sábado, 30 de março de 2013

Barcelona, you're doing it wrong

Muito por acaso, apanhei um mercado enorme em Barcelona, daqueles mesmo bons, tradicionais e enormes, com bancas de todos os vegetais, frutas, peixes, queijos, carnes e enchidos que se possa imaginar. Não tem o caos do mercado do Midi, aqui de Bruxelas, nem a ordem do mercado de Loulé (por alguma razão, o mercado português que está mais vívido na minha memória), mas é labiríntico como nenhum destes dois e com uma variedade que me espantou francamente.

Enquanto por lá cirandava, uma banca de bacalhau chamou-me a atenção. Pensei: "Olha, que curioso, os espanhóis também apreciam bacalhau, não sabia." Até que me aproximei e vi melhor: 





Postas de bacalhau fresco, com uma grande camada de sal por cima, no que eu desconfio ser uma tentativa muito esforçada mais muito fail de produzir um bacalhau igual ao português.

Soltei uma gargalhada sarcástica e meio arrogante porque é sempre a mesma coisa. Todos tentam mas ninguém consegue ter bacalhau como em Portugal. Não, senhores barcelonenses, não é assim que se faz. O bacalhau tem que ser seco; não é só espetar um monte de sal por cima e esperar pelo melhor. Eu sei, eu já tentei... 

Corei um bocadinho quando me lembrei disto. No Natal londrino, numa tentativa um bocado desesperada de ter o tradicional bacalhau à mesa da ceia natalícia, comprei as típicas postas de peixe fresco e no dia anterior salguei-as como se não houvesse amanhã. Remediou, mas não é de todo a mesma coisa.

Por isso, vá, se é para vender tem que se fazer como deve ser; isso não engana ninguém, sim?



S.

domingo, 24 de março de 2013

Guia para uma viagem de sonho à Escócia

Há vários anos que uma das minhas viagens de sonho é ir à Escócia. Este ano, e por uma agradável coincidência, tive que me deslocar várias vezes a esta região em trabalho. Fiquei maravilhada com Edimburgo, que em nada desapontou e cuja aura de mistério e magia me lançaram num remoinho de lembranças de leituras passadas, visitei Glasgow várias vezes mas um bocado de fugida, e vi da janela minúscula de um avião as montanhas, os lagos e o verde que povoam a imaginação quando se pensa em Escócia.

No entanto, a minha viagem de sonho é muito mais do que isto. Quero conhecer esta parte do UK de uma ponta a outra, quero ir a Inverness, a Aberdeen, à Ilha de Skye, visitar os castelos assombrados, caminhar à beira dos lochs, andar no comboio que diz que tem as melhores vistas daquele campo, palmilhar aquilo de uma ponta à outra. Só assim arrumarei a Escócia no compartimento mental dos sonhos realizados.



