quarta-feira, 9 de outubro de 2013

'Bora escrever uma Constituição?

Entretanto, no Reino Unido, um Professor da LSE lançou a ideia de se escrever uma Constituição através de uma espécie de brainstorming com toda a gente que quiser participar.

O projeto ConstitutionUK foi lançado ontem na universidade londrina e a intenção é dotar este país europeu de uma Constituição escrita, coisa que, bizarramente, ainda não tem. A Magna Carta de 1215 é o que popularmente mais se lhe aproxima mas há muita contestação no meio académico sobre se este documento histórico pode ser considerado sequer uma constituição na altura em que foi assinado, quanto mais a fonte de lei fundamental para um país de séc. XXI. Parece que 800 anos passaram e a Inglaterra mudou um bocadinho (começando pelo nome).

Ainda assim a ideia é envolver o cidadão comum na discussão dos assuntos que deveriam ser incluídos na Constituição, escrevê-la e lançá-la em 2015, véspera dos 800 anos da tal mítica Magna Carta. Conor Gearty, o professor responsável pelo projeto, diz assim:

“These people [experts participating in the launch of the project] have knowledge of the law and experience in exercising power, but their main role will be to help me to encourage ordinary people to drive this debate. Normally these issues are left in the hands of professors, judges, ex-civil servants, the ‘well-educated’ and elite members of society. This project is going about this in a slightly different way.”

Assuntos quentes a discutir serão a monarquia, a Câmara dos Lordes e o Bill of Rights. 

“Do we need all of these and what is the basis for their existence in the UK? Should parliament be given the power to decide whether or not to send the country to war? These are the kinds of issues we hope to unpick in the course of the next six months.”

A sério, quão fixe é isto? Participar no "fazamento" da lei fundamental do país. Quem me dera.

Pelo meio (falta menos de um ano!) poderá haver a secessão de parte do território se a Escócia escolher a independência no próximo setembro mas isso, segundo o mentor do projeto, só traria um novo desafio à coisa.

A ideia é depois levar os cidadãos britânicos a eleger representantes para uma assembleia constitucional que é na prática a instituição que debateria e aprovaria a Constituição final. Finalmente, numa terceira fase, poderia ser convocado um referendo para aprovar o texto final, ainda que nada disto esteja para já muito bem pensado. 

Há muitas vozes céticas sobre este projeto e sobre o que ele pretende realmente ser. Muitos académicos rejeitam a própria ideia de que o UK precisa de uma Constituição codificada e escrita. Ainda assim, e segundo Conor Gearty, a ideia é debater o assunto e engajar as pessoas na discussão sobre o sistema político do seu país. 

Uma entrevista com o mentor do projeto poder ser lida aqui e o website do projeto encontra-se aqui.





S.

domingo, 6 de outubro de 2013

A pity party da corrida que não foi

Os grandes e ansiados planos que tinha de correr a minha primeira prova hoje resumiram-se a fazer zapping entre a Maratona de Lisboa e a Great Scottish Run na televisão, refastelada no sofá, enquanto bezuntava os tornozelos com anti-inflamatório e resmungava entre dentes "Para o ano estou ali, cará, para o ano são 15 ou 20, moderfocas dos pézinhos de princesa, acham que isto foi esforço, vão ver o que é esforço, é só deixarem de fazer 'criiiic' que vão ver o que é bom."

Já oscilei entre orgulho por ter uma lesão desportiva, já que nunca na vida tinha esforçado o meu corpo o suficiente para estar sequer perto de uma, passei à irritação pela estupidez que foi ter achado que os velhos ténis serviam para correr na rua, até à frustração que foi ver o dia da prova chegar e os tornozelos sem melhora. Neste momento estou na fase do lamber as feridas e biding my time. 






S.     

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Esperar que a princesa encantada o salve

E porque eu tenho uma espécie de relação amor-ódio com a Disney, aqui vai mais uma perspetiva diferente sobre os desenhos animados familiares. O(a) autor(a) imaginou e desenhou as personagens Disney como se elas fossem do sexo contrário. Temos assim as mulheres princesas que salvam os homens príncipes, em coisas como "O Belo Adormecido", "A Aladdin", "O Pequeno Sereio".






Tudo daqui.




S.

Sobre direitos adquiridos e lutas que não travámos



"Eu ia votar sem nada ter feito por esse direito. Não passara os melhores anos da vida nas prisões, ridicularizada pela imprensa. Não fui alimentada pelas narinas nas greves de fome, imobilizada no chão por cinco guardas, como muitas inglesas. Eu não tinha quebrado vitrinas, lançado geleia nas caixas de correio, incendiado igrejas e casas de ministros, socado o próprio Churchill. Eu não interrompera discursos que apregoavam justiça e interesses dos cidadãos, escondida nas cortinas do edifício do Parlamento. Nunca fui escorraçada das assembleias nem tivera coragem de subir aos telhados para gritar por megafones diante das janelas: «voto para as mulheres». Eu estava apenas ali de mãos nos bolsos do meu casaco preto."


