ali estavam: a serra com a sua vegetação cerrada, o rio, o mar e a cidade de Setúbal ao fundo. E uma praia que se aproximava cada vez mais e que prometia.

Prometia e cumpriu. Logo no cais a água tão transparente e verde-esmeralda deixa antever que a praia mesmo deve ser qualquer coisa de especial. Andámos cerca de 20 minutos. Pássamos por várias praias. Queríamos ir até ao fim, até à praia que se antevia no horizonte porque essa é que devia ser a melhor, essa é que estava mais longe, o esforço só poderia recompensar.

Fiquei estupefacta. Primeiro um 'Portugal tem disto?!', depois um 'Conheces muito mal o teu país, minha amiga.' Tinha à minha frente uma das melhores praias onde já estive. Rivaliza taco-a-taco com qualquer praia caribenha, com qualquer praia mediterrânica. Superior ao Algarve. E a uma hora de casa.

A primeira pegada na areia é sempre para mim motivo de excitação. Andar descalça sempre foi uma das minhas manias secretas. Sentir aquela areia fininha (ou qualquer areia, se pensar bem) debaixo do pezinho é uma das melhores sensações do mundo. Sempre fui muito feliz na praia. Memórias de infância, memórias de férias desde sempre, memórias de adolescência. Pisar a areia despoleta uma felicidade correlacionada com tudo isso.

Claro que quando o pezinho toca a água desvanecem-se todos os devaneios caribenhos. 'Ah, espera lá. A água é bem portuguesa!'. O que é mais desafiante, do ponto de vista físico. Dá ideia de que as nossas praias, mesmo rivalizando as paisagens das melhores do mundo, dão luta. 'Não tão depressa, minha amiga. Toca a ficar dormente primeiro antes de sentires esta água turquesa a submergir-te por completo.' Nada que impedisse uns bons mergulhos. O vento que se fez sentir e a cabeça cheia de areia que trouxe até ao chuveiro de casa também não conseguiram estragar o dia.

Seja Portugal capaz de me surpreender constantemente, e a minha vontade de emigrar poderá ver-se seriamente ameaçada. Queira eu deixar-me surpreender e que a vontade de o conhecer não me abandone. Queira eu!





S.