Entretanto vou-me apercebendo que aquilo tem mesmo uma identidade própria e singular, diferente de (pelo menos) Londres e arredores, ainda que não sinta que estou noutro lado que não o UK. É complicado, para uma pessoa de fora, entender completamente os meandros da identidade de um povo, e por isso é sempre muito interessante quando se tem oportunidade de falar com insiders. Para além de uma ou outra conversa que já tive com o boss - que por acaso é escocês - tive no outro dia uma conversa curiosa com um senhor em Glasgow, que dizia que se irritava quando as pessoas diziam que o seu inglês era muito bom; "Eu não falo inglês", dizia ele, "Falo escocês, o que não é de todo a mesma coisa". Eu não concordo, inglês é a língua, o que há são depois as variantes. Ninguém diz que fala americano, assim como não se diz que se fala brasileiro; o que existe é o inglês escocês, o inglês indiano, o inglês irlandês, e por aí fora. Português europeu e português do Brasil. Mas não deixa de ser extremamente interessante a veemência com que o senhor disse aquilo, e a forma como ele diferencia a língua que fala, da língua que falam grande parte dos seus concidadãos. Durante a licenciatura, quando fiz o minor em Estudos Ingleses, um dos livros de leitura versava precisamente sobre a identidade dos vários povos das ilhas britânicas. Fascinou-me - e continua a fascinar-me - a complexidade das identidades nacionais dos quatro países. O que é ser britânico? E o que é ser inglês, escocês, welsh? Que um escocês não é inglês mas é britânico (ou pode nem se sentir tal). Mas que um inglês entende Englishness e Britishness como sendo a mesma coisa, e que por vezes um escocês se identifica mais como europeu do que como britânico. Fascina-me profundamente, isto das identidades nacionais. Se não tivesse seguido pela via do género, na minha dissertação, tenho a certeza que teria enveredado por aqui. O referendo para perguntar aos escoceses se querem uma Escócia independente já tem data marcada para setembro de 2014, e eu mal posso esperar pelo resultado. Seria algo inédito nos nossos dias, e, caso vença o "sim", muitas questões ficariam em aberto: Teria a Escócia que se candidatar novamente à UE? Manteria a libra esterlina? Como seria o estatuto dos seus cidadãos? Teriam que pedir visto para visitar outro país europeu? Desatará a abrir embaixadas escocesas pelo mundo fora? É incrivelmente interessante porque abriria um precedente nesta Europa cujas regiões querem mais e mais autonomia: a Catalunha, o Norte de Itália, o País Basco, a Bretanha, a Flandres, a Irlanda do Norte...

Mas divago. Eu queria era vir para aqui sonhar um bocadinho e não meter-me numa discussão sobre nacionalidades.

Dizia eu que a minha viagem de sonho à Escócia é muito mais do que Edimburgo ou Glasgow. Há outra parte crucial, para além de a palmilhar de uma ponta à outra, que é o meio para lá chegar: obrigatoriamente partindo de King's Cross de comboio, atravessando Inglaterra toda até à região nortenha do UK. Para vislumbrar o campo inglês, uma ou outra aldeia lá ao fundo, e ver a paisagem a mudar de forma.

Esta semana, foi mesmo isso que aconteceu. Não parti de King's Cross mas de London Euston (uma vez que para Edimburgo é que eles partem de KC e eu fui para Glasgow) e a atenção à paisagem foi reduzida uma vez que ia a trabalhar (benditos comboios com wi-fi) mas deu sem dúvida para maravilhar os sentidos e espicaçar a curiosidade. Se eu pensava que tal viagem me iria apaziguar o desejo de conhecer a Escócia, enganei-me profundamente; se há coisa que fez foi tornar mais obsessiva esta vontade. 

A viagem dura cinco horas e, a cerca de hora e meia do fim, as planícies verdes inglesas começam a dar lugar a um outro tipo de paisagem bem diferente:





Olhei para o lado e até me assustei com o que passava do outro lado da janela: montes imensos, arredondados e verdes, florestas e vales, pelos quais o comboio passava, indiferente e seguindo o seu curso. Começou-me a dar um bocado de raiva por a máquina fotográfica (ou vulgo telemóvel) não estar à altura para captar a beleza do que os meus olhos viam; e convenhamos que a janela de um comboio em movimento não ajuda. Às tantas desisti e decidi apoiar-me apenas nos olhos e na memória para guardar estas vistas.

Quando parámos em Carlisle e eu vi escrito por debaixo da placa da estação a expressão "Lake District" é que me ocorreu que aquilo ainda não era a Escócia mas sim uma região que já tinha ouvido falar por alto, pautada por lagos (pois), florestas e de grande beleza natural. 

E foi então que a minha lista de "sítios a visitar antes de morrer" adquiriu mais um nome. No fundo, no fundo, o que eu quero é palmilhar o Reino Unido de uma ponta à outra, que aquilo tem tanto sítio para visitar, tanto castelo, manor, palácio, aldeia, vila e parque natural que uma vida inteira não chegava para conhecer como deve ser.

Entretanto comecei a chegar à Escócia. Uma vez que as linhas férreas não têm placas de indicação, como é que eu descobri? Muito simples:








Neve!