Fina D'Armada, (1973) "A mulher na hora de votar", Jornal de Notícias, Novembro


Encontrei isto no livro Feminismos da Manuela Tavares. É um excerto de um artigo que Fina D'Armada escreveu, pouco antes do 25 de abril de 1974, como homenagem às sufragistas britânicas. Votar é um direito que temos mas que não fizemos nada para o conquistar. Exercê-lo é não só um dever de cidadania mas também de respeito por quem antes de nós sofreu lutando por ele. Sendo mulher, tenho dupla consciência do respeito que devo a essa gente. Abster-me não é cuspir na cara dos políticos atuais, é cuspir na cara das sufragistas. 




S.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

A linha ténue entre realidade e ficção

Eeeeh, não me lixem a noção da realidade, por favor. 





Como se o Sirius Black fosse comentar o Pinterest. Ele é feiticeiro, sabe lá o que é "internet". Vê-se mesmo que é algum muggle a gozar.



S.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Prometo não usar mais a palavra "medieval" para descrever uma cidade

Em York, foi a primeira vez que admiti que podíamos ser felizes no UK, mesmo fora de Londres. 





Nunca tinha chegado a esta conclusão por isso sinto que esta descoberta me será útil um dia.




S.


Rendi-me ao passarinho e ao livro das caras

Este blog está agora no Facebook. Há muitos artigos e outras coisas interessantes sobre igualdade de género e afins que encontro pela net e que não chegam a ser transformados em post. Vou passar a partilhá-los lá. Quem quiser espreitar e até sugerir leituras interessantes está convidado a likar.

O Twitter não é exatamente do blog mas a intenção da partilha de artigos/fotos/imagens sobre a igualdade de género é a mesma. A quem interessar, os botões estão aí na coluna da direita.

Boas navegações!



S.

domingo, 29 de setembro de 2013

Desportos radicais em Londres

Foi após muito remoer de prós e contras, em que dois tornozelos me andam a lixar planos de corrida mais uma enorme curiosidade versus uma condução à esquerda endiabrada, que finalmente andei de bicicleta em Londres. Sinto-me uma pessoa diferente e sei que amanhã o meu commuting a pedalar vai parecer uma brincadeirinha de crianças.

Peguei na bicicleta a tremer mas decidida porque queria mesmo muito experimentar bicicletar na amada cidade e porque tinha pouco mais de duas horas para matar as saudades. E eu quando vou a Londres tenho uma espécie de sítios ritualescos por onde tenho que passar e dizer olá, tenha o tempo que tiver. Daí que a bicicleta me pareceu boa ideia.

Coisas que me deviam ter gritado "nããããooo...!" na altura (e até gritaram, eu é que escolhi fazer de surda):

-  conduzir do lado esquerdo da estrada: esta foi a que me gritou "nãããoo" de forma mais audível. Os cruzamentos sabia que eram a parte mais lixada porque é quando se muda de direção e o instinto mais fortemente diz para posicionar do lado normal, ou seja, à direita. Fui o caminho todo a gritar mentalmente "esquerda, esquerda, esquerda, ESQUERDA", especialmente quando era altura de virar numa rua qualquer. Problemas adicionais: às vezes, há estradas com três ou mais faixas no mesmo sentido e, se quero ir em frente, tenho que ir na faixa do meio. Faz engolir mesmo muito em seco uma pessoa estar numa das ruas mais movimentadas de Londres, na faixa do meio e não saber se deve encostar à esquerda ou à direita nessa faixa porque entretanto já se baralhou toda e deve-se ir encostadinha é o mais à direita possível, certo? Ou era à esquerda? Vrrrroooom, e o autocarro que acabou de me rasar a esquerda. Ok, calma. Semáforo vermelho.

- conduzir na hora de ponta: hah, essa também foi boa. Começar a bicicletar numa metrópole a sério (cá Bruxelas, quais quê) às 19h da tarde. Nunca me pesou tanto o capacete que não levava como naqueles 20 minutos que durou a coisa.

- ausência de pistas cicláveis: sinceramente, fiquei desiludida. Pensava que Londres tinha uma muito maior consideração pelos seus ciclistas do que vi. Ruas fundamentais e largas no centro da cidade sem vias designadas para bicicletas, que não precisam de ser vias individualizadas, apenas uma coisa deste género:



Todas as ruas em Bruxelas, mesmo as mais insignificantes, têm símbolos de bicicletas no chão que indicam onde estas devem circular e mesmo que não constituam uma faixa diferenciada, estão lá. No caso de ruas mais estreitas, o símbolo da bicicleta está no centro da estrada, indicando que o ciclista se deve posicionar no meio da faixa e o carro que espere. Foi um choque enorme descobrir que Bruxelas está bem mais à frente que Londres em alguma coisa.

De resto, admirável como aquela cidade é plana de fazer inveja e que nunca precisei sequer de olhar para as mudanças (mas olhei e eram só três. Em Bruxelas as bicicletas de aluguer precisam de sete). Gostei muito do sistema de aluguer Barclays, mais fácil de usar e com bicicletas mais leves do que o aqui do burgo. Pena o movimento tão intenso nas artérias centrais e a ausência de espaços exclusivamente cicláveis. Próxima experiência: Lisboa. 



