"Eu ia votar sem nada ter feito por esse direito. Não passara os melhores anos da vida nas prisões, ridicularizada pela imprensa. Não fui alimentada pelas narinas nas greves de fome, imobilizada no chão por cinco guardas, como muitas inglesas. Eu não tinha quebrado vitrinas, lançado geleia nas caixas de correio, incendiado igrejas e casas de ministros, socado o próprio Churchill. Eu não interrompera discursos que apregoavam justiça e interesses dos cidadãos, escondida nas cortinas do edifício do Parlamento. Nunca fui escorraçada das assembleias nem tivera coragem de subir aos telhados para gritar por megafones diante das janelas: «voto para as mulheres». Eu estava apenas ali de mãos nos bolsos do meu casaco preto."
Fina D'Armada, (1973) "A mulher na hora de votar", Jornal de Notícias, Novembro
Encontrei isto no livro Feminismos da Manuela Tavares. É um excerto de um artigo que Fina D'Armada escreveu, pouco antes do 25 de abril de 1974, como homenagem às sufragistas britânicas. Votar é um direito que temos mas que não fizemos nada para o conquistar. Exercê-lo é não só um dever de cidadania mas também de respeito por quem antes de nós sofreu lutando por ele. Sendo mulher, tenho dupla consciência do respeito que devo a essa gente. Abster-me não é cuspir na cara dos políticos atuais, é cuspir na cara das sufragistas.
S.