Quilómetros e quilómetros de manto branco a tapar aquelas montanhas e aqueles campos, que desconfio tenham outro encanto quando a neve derrete. Mas assim, de uma perspetiva quentinha e confortável, me pareceram muito bonitos na mesma. 

Ainda embriagada pelo que tinha visto na viagem, surripiei da receção do hotel uns três ou quatro panfletos de excursões pela Escócia. Só para me darem umas ideias... Entre eles havia uma revista grátis totalmente devotada a roteiros a pé pela região. Páginas e páginas com percursos de vários quilómetros, com respetivos mapas, distâncias e fotos do que se pode ver em cada um. Fiquei pasmada com a devoção que aquele povo parece ter pelas paisagens incrivelmente belas com que a natureza os brindou. De notar que este é um país onde em meados de março apanhei neve e ventos gelados, e onde no inverno anoitece às três da tarde. E não é plano, de todo. Nada convidativo a atividades exteriores, portanto. 

No meio da coleção, encontrei o que andava à procura: excursões de um, dois e três dias por sítios emblemáticos da Escócia. Ouro sobre azul: são excursões pequeninas, em carrinhas de 7/9 lugares, muito personalizadas e com guias apaixonados pelo que fazem. Desde a experiência na Normandia, onde fizemos uma destas excursões muito pessoais pelas praias e cemitérios de guerra, que acredito ser a melhor maneira de conhecer verdadeiramente uma região. Alugar um carro é aventureiro mas para quando se tem muito tempo e, arrisco, dinheiro. Há que contar com muito desvio, enganos no caminho, fails em aldeias ou vistas que não são assim tão bonitas porque na foto pareciam diferentes. Partir com um guia é ter a certeza do que se vai ver, de que vamos visitar o que há de mais bonito e historicamente relevante. E além disso, é completamente diferente acompanhar as vistas com relatos apaixonados e cheios de detalhes que só quem conhece pode dar. 

Trouxe o panfleto das excursões. O grupo chama-se Timberbush Tours e é exatamente o que pretendo no dia em que a roadtrip pela Escócia acontecer. Espantou-me os preços em conta (excursões de um dia inteiro por volta de £30 por pessoa) e a diversidade de percursos por onde escolher. Comecei logo a maquinar fazer dela a nossa escapatória deste verão, mas por mais que deseje esta viagem sei que não vou poder privar-me de verdadeiro calor e sol uma vez no ano e ir mais para o norte em vez de rumar ao sul. Este inverno extraordinariamente rigoroso não me deixa sentir bem em desperdiçar a semana estival anual numa viagem à Escócia. Cá ficará a marinar por mais uns aninhos. Entretanto, vou-me babando com as fotos do folheto.



S.


sexta-feira, 22 de março de 2013

So far, so good


Clima soalheiro do bom:



Check.

Comida mediterrânica barata e de chorar por mais:


Check.

Caramba, tinha-me esquecido - outra vez - do que é uma cidade como deve ser. E de que há mesmo uma diferença entre o pessoal do Norte e o pessoal do Sul. Gente bem mais afável e extremamente mais relaxada. 



S.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Sexismo onde menos se espera

Entretanto, numa Boots algures em Edimburgo:



Manwasher.

Esta espécie de esfregão cinzento é nada mais nada menos que uma esponja especialmente desenhada e construída para homens. É uma esponja? Não, não, é um "manwasher".

What the fuck, pergunto eu. Quem foi a cabeça brilhante que achou que havia qualquer coisa de errado com uma esponja normal para que esta pudesse ser usada por homens? Mas porquê a diferenciação forçada? O que tem uma esponja de tão feminino que tenha havido alguém que se tenha lembrado que o que fazia falta era adaptar um esfregão ao banho, para os homens se sentirem mais confortáveis a lavar a pele.

Estou a imaginar o slogan: "Manwasher. Because using a sponge is too girly." É só a porcaria de uma esponja! Usa-se para esfregar a pele, algo comum a todos os seres humanos, tenham eles pipi ou pilinha.