S.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

A boneca e o carrinho são de todos

Esta imagem foi construída após um estudo que visava analisar as palavras escolhidas para o marketing de brinquedos de rapariga e de rapaz. A diferença na linguagem utilizada é abismal (o tamanho da palavra está relacionado com a frequência com que esta aparece nos brinquedos):




Imagem tirada deste artigo do Princess Free Zone, sobre a forma como a linguagem influencia a nossa perceção da realidade e nos molda.

O Princess Free Zone é um projeto que eu gostava muito de ter criado, apesar de ainda não ter filhos. Foi inventado por uma mãe de uma rapariga que desde cedo recusava os vestidos cor-de-rosa folhados e tinha um fascínio por coisas estereotipicamente de rapaz, como ferramentas de construção e afins. O PFZ luta para que as crianças possam fazer e ser o que realmente gostam sem falsas compartimentalizações rapaz/rapariga. É incrível ver o número de mães e pais que publicam na página do Facebook do PFZ fotos de rapazes e raparigas a desafiarem as lógicas distorcidas dos géneros, como rapazes a embalar uma boneca ou raparigas mascaradas de Batman.

Um dos sucessos mais recentes na área, ainda que atribuído a uma outra campanha, a "Let Toys Be Toys" foi o Toys 'R Us declarar que iria acabar com o marketing sexista de brinquedos para rapariga e brinquedos para rapaz.

Viva a verdadeira liberdade de escolha.




S. 

domingo, 22 de setembro de 2013

Fora com as quatro rodas!

Fiquei um bocado triste quando ouvi no telejornal português que hoje, Dia Europeu Sem Carros, em Lisboa havia mais carros do que em anos anteriores. Que a tradição já não é o que era, e várias entrevistas a ciclistas desiludidos por verem que a circulação dos carros se mantinha igual aos outros dias do ano. Eu tinha acabado de vir de uma corrida por uma das artérias mais movimentadas de Bruxelas e fiz o caminho quase todo no meio da estrada, sem necessidade de parar em semáforos (a minha velocidade média agradece) e tinha tido como única preocupação desviar-me de vez em quando de uma bicicleta mais desgovernada. Por isso fiquei triste que em Lisboa não fosse o caso.

Esta foi apenas a segunda vez que o vivi mas já se tornou facilmente no meu dia preferido do ano. Ao contrário do ano passado, que nem estava a contar com ele, nem sabia o que era, desta vez esperava ansiosamente este penúltimo domingo de setembro porque já sabia o que aí vinha: uma cidade completamente transformada a muitos níveis. Um silêncio impensável (só nos apercebemos do barulho constante dos carros quando ele desaparece), um ar bem mais puro (fizeram análises em vários pontos da cidade o ano passado neste dia e foi incrível a diferença dos níveis de poluição no DESC comparativamente ao normal), uma alegria contagiante nas ruas. Em Bruxelas, é proibido carros circularem neste dia dentro da cidade. Apenas carros da polícia, ambulâncias, táxis, autocarros e trams percorrem as estradas. É possível obter uma autorização para andar de carro no DESC, mas a justificação tem que ser mesmo muito boa, e a circulação só pode ser feita para essa coisa em especial. Aqui não estão com voluntarismos nem à espera que sentidos cívicos maiores se levantem: é dia sem carros, é proibido circulá-los e ponto final.

Há-de haver muitos resmungos, não duvido, mas para a vasta maioria das pessoas compensa. E se compensa! Nunca vi tanta bicicleta junta na minha vida nem tanta gente a usufruir das ruas da cidade. A Avenue Louise parecia uma parte da Volta à Bélgica em Bicicleta, tal era a quantidade de ciclistas a dominar a estrada. Centenas e centenas de pessoas a pedalar, a caminhar, a andar de patins-em-linha, de trotinete, de skate. Mas um silêncio anormal numa avenida tão movimentada. A cidade parece um parque gigante. Estivemos meia hora sentados num café mesmo à beira de um semáforo a observar e vi a quantidade de bicicletas mais diversa da vida. A cada semáforo vermelho, era ver umas vinte bicicletas a agrupar à espera da luz verde. E ali ficámos nós a admirar as fornadas constantes de bicicletas a chegar e mais uns quantos transportes estranhos que normalmente só podem ver a luz do dia em parques construídos para o efeito.

Não me lembro de isto no ano passado ter sido assim, apesar de ter estado mais calor do que hoje. Talvez haja cada vez mais gente a aderir a este dia, e, espera-se porque afinal é essa a intenção, a largar de vez o carro no seu commuting diário dentro da cidade. O Dia Europeu Sem Carros aqui em Bruxelas mostra tudo o que uma cidade poderia (poderá?) ser, se se tirar aos motores a primazia que infelizmente ainda detêm. A imagem é maravilhosa, bem real neste dia, ainda que utópica nos outros 364.
      





S.