De reparar na cor que foi escolhida, o cinzento, uma cor muito máscula, e naquela pega de plástico, para tornar todo o objeto o mais parecido possível com uma ferramenta de construção - isso sim, de homem - e o menos possível com uma esponja, essas coisas fofinhas usadas pelas gajas com todas as suas mariquices de beleza, tipo lavar a pele como deve ser, e o caraças.

A minha questão é: será que este objeto apareceu porque foi descoberto um nicho de mercado, ou seja, há homens que realmente têm vergonha de usar uma esponja porque esponjas são coisas de gaja, ou será que o produto surgiu e criou ele próprio uma necessidade que não existia? Se calhar depois de verem este manwasher num supermercado, há homens que passaram a ter vergonha de usar uma esponja normal, porque claramente são femininas e não sabiam, porque, oh, aqui está a prova*.

O mundo do marketing e da publicidade é um poço de inspiração para a luta feminista e eu só agora me apercebi.



S.

* No fundo esta é a questão de base do feminismo: saber o que são as diferenças intrínsecas e as que são construídas por influências externas. 

Primavera, qual primavera?

Então, S., como foi o teu primeiro dia de primavera? 

Cheio de florzinhas e solinho e temperaturas agradáveis?

...

Hahahahahahaha. Não.

Tive a minha primeira descolagem de avião debaixo de queda de neve, enquanto tentava perceber se a lei do escorreganço se aplicava aos pneus dos aviões também (não tinha o meu pai ali ao lado para me descansar). Há uma semana houve tempestade de neve por aqui.

Recuso-me a juntar à festa de boas-vindas de uma estação que ainda nem se avista no horizonte aqui pelos nortes europeus.






S. 

terça-feira, 19 de março de 2013

História in da house

Eish... Conta-me História logo seguido de um Pedro e Inês no único canal disponível aqui do lar. RTP Internacional a apostar forte na História em pleno horário nobre!




Minha alma está parva.



S.

sábado, 16 de março de 2013

Um chávena de chá e uma diretiva de licença de maternidade

Mais uma vez me encontro de volta de licenças de maternidade, diretivas sobre trabalhadoras grávidas, posições do Lóbi Europeu das Mulheres, teses e apresentações de Powerpoint. A minha amada conciliação trabalho-família. Cada vez gosto mais do tema, tenho uma pontinha de orgulho pela minha humilde mas séria investigação na área, mas, caramba, hoje teria feito as coisas de maneira diferente. Espiolharia mais, metia mais o nariz onde talvez não fosse muito chamada, iria mais fundo. Três ou quatro meses não dariam para muito mais do que eu fiz, mas gosto de achar que agora I know better e utilizaria de forma ainda melhor esses meses. 

Ainda assim, vai ser uma grande honra estar na mesma sala que monstras académicas da igualdade de género, cujos livros de muitas li nas intermináveis tardes passadas na amada biblioteca da LSE, e que constam na bibliografia da minha tese bebé. Vou-me sentir um pardalito ao pé daqueles cisnes académicos, mas um pardalito entusiasmado e cheio de vontade de partilhar os três ou quatro fios de palha que achou e com os quais fez um... coiso (acabaram-se-me as analogias com o mundo das aves).



Vai ser em Barcelona, no sábado. Lá vou eu voar (olha, afinal tinha mais uma!) para os países do sul que espero se portem climatico-gastronomicamente como deles é esperado, que isto aqui anda uma tristeza. Vivi na segunda-feira a minha primeira tempestade de neve, tenho trabalhado que é maluquice, ando euforicamente agradecida por terem voltado graus positivos e acho que as gauffres do supermercado da esquina são uma iguaria. Portanto isto está grave. Tanto a nível gastronómico como climático. 

Pior: há dois ou três meses que não compro um chá de jeito. Tem sido só tiros ao lado. Acabou-se-nos o chá preferido há um mês, o Rooitea Caramel da Tee Gschwendner, e que entretanto descobri, por entre lágrimas sofridas, que custa o triplo do preço encomendando online devido aos portes. Qual a vantagem de viver no centro da Europa se está tudo tão longe na mesma? Rai's partam os portes de envio.

Desconfio que não será Barcelona que me curará esta última miséria. Mas se curar as outras duas, nem que seja por dois diazinhos, já me darei por satisfeita.



S.
    

Media, é assim mesmo #3

Só lá cheguei quando li a explicação detalhada.


Que filme tão complicadamente construído, de linhas curvas e sem continuidade linear no tempo. Tem a complexidade e aleatoriedade de pormenores tal e qual como num sonho.

Intriga, e dá pano para debates intermináveis, sem ser possível chegar-se a uma conclusão. Como disse, só o entendi satisfatoriamente quando li a explicação do Salon.com. 

Está aqui porque, para além de ter as 2 (3?) personagens femininas como absolutas principais, é uma crítica séria, velada mas forte quando nos apercebemos que ela lá está, da objetificação da mulher por Hollywood:

"He’s playing explicitly with how Hollywood uses women predominantly as sex objects — except he’s turning the formula on its head, making the women’s world a closed one, at least in Diane’s fantasy of it. But of course, in the end she’s doing the same thing a Hollywood movie normally does to a Camilla — imagining that she’s an empty object that she can possess."

As duas personagens principais + uma são complexas (como não podiam deixar de ser, depois daquele enredo tão denso e sinuoso), tão complexas como um sonho consegue ser.

Há que preparar para duas horas e meia de mind-fuck - que eu não preparei; sabia que era um thriller complicadito mas "thriller complicadito" é um grande eufemismo para o Mulholland Dr. e eu nunca tinha visto nada assim -, na certeza porém de que o Google salva a nossa curiosidade de viver para sempre intrigada.






S.


segunda-feira, 11 de março de 2013

Media, é assim mesmo #2

O descubra-o-estereótipo nem estava ligado desta vez. Há alturas em que o tenho que pôr em stand-by, alturas essas em que normalmente estou muito bem-disposta e num humor de ver tudo o que há de bom nas coisas, de dar o desconto, como se costuma dizer. Ou então alturas em que o D. me começa a lançar olhares exasperados, ou a levantar os olhos ao céu numa atitude de quem pede largas doses de paciência aos anjinhos, que isto de se ter metido com uma feminista cujo passatempo favorito é vociferar contra a televisão (eu não era assim quando ele me conheceu, coitado), não é fácil e "Deixa lá ver o filme em paz...!". Aí eu respiro fundo e rodo o botão para "stand-by", limitando-me apenas a uns ares de enfado e a um ou outro revirar de olhos. Já é palpável a dose de embaraço e culpa do homem quando aparece nudez gratuita de mulherio nos filmes - particularmente comédias, aí ela é quase sempre gratuita (e sim, revolta-me apenas a que não serve nenhum propósito na história; sou contra a objetificação da mulher, não sou púdica)  - portanto sei que de vez em quando tenho que me controlar. Para bem da minha saúde mental, também, e para continuar a conseguir ver filmes e televisão.

Dizia eu que desta vez o descubra-o-esterótipo estava apenas em stand-by. O filme em questão tinha um título meio aleatório e cómico, a frase que o recomendava prometia uma história engraçada e parecia-me que vinha de fora da máquina hollywoodesca. A introdução no artigo da Wikipédia: "Seven Psycopaths is a 2012 British black comedy..." (que só vi agora, devo dizer) faz antever que o humor que encerra não é habitual.



Sem querer entrar em spoilers, basicamente é a história de um escritor que está a escrever um policial sobre 7 psicopatas (mas que não quer que o livro seja violento) e cujas linhas de enredo de cada personagem se vão desenvolvendo e cruzando com a vida real do escritor. Há uma altura em que dois amigos dele, que se dedicam a roubar cães para uns dias depois os irem entregar e receberem a recompensa dos donos, roubam o shih tzu de um mafioso qualquer e aquilo depois não corre muito bem. É mesmo muito boa a história, as personagens e o passo do filme, que é rápido e com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo, o que resulta muito bem para comédia. Cada psicopata tem os seus próprios quirks e afetações que os tornam complexamente cómicos, e lembro-me por exemplo de um que andava sempre com um coelho branco ao colo, e que uma vez gritou ao escritor "Achas que eu estou a brincar??!! É porque tenho sempre um coelho branco, não é, ninguém me leva a sério!!" e eu desatei a rir até ficar sem ar porque, convenhamos, psicopata que é psicopata não afaga coelhos. Ainda por cima brancos, que coisa mais fofinha conseguia ele ir buscar. 

É um filme que é impossível adivinhar para onde vai a seguir e muito menos como vai acabar. Não há template nenhum que se afigure por detrás do enredo já que nunca se viu nada assim antes. São os meus preferidos, estes. Nem há o tão comum "dois finais possíveis" que normalmente acontece quando o filme é bem conseguido mas uma pessoa sabe que ou será uma coisa ou outra, não há muito por onde fugir. Aqui nem sequer seria o "o cão é devolvido / o cão não é devolvido" porque a história é bem mais densa e cheia de torpelias do que merece ser reduzida nesses termos. É filme dos bons, portanto, e comédia honestamente original.

Ainda assim, o que tem este filme de feminista para merecer figurar no "Media, é assim mesmo"? Em sete personagens no cartaz, só duas são mulheres, onde está a originalidade neste campo? A resposta é uma cena de 15 ou 20 segundos, mas que me fez rir a bandeiras despregadas pelo brilhantismo puro e tão atirado ao acaso:



"As tuas personagens femininas são terríveis."


"Nenhuma delas tem algo a dizer em sua defesa."


"E a maior parte delas ou leva um tiro"


"ou é esfaqueada até à morte em cinco minutos."


"E as que não são provavelmente vão ser mais para a frente."

                           

"Bom..."



"É um mundo difícil para as mulheres. Sabes?"


"Sim, é um mundo difícil para as mulheres,"


"mas a maior parte das que eu conheço consegue articular uma frase."


Isto é tão cómico porque aborda a questão da representação das mulheres nos filmes em geral de forma tão acutilantemente irónica, extrapola a cena onde é dita, o próprio filme, e é uma punhalada na clichézeda humorística que abunda por aí. Pareceu-me suficiente para vir parar ao "Media, é assim mesmo". Um filme não tem que ter todas as personagens principais no feminino nem versar só sobre as relações entre elas para merecer um lugar aqui. Se bem que, sabe deus o quão raro isso é. E, a sério, a originalidade do enredo e das piadas não as consigo recomendar demais.



S.

domingo, 10 de março de 2013

Exposição à vista

Há uns meses dei-me conta de uma exposição que o V&A em Londres estava-se a preparar para receber e que encaixa perfeitamente num dos meus interesses literários mais aguçados: o período Tudor. A exposição chama-se "Treasures of the Royal Courts" e conta com peças inéditas das Cortes do Henrique VIII e Elizabeth I, dos Stuarts e do Ivan, o Terrível (como este último foi aqui enfiado permanece um mistério para mim).




Infelizmente, só agora reparei que é uma exposição paga - os museus londrinos gigantes, preciosos e totalmente grátis habituaram-me mal - mas estou convicta de que valerá a pena. Só precisava de um pretexto para voltar a Londres nos próximos meses.

O pretexto chegou há uns dias, sob a forma de celebração dos 20 anos do meu curso na King's e convite para lá ir falar sobre a minha vida pós-European Studies (o que eles acham que eu possa ter de interessante para contar supera-me um bocado mas, hey, qualquer desculpa é boa para voltar a Londres :D). Calha mesmo bem para ir visitar a exposição das Cortes, que abriu ontem e lá estará até meados de julho. A ver vamos se nessa altura vai estar mais alguma coisa que valha mesmo a pena ver. Já decidi que me vou manter afastada dos veados, por isso vou ganhar umas 3 ou 4 horas para queimar a conhecer um recanto qualquer daquela cidade que ainda não tenha visitado. Talvez seja desta que vá ao mercado Spitalfields.





S.